A BARRAGEM

Robert Byrne

Cinco anos aps a sua concluso, a Barragem de Sierra Canyon, a
maior dos Estados Unidos, com duzentos e cinquenta e um metros
de altura e a mais alta barragem de terra e enrocamento do Mundo,
foi abalada por uma srie de sismos de fraca amplitude. Na
Califrnia Setentrional, as agulhas dos sismgrafos tremeram s
8.20 da
manh, hora a que ocorreu o primeiro de vinte e nove abalos
premonitrios. O sismo principal, que teve lugar cinco horas mais
tarde,
atingiu a magnitude de 5,5 na escala de Richter e fez oscilar as
louas numa rea de quinhentos quilmetros quadrados. O abalo
durou
sete segundos e surpreendeu sobretudo as pessoas que se
encontravam em casa naquele momento. A maior parte dos que
estavam na
rua atribuiu o tremor a um comboio que passava ou a um camio.
Os
pescadores e esquiadores aquticos na albufeira da barragem, o
lago
Earl Warren, no deram por nada.
  A nica situao de terror foi relatada por um homem que fazia
uma caminhada numa colina a oito quilmetros a sudoeste da
barragem, na regio epicntrica do sismo. Os movimentos do solo
atiraram-no ao cho e teve de agarrar-se aos arbustos com ambas
as
mos, a fim de no resvalar pela encosta abaixo.
  - Era como tentar agarrar-me a uma jangada em guas agitadas
- disse ele a um reprter do peridico Bee de Sacramento.
de rodas, ligeiramente inclinado para a frente, como um
comandante na ponte de um navio de guerra. O reprter pensou que,
se
Roshek pudesse andar, o faria com a passada larga de um homem
que atravessa a sala para esmurrar algum.
  A entrevista decorreu enquanto um funcionrio do aeroporto
empurrava a cadeira de rodas de Roshek em direco  rua, onde
o
aguardava uma limusina.
  - Desculpe, o meu nome  Jim Oliver, e sou do Times de Los
Angeles.
  - Os meus mais sinceros psames - ripostou Roshek, sem
voltar a cabea. - Sou leitor do Herald-Examiner. Esse, sim, 
um
verdadeiro jornal.
  - A sua firma projectou a Barragem de Sierra Canyon ...
  - Correcto, e assinmos tambm um contrato de vinte anos para
o controle do seu funcionamento.  provavelmente a barragem mais
segura jamais construda.
  Oliver, um homem de baixa estatura, tinha de caminhar o mais
depressa possvel para conseguir acompanhar a cadeira de rodas.
Explicou que o Times estava a preparar um artigo de fundo sobre
o
abalo ssmico.
  Roshek olhou para ele pela primeira vez.
  - O abalo ssmico?  por isso que est aqui? No meu tempo, os
jornais ocupavam-se de notcias. Preferia falar sobre um tema
mais
actual. Acha que os Dodgers vo conseguir voltar a marcar pontos?
  - Tentmos contact-lo em Londres.
  Roshek desviou o olhar.
  - Estava ocupado. Pensei que me estavam a ligar por causa de
uma assinatura.
  - Ficou de alguma forma preocupado com o sismo?
  - Evidentemente que sim. Tenho uma casa de frias a jusante
da barragem e a lareira pode ter ficado com rachas.
  - Mas no  de opinio que as populaes correram perigo?
  - No. Bem ... sim. O pblico corre sempre perigo. Como  que
veio at aqui? De automvel? No se preocupa com a sua segurana?
No ano passado morreram neste pas cinquenta mil pessoas
em acidentes de viao.
  - Mas no podemos ignorar que ocorreu um sismo nas proxmidades
da barragem mais alta do Mundo.
  - A mais alta represa de terra e enrocamento do Mundo. Mas h
vrias de beto mais altas. A Grande Dixence, na Sua, tem uma
altura de duzentos e oitenta e quatro metros, e a Nurek, na Unio
Sovitica, se chegar a ser concluda, ficar com uma altura
superior a
trezentos metros. O que mais aprecio num jornalista  uma
preocupao escrupulosa com a exactido.
  - A Barragem de Sierra Canyon  anti-ssmica?
  - Resistente aos sismos. Nada  anti-ssmico. O pequeno abalo
da semana passada atingiu a magnitude de 5,5 na escala de Richter
e teve o seu epicentro a oito quilmetros da barragem, que foi
concebida para resistir a um sismo com uma magnitude de 6,5 e o
epicentro a oito quilmetros de distncia. Nos ltimos cem mil
anos,
no se registou um nico sismo dessa intensidade naquela zona.
  - O pequeno abalo, como lhe chama, provocou uma paragem da
central elctrica durante quarenta e cinco minutos.
  - Isso foi o resultado de um sistema de proteco altamente
sofisticado. Na barragem e na central elctrica h centenas de
sensores. Os veios giratrios das turbinas tm cerca de noventa
centmetros de dimetro, e se vibrarem mais do que alguns
milmetros,
todo o sistema  automaticamente desligado at a situao ser
analisada. No se podem correr riscos quando se trata de
geradores de
milhes de dlares ou de barragens.
  - Mas no ser possvel que os empreiteiros que construram a
barragem no tenham seguido  risca as suas especificaes?
  - Quem  que lhe encomendou essa pergunta? O Clube Sierra?
A barragem foi construda tal como tinha sido projectada. Eu
prprio me certifiquei disso, passando l trs anos a controlar
todos os
movimentos do empreiteiro. Quis ter a certeza de que os jornais
nunca se venderiam  custa do desmoronamento da barragem.
Chegmos ao meu carro, por isso, despeo-me. Lamento no lhe ter
dito
o que esperava. Se est decidido a escrever sobre a ameaa que
as
barragens representam para as populaes, tem de sair da
Califrnia, porque aqui h um organismo oficial inteiro cuja
nica tarefa 
preocupar-se com as barragens. Em contrapartida, a maior parte
dos
estados no dispe de qualquer sistema de inspeco. E esta  a
pura
verdade!  um escndalo, meu rapaz, que merece a ateno do seu
excelente jornal. Conduza com cuidado!

  Os seis distritos que, em conjunto, eram proprietrios da
Barragem de Sierra Canyon convocaram uma equipa de engenheiros
para
destinarem se o sismo tinha, de algum modo, comprometido a
integridade estrutural da barragem. Embora no tivesse sido
detectado nenhum dano estrutural, cerca de um tero dos
instrumentos de
medio e registo implantados durante a construo da barragem
tinham ficado fora de servio devido ao sismo. Mas este facto no
foi considerado grave porque os instrumentos de controle ainda
operacionais continuavam a constituir, a nvel mundial, o maior
arsenal de aparelhos instalado numa nica barragem. Foi
considerado pouco prtico proceder  substituio dos fios e
tubos danificados que ligavam os sensores localizados na represa
aos aparelhos de
registo nas galerias de inspeco, sob a barragem.
  Os tneis de inspeco e drenagem estavam protegidos por uma
conduta de beto que percorria a barragem como uma coluna dorsal
ao nvel das fundaes. O abalo ssmico tinha provocado a
abertura
de algumas das juntas dessa conduta, permitindo a infiltrao de
gua castanha nos tneis nas semanas que se seguiram ao sismo.
Este facto preocupou os tcnicos, mas um programa de enchimento
com calda de cimento, ou seja de injeco de uma mistura de
areia,
gua e cimento de presa rpida, atravs de orifcios abertos com
um
berbequim, acabou por resolver o problema. A crise temporria no
chegou ao conhecimento do pblico.
  Na Primavera seguinte, como medida de segurana, a barragem
foi enchida, a um ritmo lento, at cerca de seis metros abaixo
do
nvel mximo. S cinco anos aps o abalo ssmico  que a
albufeira
atingiu a sua capacidade mxima, e no dia 19 de Maio, pela
segunda
vez nos dez anos de existncia da barragem, a gua extravasou por
cima dos descarregadores de superfcie, de beto, do contraforte
direito, proporcionando aos turistas um espectculo deslumbrante.
Uma toalha de gua de quase dez centmetros precipitava-se em
ondas tremeluzentes numa queda de trezentos metros, terminando
numa exploso de gotculas. Um espectculo inesquecvel para
todos aqueles que ouviram o rugido, sentiram a frescura do vento
e
da neblina ou fotografaram os arcos-ris.
  No dia 22 de Maio, a gua que escorna sobre os descarregadores
de superfcie atingiu vinte e cinco centmetros, a mxima
profundidade da histria da barragem. Estava tambm
particularmente
hmido nos tneis inferiores de drenagem e inspeco, assentes
num leito rochoso duzentos e cinquenta metros abaixo do nvel do
coroamento da barragem. A havia uma camada de gua de dois
centmetros e meio de profundidade. Durante as suas rondas
semanais, o inspector Chuck Duncan nunca tivera de atravessar os
tneis
com um nvel de gua to elevado. A gua gotejava, pingava e
escorria atravs de todos os orifcios de drenagem, fissuras e
rachas
e caa pelos interminveis lanos de escadas de cimento, numa
srie
de cascatas em miniatura. Havia mais gua do que habitualmente,
mas no em quantidade suficiente para que Duncan considerasse
necessrio anotar a ocorrncia. Os tneis ficavam sempre
encharcados quando a barragem se encontrava cheia, e o impresso
que tinha
de preencher, com as leituras dos aparelhos, no tinha espao
para
os comentrios  margem de um tcnico principiante.
  Duncan detestava os arrepiantes tneis inferiores, bem como a
longa descida, o ar viciado, a humidade e o silncio tumular. As
lmpadas do tecto estavam demasiado espaadas para iluminar
devidamente o caminho, obrigando-o a usar uma lanterna. Como 
que uma pessoa com apenas duas mos podia escrever num bloco-
notas e ao mesmo tempo segurar numa lanterna? Mas o pior de tudo
era saber que a barragem e a albufeira, com todo o seu peso, se
encontravam imediatamente por cima da sua cabea. Por vezes, esse
simples pensamento provocava-lhe suores nas costas, mau grado o
frio.
  Uma pesada porta de ao assinalava a entrada para a Galeria D,
um tnel lateral de trinta metros de comprimento que albergava
muitos dos instrumentos de controle da barragem. Era difcil de
abrir porque a estrutura tinha cedido e uma das ombreiras ficara
desalinhada. Com o bloco debaixo do brao, Duncan teve de
utilizar
ambas as mos para conseguir abri-la.
  Estar defronte dos instrumentos da Galeria D era como estar sob
uma tempestade de chuva. Com os dentes a ranger e a tremer de
frio,
Duncan apontava rapidamente os nmeros que lia nos mostradores
e procurava adivinhar aqueles cuja leitura lhe era dificultada
pela
queda de gua. No lhe competia interpretar o significado de
todas
  aquelas infiltraes nem dos valores indicados nos aparelhos
relativamente ao estado da barragem. A sua nica preocupao era
preencher todos os espaos em branco do impresso e ir-se embora.
Uma
  vez de volta  superfcie, iria fazer um intervalo, acender um
cigarro
  e pensar no seu prximo encontro com Carla, sexta-feira 
noite.


Captulo 2

Depois de apenas trs semanas na Califrnia Meridional, Phil
Kramer, o mais recente funcionrio da Roshek, Bolen & Benedetz,
Inc., encontrava-se numa situao que se lhe afigurava
extraordinria,
isto , deitado no cho num espesso tapete em Santa Mnica. Um
ms antes estava a cortar a relva em Wichita, no Kansas.
  - L porque te formaste, no quer dizer que no tenhas de
cortar a relva - disse-lhe a me.
  Cada vez que passava com a ruidosa mquina junto do alpendre,
parava para admirar o documento emoldurado encostado aos degraus:

  O Reitor da
  UNIVERSIDADE DO KANSAS
  atribuiu a
  PHILIP JAMES KRAMER
  o grau de
DOUTOR EM ENGENHARIA CIVIL

  Como adorava aquele pedao de papel! Ele representava sete
anos de trabalho que lhe tinham parecido interminveis. E agora,
como que por milagre, estava no apartamento de uma rapariga, a
dois quarteires de distncia do oceano Pacfico. No sabia
exactamente o que o esperava. O que Janet lhe tinha dito era que
lhe ia
fazer uma massagem.
  - Levaste-me a dois restaurantes caros, arranjaste-me o carro.
Agora  a minha vez de te dar alguma coisa. Vou fazer-te a minha
massagem de luxo classe A. Deita-te no tapete em frente 
lareira,
enquanto ponho a minha farda de massagista - disse-lhe.
  Hesitante, Phil aproximou-se do tapete. E se ela estivesse a
brincar com ele?
  - No estejas envergonhado. Vais ver que vais adorar.
  Esperou, deitado no tapete de barriga para baixo, com o queixo
apoiado nas costas das mos, saboreando o calor da lareira. O
mais
extraordinrio de tudo  que aquela era apenas a terceira noite
que
saam juntos. Phil era tmido, sobretudo com as mulheres. Quando
adolescente, a sua grande estatura e o seu rebelde cabelo ruivo
faziam-no sentir-se desajeitado e at mesmo absurdo. Quando
andava
na faculdade, ainda no se sentia muito seguro de si prprio. Era
demasiado alto e nervoso, com um nariz sardento que lhe tirava
a
credibilidade. Tinha aprendido a viver com a dura realidade de
que
todas as raparigas que se interessavam por ele seriam
provavelmente mais conhecidas pela inteligncia do que pela
beleza.

  Conhecera Janet Sandifer num fim=de-semana, durante um
seminrio sobre novas linguagens de computador. Nos intervalos
para o
caf, tinha por diversas vezes olhado para Janet, mas s quando
ela
lhe sorrira  que havia tido coragem para meter conversa. Ela
possua um corpo elegante e compacto e um rosto que o atraa como
um
man. Conclura o curso na UCLA h trs anos, tendo-se formado
em Informtica e Matemtica, e trabalhava actualmente como
analista de sistemas numa firma em Torrance que projectava e
produzia
instrumentos cientficos.
  Phil fechou os olhos e sorriu. A vida estava a correr-lhe bem.
Era
maravilhoso ter terminado os estudos. Ainda tinha nos ouvidos as
palavras de elogio dos professores pela sua tese sobre a previso
computorizada da ruptura de barragens e conseguira arranjar
emprego numa das mais prestigiadas firmas mundiais de engenharia.
  A nica coisa que no lhe tinha corrido muito bem ultimamente
fora a resposta absurda que o computador da empresa Roshek, Bolen
& Benedetz lhe tinha dado quando tinha aplicado  Barragem de
Sierra Canyon o seu programa de previso de ruptura. Os resultados
obtidos indicavam que a barragem estava na iminncia de rebentar
como um balo cheio de gua, o que queria dizer que havia algo de
errado com os computadores, a barragem ou o programa. Os
computadores estavam a funcionar na perfeio; a barragem era de
uma
concepo universalmente admirada. Por isso, o problema tinha
forosamente de residir no programa. Ia expor a questo a Janet
e
talvez ela conseguisse detectar algumas falhas.
  Janet, com uma espcie de vestido japons, estava agora
ajoelhada a seu lado.
  - Tens de perceber que no estou a tentar seduzir-te. Estou
apenas a dar-te uma massagem. Fecha os olhos - disse.
  Com os dedos, fez presso nos msculos do pescoo dele e
insistiu para que relaxasse.
  - Pareces uma mola sob tenso. Nunca foste massajado? -
perguntou.
  - A massagem no  muito vulgar no Kansas - respondeu ele.
  Ela massajou-lhe o couro cabeludo e, com as palmas das mos,
os ombros. Carregando com fora, deslocou lentamente as pontas
dos dedos desde o pescoo at  parte inferior das costas.
  -  incrivelmente agradvel - disse Phil. - No sei durante
quanto tempo  que vou aguentar esta sensao de prazer. Sinto-me
um egosta por me limitar a estar aqui deitado.
  - Estou a dar-te um presente e  justo que te d prazer.
  Depois de ela dizer isto, foi fcil.

  A sEDE da Roshek, Bolen & Benedetz, em Los Angeles, ocupava
trs pisos da Torre Tishman, no Wilshire Boulevard. Em cada piso,
havia cem funcionrios, na sua maioria engenheiros, que
trabalhavam em estiradores situados numa rea central rodeada de
gabinetes.
  No dia 28 de Maio, quinta-feira, Phil Kramer chegou ao
escritrio uma hora mais cedo, sentou-se a um terminal e carregou
no
computador o seu programa remodelado de previso de ruptura de
barragens. A remodelao tinha sido o resultado de cinco noites
de
trabalho com Janet. Ela no sabia nada sobre barragens, mas era
capaz de seguir um raciocnio lgico e de fazer perguntas que o
tinham levado a alterar algumas das suas premissas numricas.
Fora
ela quem aventara a hiptese de o modelo matemtico originrio
ser
demasiado reduzido e simples para ser aplicvel a Sierra Canyon.
O
modelo tinha de ser alargado a fim de se adaptar s verdadeiras
dimenses da barragem e ao volume de dados, superior  mdia,
fornecido pela instrumentao. Do seu esforo conjunto, resultara
um programa feito expressamente para Sierra Canyon.
  Quando concluiu as operaes preliminares, Phil pegou numa
cpia do ltimo relatrio de inspeco da barragem. As ltimas
leituras dos instrumentos situados na Galeria D datavam de h
trs
semanas, quando o nvel da albufeira se encontrava cerca de metro
e meio abaixo do descarregador de superfcie do coroamento da
barragem. Introduziu os dados no sistema e deu instrues ao
computador para fazer uma estimativa sobre o estado da barragem,
tomando como base as premissas que ele chamava a melhor das
hipteses. Quatro minutos mais tarde, surgiram no monitor
colunas de
nmeros. Estas colunas representavam cada um dos blocos de cerca
de sete mil metros cbicos de barragem que apresentavam valores
anormalmente elevados de infiltrao, tenses, assentamento ou
deslocao. No monitor, surgiram vinte blocos sob o ttulo
Valores superiores aos previstos no projecto e cinco sob a
designao
de Em situao crtica. Necessidade de proceder a uma inspeco
visual.
  Phil -- franziu o sobrolho e abanou a cabea, pensando se no
deveria deitar fora o programa e recomear tudo de novo.
Aparentemente, estava ainda mais inadaptado do que inicialmente.
Ordenou
ao computador que repetisse a estimativa, partindo das piores
premissas, intituladas A pior das hipteses. Desta vez,
surgiram
quarenta e sete blocos considerados como apresentando Valores
superiores ...  e doze como Em situao crtica. Os valores
desapareceram e foram substitudos pela mensagem Aco
urgente.
Depois, Phil pediu uma visualizao das seces crticas.
Surgiram
ento no monitor imagens triangulares, cujo principal plano de
falha era assinalado por linhas a tracejado mveis e que
correspondia
em todos os casos  zona de menor cota, situada aparentemente
entre a represa e a fundao rochosa.
  Seguiu-se uma nova mensagem: Esto a sair disparates? No
desesperes. Verifica se foram introduzidos disparates. Era uma
das
mensagens que Phil tinha includo no programa a fim de quebrar
o
tdio.
  Quando ligou para o escritrio onde Janet trabalhava, ela
saudou-o alegremente.
  - Como  que est tudo a correr na Engenharia Colossal?
  - Maravilhoso. De acordo com o crebro gigante, a nossa melhor
barragem est a desmoronar-se em quarenta e sete pontos ao
mesmo tempo. Janet, os resultados so ainda piores do que dantes.
Penso que a lgica est correcta e que as minhas premissas
iniciais
 que devem ser demasiado pessimistas.
  - Nesse aspecto, no te posso ajudar. Porque  que no colocas
o problema ao velho, como  que ele se chama, Roshek? Talvez ele
fosse capaz de descobrir a falha num segundo.
  Phil riu.
  - Deves querer que me matem. Tenho um medo terrvel do
homem. Devias ver como ele passa aqui de manh, com as suas
canadianas. Juro-te que  capaz de derrubar um tipo s com o
olhar.
  - Tens de falar com algum.
  - Queres que eu rena os principais scios para lhes comunicar
que, de acordo com os meus clculos, a Barragem de Sierra Canyon
vai a caminho de Sacramento? Iam-se fartar de rir. Acabei de sair
da
faculdade e todos esperam que eu aja como um ignorante.
  - s demasiado tmido. Tens um programa muito engenhoso.
No h nenhum chefe com quem possas falar?
  - Talvez pudesse falar com Herman Bolen, que foi quem me
entrevistou antes de ser contratado.  um tipo simptico, embora
um pouco pomposo.
  - Ento fala com ele. Se a barragem cair amanh, com certeza
no vais querer ter de dizer que sabias que isso ia acontecer, mas
que
tiveste vergonha de contar a algum.
  Phil passou o resto da manh a procurar arranjar coragem para
pedir  secretria de Bolen que lhe marcasse uma entrevista. Por
duas vezes, estendeu a mo para o telefone e acabou por desistir,
intimidado por vises terrveis. Bolen era capaz de lhe dizer,
furioso: No est bom da cabea? Tenho mais que fazer do que
falar
com crianas sobre as suas alucinaes. Outra possibilidade era
Bolen despedi-lo imediatamente pelo facto de no se dedicar
inteiramente ao trabalho que lhe competia.
  Phil fazia parte de uma equipa de quatro membros encarregada
de elaborar o projecto de uma barragem de enrocamento para uma
explorao agrcola no Brasil. Passava a maior parte do tempo a
verificar os desenhos e os clculos de computador de outras
pessoas, mas tinha a certeza de que, se se aplicasse, lhe dariam
maior
responsabilidade. Era possvel que ainda naquele ano acompanhasse
o responsvel da equipa ao local de construo. Uma viagem
ao Brasil! Uma oportunidade que nunca teria se tivesse entrado
para
uma das pequenas empresas de consultoria de Wichita.
  Estendeu novamente a mo para o telefone. Talvez Bolen ficasse
impressionado com um novo funcionrio com uma capacidade de viso
que ultrapassava os limites das suas funes imediatas. Phil
recordou vrios conselhos que o pai lhe tinha dado sobre
como vencer no mundo dos negcios. Se tiveres um problema que
no s capaz de resolver, vai ter com uma pessoa que saiba e
certifica-te de que os teus dados esto correctos.
  Phil franziu as sobrancelhas. Os seus dados datavam de h trs
semanas. Era melhor obter as ltimas leituras dos instrumentos.
Pegou no telefone e ligou para Sierra Canyon.

  HERIvtAN Bolen estava instalado no segundo maior gabinete da
empresa. O lado esquerdo da sua secretria assemelhava-se ao
painel de comando do seu avio particular. Bastava-lhe carregar
um
boto para chamar a secretria, ligar para cinquenta nmeros
diferentes espalhados pelo Mundo, obter uma cotao da Bolsa ou
abrir
as persianas.
  No se importava de ser o nmero dois da firma quando o nmero
um era Theodore Roshek. Roshek era um engenheiro brilhante, com
uma capacidade de trabalho sobre-humana, e, por isso,
merecia ter uma quota maior nos lucros. Na realidade, Herman
Bolen estava grato a Roshek, porque se Roshek no tivesse apostado
nele, anos atrs, provavelmente Bolen seria ainda um escravo num
organismo pblico, o Gabinete de Expropriaes. Assim, graas ao
seu trabalho rduo e a Roshek, gozava agora de um poder e
prestgio considerveis, estava a ganhar mais dinheiro do que
alguma vez
imaginara e tinha participado em algumas das mais notveis
proezas de engenharia do sculo: as Refinarias Integradas do
Iraque, o
oleoduto do Alasca, o canal do Sinai, a Barragem de Sierra
Canyon.
  Dava-se bem com Roshek, uma pessoa normalmente dura e
agressiva. Bolen, pelo contrrio, era afvel e paternal e
amenizava
sempre os problemas causados por Roshek. Mas nem tudo na sua
vida era perfeito. Bolen tinha pena, por exemplo, de que o cabelo
lhe estivesse a cair e que a barriga se estivesse a tornar cada
vez
mais proeminente. O seu corpo em forma de pra estava a ganhar
lentamente peso - de acordo com a sua calculadora, estava a
aumentar a um ritmo mdio de cerca de quatrocentos gramas por
ms.
Era evidente que no bastava ler sobre dietas. Carregou num boto
e imediatamente apareceram num pequeno visor as horas, com
aproximao at ao centsimo de segundo, em doze locais
diferentes.
Em Los Angeles eram 17.06.34.14. Estava na altura de ir para
casa.
  Bateram ao de leve  porta e surgiu a cabea cinzenta da sua
secretria.
  - Aquele rapaz, Mr. Kramer, de l de baixo, est aqui para
falar consigo - anunciou.
  - Ah, sim. Mande-o entrar.
  Kramer era o rapaz que fora recentemente admitido na empresa.
Bolen tinha recomendado que o contratassem. Era um jovem
simptico e de boas maneiras, exactamente o tipo de matria-prima
de que
a empresa necessitava.
  Kramer parecia ligeiramente acanhado enquanto lhe agradecia o
tempo dispensado e se sentava na beira de uma cadeira.
  - Disse-me que sempre que tivesse algum problema podia vir
falar consigo.
  Bolen sorriu amigavelmente. Tinha de pr o rapaz  vontade.
  - Disse e repito. Sei como  difcil sair directamente da
faculdade para uma grande organizao e ter de enfrentar o choque
com
o mundo real - confirmou, rindo por entre dentes. Mas o jovem
visitante continuou a fit-lo de sobrolho franzido. Bolen cruzou
os
dedos e inclinou-se para a frente. - Ento, que  que se passa?
  - Bem, Mr. Bolen, h efectivamente um problema. Penso que
uma das obras da companhia .. , quero dizer, de acordo com um
modelo de computador que tenho estado a utilizar ... acho que a
Barragem de Sierra Canyon est, ou pode estar, posso estar
enganado e s desejo que o senhor me consiga provar que sim; bem
...
  - Mr. Kramer, seria capaz de me expor o problema de forma
ordenada. Afinal que  que se passa com Sierra Canyon?
  Phil comeou de novo.
  - Quando estava na faculdade elaborei um programa de anlise
de barragens com o objectivo de detectar as condies que podem
anteceder ... aah ... rupturas. Trata-se de um modelo matemtico
baseado nos dados de dez barragens que considera variveis tais
como presso intersticial, taxas de assentamento, infiltrao sob
vrias cargas hidrostticas, etc. Compreende igualmente uma
anlise comparativa com vrias barragens que falharam e que
obtive
estudando Baldwin Hills e Teton.
  - Sim. Tenho ideia de ter lido isso no seu currculo. Um belo
trabalho para um estudante; muito imaginativo. - Onde seria que
Kramer queria chegar?
  - Considero no s os valores relativos a presso, infiltrao,
assentamento e movimentos nas diferentes partes da represa, como
tambm as suas inter-relaes e, sobretudo, a taxa de variao
desses valores  medida que a albufeira enche.
  Bolen acenou com a cabea e procurou adoptar uma expresso
que revelasse simultaneamente compreenso e ligeira impacincia.
  - Mr. Bolen, por minha conta, tenho estado a aplicar o meu
programa a Sierra Canyon. O que se passa  que - fez uma pausa
-,
de acordo com o modelo, a barragem no est ... no est l em
muito boas condies.
  Bolen esboou um sorriso.
  - Ento, ento, Mr. Kramer ...
  - Eu sei que parece ridculo e quando pedi que me recebesse
tinha a inteno de lhe pedir um conselho sobre se deveria ou no
rever o programa. Mas, esta tarde, comecei a pensar se no terei
descoberto alguma coisa.
  - Ah, sim? - Bolen estava a comear a encarar o jovem
engenheiro sob um ngulo menos favorvel. Era esperto, mas, de
certa
forma, imaturo.
  - Tinha estado a utilizar leituras de h trs semanas, quando
o
nvel da albufeira se encontrava metro e meio abaixo do
coroamento
da barragem. Esta tarde utilizei valores de sexta-feira passada,
dia 22 de Maio, quando o nvel da gua se encontrava cerca de
trinta
centmetros acima do descarregador de superfcie. O computador
revelou que ... que ...
  - Que a barragem est prestes a sofrer uma ruptura.
  Phil suspirou.
  - Em toda a zona compreendida entre a seco transversal
mxima e o contraforte direito.
  Enquanto procurava um comentrio com a dose adequada de
sarcasmo, sem ser insolente, Bolen perguntou a Phil como  que
tinha obtido os valores de sexta-feira.
  - Liguei para a barragem - respondeu Phil.
  - Fez o qu?
  - Falei com o responsvel pela manuteno e inspeco. Um
Mr. Jeffers. O nvel da albufeira nunca esteve to elevado.
  - Falou com Jeffers? E disse-lhe que trabalhava na RB & B?
  - Sim, Mr. Bolen. Perguntei-lhe se havia excesso de infiltrao
na Galeria D e ele respondeu-me que o inspector no lhe tinha dito
nada. Informei-me sobre os aparelhos que no estavam a funcionar
e fiquei espantado ao descobrir que com o sismo de h cinco anos
...
  - Basta. - Bolen elevou ligeiramente o tom de voz e ergueu a
mo ordenando silncio. - Isto  muito grave. Algo tem de ser
feito, mas ainda no sei exactamente o qu.
  - Bem, podiam abrir-se as comportas para comear a vazar o
reservatrio e talvez proceder a uma inspeco especial ...
  - No  a isso que me estou a referir.  a si! E necessrio
fazer
algo acerca de si - disse Bolen quase a gritar. Surpreendido com
a
sua prpria veemncia, baixou o tom de voz. - A nica falha com
que temos de nos preocupar  a sua falta de perspectiva. J
alguma
vez viu a Barragem de Sierra Canyon? J alguma vez trabalhou no
projecto ou construo de alguma barragem?... Bem me parecia que
no. - Bolen perscrutou a cara do jovem, que estava a comear a
corar, e no conseguiu deixar de sentir pena dele. Phil estava a
ser
sincero e provavelmente esperava ser elogiado pelo seu esforo.
Bolen retomou a sua atitude compreensiva e disse: - Gostaria que
se dedicasse s tarefas para que foi contratado e que no
utilizasse
os computadores a no ser para aquilo que est autorizado a fazer.
No comente com ningum o que fez. Caso contrrio, posso
garantir-lhe que ser alvo de troa nos prximos anos. E, acima
de tudo,
no volte a ligar para a barragem e deixe-a nas mos daqueles que
  vivem com ela desde o dia da sua concepo. Combinado?
  Kramer fez um gesto com as mos, mas depois, vencido, deixou-as
cair no colo.
  - Fiquei 'verdadeiramente assustado com os resultados das
leituras - disse em tom baixo. - Continuo a pensar que se devia
enviar um inspector  Galeria D, porque os valores so elevados
qualquer que seja o padro adoptado.
  - Reconheo que voc defende com coragem as suas convices
mesmo quando elas esto erradas. - Bolen acenou vagamente
com a mo em direco  porta para lhe indicar que a entrevista
terminara. Enquanto Kramer se levantava e se dirigia para a
porta,
Bolen f-lo parar com um comentrio final destinado a anim-lo.
--No vou transmitir a Mr. Roshek o contedo desta nossa
conversa.
 um assunto que fica s entre ns dois.
  Kramer acenou com a cabea e fechou a porta atrs de si.
  Trinta minutos mais tarde, depois de estudar o relatrio sobre
Sierra Canyon, Bolen premiu um boto da sua consola. A oitocentos
quilmetros de distncia, numa central hidroelctrica
subterrnea, retiniu um telefone.
  - Fala Jeffers.
  - Aqui, Herman Bolen. Estava com medo que j tivesses sado.
  - Ol, Herman! Aqui nas montanhas ns trabalhamos dia e
noite. No  como vocs, seus finrios da cidade.
  - Troco contigo quando quiseres vir respirar este ar durante
uns
tempos. Larry, esta tarde recebeste alguma chamada do nosso
funcionrio Mr. Kramer'?
  - Sim, recebi. Deixa c ver o que  que ele queria ... Parecia
muito excitado, sobretudo quando descobriu que muitos dos
instrumentos estavam fora de servio desde o sismo.
  - Foste tu que lhe disseste isso?
  - Sim, mencionei-o de passagem. Pensei que todos os
funcionrios soubessem. Falei com Roshek para saber o que  que
se estava a passar e a telefonista contactou-o em Washington! No
tinha
qualquer inteno de o ir incomodar to longe. Ele disse-me que
no
conhecia Kramer e pareceu um pouco aborrecido com a questo.
  Bolen tinha estado a fazer rabiscos num bloco de apontamentos
e partiu o bico do lpis quando Jeffers lhe mencionou o
telefonema
para Roshek.
  - Obrigado - disse. - Ele j  difcil quando est contente ...
  Jeffers riu.
  - Desculpa l. Roshek telefonou-te?
  - No, mas tenho a certeza de que o far. Kramer  um jovem
engenheiro que acabou de entrar para a empresa. Demos-lhe um
trabalho de pesquisa para fazer e no pretendamos de forma alguma
que ele comeasse a fazer telefonemas para todo o lado -
acrescentou Bolen, rindo para conferir um tom trivial ao assunto.
- Mas ao
olhar para alguns dos nmeros que ele referiu, parece-me que a
drenagem na Galeria D est um pouco elevada, no achas?
  - Talvez um pouco em relao ao ano passado, mas no muito.
  - Acho que a barragem est sob carga mxima pela primeira
vez nos ltimos anos. Larry, quero que faas uma inspeco visual
 Galeria D. Pessoalmente.
  Jeffers resmungou.
  - Herman, sabes a chatice que  ir l abaixo? Duzentos degraus!
De qualquer modo, Duncan foi l na sexta-feira passada.
  - Duncan no tem a tua experincia. Vai l pessoalmente,
Larry, e depois telefona-me para me contares o que viste.
  - Queres dizer, hoje  noite? Estou tramado.
  - Sim, hoje  noite. Se h algum problema,  necessrio agir
imediatamente, atendendo ao nvel do reservatrio. Se, por
milagre, o jovem Kramer descobriu algo, no queremos que, mais
tarde,
nos venha dizer que j nos tinha avisado.
  Jeffers suspirou.
  - Est bem, chefe. Telefono-te amanh.


Captulo 3

BARRY Clampett apresentou-se a Roshek e pediu desculpa pelo
adiantado da hora.
  - Quando o presidente soube que estava na cidade para
participar na conferncia sobre engenharia - disse Clampett -,
achou
que seria boa ideia marcar uma reunio. Deixe-me desde j
apresentar, em seu nome, desculpas por no poder estar aqui.
  - Quando o presidente dos Estados Unidos faz um convite --
disse Roshek, pondo de lado as canadianas e sentando-se numa
cadeira -, no se pe em causa se a hora  conveniente ou no.
  Eram 9 horas da noite e o cu j estava escuro. Atravs das
janelas, Roshek podia ver as luzes acesas noutros edifcios
governamentais, bem como descortinar, por entre as rvores, o
Monumento a
Washington, intensamente iluminado por holofotes.
  Roshek olhou para o homem sentado  sua frente. Era calmo,
eficiente, com um olhar directo.
  - Ento, de que  que se trata? - perguntou. - Sei que tm
andado a fazer investigaes sobre mim. Alguns dos meus amigos
disseram-me que foram interrogados por agentes do FBI.
  - Espero que no tenham sido demasiado maadores.
  - S me pergunto se ser necessrio. A minha empresa tem
realizado, ao longo dos anos, muitos trabalhos para os militares.
Por
isso, acho que o meu registo deve conter todo o tipo de
referncias.
  - Sim, com excepo de uma. Precisamente a que  indispensvel
a um homem que pode vir a tomar-se uma figura pblica.
  Figura pblica? Roshek tinha ouvido rumores sobre a
possibilidade de nomeao para um cargo, mas no lhes atribura
qualquer
importncia.
  Clampett abriu uma pasta que se encontrava em cima da
secretria.
  - O que necessitamos de saber est relacionado com certos
aspectos de carcter pessoal. Aspectos que podem trazer problemas
 Administrao se chegarem ao conhecimento da oposio. -- Tirou
da pasta uma folha de papel e comeou a examin-la. -- Theodore
Richard Roshek. Nascido a 22 de Maio de 1919. Licenciado pelo MIT
em 1939. Trabalhou no Gabinete de Expropriaes
em projectos e construo de barragens. Durante a II Guerra
Mundial, serviu com distino no Corpo de Engenheiros do
Exrcito.
Contraiu matrimnio com Stella Robinson em 1946. Sem filhos.
Constituiu a sua prpria firma de consultoria em 1947,
actualmente
classificada pela Engineering News-Record como a dcima segunda
maior empresa a nvel nacional. Uso parcial dos membros
inferiores devido a poliomielite no diagnosticada em 1953.
  - Espero que no lhe tenha custado muito caro obter essas
informaes. A maior parte encontra-se no Quem  Quem na
Engenharia.
  Clampett sorriu e perguntou.
  - Tem alguma conta bancria pessoal de mais de mil dlares
em algum pas estrangeiro?
  - Bem gostava de ter.
  - Alguma vez contraiu um emprstimo ou concedeu crdito a
uma pessoa ou firma com relaes com o crime organizado?
  -  evidente que no! Onde  que pretende chegar?
  Clampett apagou o cigarro e fixou o olhar em Roshek.
  - O presidente est a pensar formar um Departamento de
Tecnologia, o que implicaria uma importante reorganizao. O
Gabinete de Expropriaes, as funes civis do Corpo de
Engenheiros,
os Transportes, o Ambiente, a Energia e cerca de uma dzia de
programas de investigao financiados pelo Governo seriam todos
colocados sob a mesma alada. Estamos  procura de um responsvel
e o seu nome, Mr. Roshek, figura entre o reduzido nmero de
engenheiros e cientistas considerados como possveis candidatos.
O
ttulo do cargo seria secretrio de Estado da Tecnologia.
  Roshek escutou num crescendo de espanto. Um lugar no Governo!
Nunca tinha considerado seriamente essa possibilidade. Ser
responsvel pelos fundos federais destinados  cincia e
tecnologia, bem como pela definio da poltica e das
prioridades, era um
cargo que lhe conferiria um enorme poder.
  - A sua empresa - prosseguiu Clampett - teria de ficar entregue
aos seus scios durante algum tempo e as suas aces sob
custdia, a fim de evitar um conflito aberto de interesses.
  - Sim, com certeza. - Roshek pensou nos seus scios. Em sua
opinio, Bolen era o tipo de pessoa que fica sempre em segundo
lugar e Benedetz no passava de um administrativo com a aparncia
de guarda-livros. Mas talvez os dois em conjunto fossem capazes
de
dirigir a firma durante uns tempos sem causarem danos
irreparveis.
  - As suas credenciais so excelentes - prosseguiu Clampett.
-  conhecido como um homem imaginativo ao nvel da concepo e
conservador ao nvel da execuo. Os seus planos distinguem-se
simultaneamente pelo seu vigor e esttica. Tudo isto pode
ser vendido.
  - Vendido?
  - Aos eleitores. Ao Congresso. A sua imagem pblica, veiculada
atravs dos meios de comunicao, seria a de um homem experiente,
honesto e ntegro - disse, esboando de novo um leve
sorriso. - Compreende, Mr. Roshek, que em questes desta natureza
a imagem  to importante como o contedo, se pretender sobreviver
aos inquritos de confirmao do Senado.
  Enquanto Clampett prosseguia, a mente de Roshek trabalhava
rapidamente. Colocar temporariamente a sua participao na
empresa sob custdia no lhe iria custar nada. Em contrapartida,
os
governos estrangeiros adorariam negociar com uma firma cujo
verdadeiro dirigente era membro do Governo Norte-Americano.
Quando o seu mandato terminasse, teria estabelecido linhas de
contactos que lhe dariam uma posio de vantagem num sem-nmero
de contratos.
  - O senhor costuma jogar? - perguntou Clampett.
  - Sim. De vez em quando aposto pequenas quantias em jogos de
pquer com amigos.
  - Alguma vez se embriagou?
  - A ltima vez foi no Dia D em Frana. Por amor de Deus ...
  - Estes so aspectos da sua vida que a nossa fabulosa imprensa
livre tratar de vasculhar logo que o seu nome seja avanado. No
temos qualquer interesse nos seus vcios secretos, a no ser que
no
possam ser mantidos como tal. O seu casamento  slido?
  Roshek cerrou os lbios.
  - Se o meu casamento  slido! No me faa rir! H quanto
tempo estou casado com Stella? H cento e cinquenta anos?
  - Trinta e cinco. - Clampett fechou a pasta e afastou-a para
um dos lados. - Mais alguma coisa que deva ser do nosso
conhecimento? Algo que possa ser utilizado contra ns ... e o
senhor? Pense
bem.
  - Deixe-me ver ... No, acho que no esqueceram nada. - No
tinham feito qualquer referncia a Eleanor. De certeza que
aqueles
bisbilhoteiros sabiam da sua existncia, mas ele no tinha
qualquer
inteno de mencionar o seu nome.
  Clampett fixou o seu olhar firme em Roshek.
  - Ao longo deste ltimo ano - disse -, tem sido bastante visto
na companhia de uma senhora, Eleanor James, em S. Francisco.
  - Esse assunto no lhe diz respeito.
  - Diz, se pretender candidatar-se a um dos mais importantes
cargos jamais criados no Governo Federal.
  - Est bem, eu conto o que se passa. Nos ltimos cinco anos,
tenho-me interessado por ballet. Tenho contribudo para o Ballet
de
S. Francisco e conheo o elenco da companhia. Eleanor James 
uma bailarina que pretende montar o seu prprio estdio. Para
isso,
necessita de financiamento e eu tenho-me encontrado com ela, por
diversas vezes, para debater a possibilidade de concesso de um
emprstimo. E a histria termina aqui.
  - Compreendo. Os encontros tm lugar em restaurantes de
S. Francisco, como o Blue Fox, o St. Tropez e o La Bourgogne.
  - Oua, esta rapariga  a coisa mais maravilhosa que alguma
vez me aconteceu na vida e no vou abdicar dela.
  - Estamos apenas a sugerir discrio. Os restaurantes pblicos
no so de forma alguma o local ideal para um homem casado e
possvel candidato a um elevado cargo governamental tratar de
negcios com uma mulher solteira, atraente e trinta anos mais
nova.
No concorda? - Clampett ergueu-se e estendeu a mo. - Aceitar o
cargo se lhe for oferecido?... ptimo. Depois, entraremos em
contacto consigo.

  A SERPENTEANTE garganta de trinta quilmetros de comprimento
escavada pelo rio de Sierra Canyon no sop das montanhas a
nordeste de Sacramento  demasiado estreita na maior parte da sua
extenso para albergar pouco mais que uma estrada secundria e
uma fila de cabanas. Cerca de vinte quilmetros a montante da
sada
do desfiladeiro, o vale alarga-se o suficiente para acomodar as
ruas
ladeadas de rvores de Sutterton. No sculo xlx, Sutterton era
uma
povoao calma que florescia e declinava alternadamente, sob a
influncia de sucessivas ondas de prospectores, mineiros,
exploradores florestais e construtores da via frrea. Por volta
dos anos 30,
estava reduzida a pouco mais que um ponto de partida para
pescadores e caadores.
  Nos anos 60, Sutterton foi assediada por uma nova onda de
invasores: gelogos, agrimensores, analistas de solo, hidrgrafos
e
engenheiros civis em busca do melhor local para a construo de
uma barragem de dimenses jamais igualadas. Imediatamente a
seguir vieram representantes do Corpo de Engenheiros, do Gabinete
de Ordenamento do Territrio, da Diviso das Auto-Estradas da
Califrnia, bem como de outros organismos distritais, estatais
e
federais, que reivindicavam jurisdio sobre partes do projecto.
  Os proprietrios do projecto, os Distritos Hdricos Combinados,
mandataram a firma de engenharia Roshek, Bolen & Benedetz, Inc.,
para a elaborao dos planos e o controle da construo da
barragem. Um ano antes de o projecto estar concludo, a RB & B
adjudicou dois contratos preliminares: a construo de um tnel
para
desviar o rio do local de construo e a escavao de uma caverna
onde iria ser implantada a central hidroelctrica.
  O tnel de derivao, com cerca de cinco metros de dimetro,
penetrava na montanha ao nvel do rio e emergia cento e vinte
metros a jusante. O desvio do rio para o tnel foi presenciado
por centenas de pessoas. O feito teve lugar no Outono, altura em
que o caudal do rio era cerca de um dcimo do atingido durante
as cheias
#

o?

:ruais dct Primavera. A uma sinal, urna frota de camies e de
bulldoser-s foi depositando sucessivas cargas de pedra no rio,
aproximando
progressivamente as duas margens at cortar completamente o
canal. O nvel da gua subiu rapidamente, mas antes de galgar a
barreira. e de a arr;s5tar-, encontrou a entrada para o tnel.
O pblico
aplaudiu quando a gua penetrou no tnel e, novamente, quando
emergiu pela outra extremidade.
  Uma vez desviado o curso do rio, iniciaram-se os trabalhos nas
fundaes da barragem. Gradadores, escavadoras e outras mquinas
removeram as camadas superficiais de terra de um lado para o
outro
da garganta e abriram depois ma vala com seiscentos metros de
comprimento por cento e cinquenta de largura e quarenta e cinco
de profundidade. As fendas na fundao rochosa foram colmatadas
com argamassa injectada sob presso em orifcios de trinta metros
de profundidade abertos com o auxlio de perfuradoras.
Seguidamente, foi construdo no fundo da vala uma conduta central
de beto
com vinte e cinco metros de altura e quarenta e cinco de
dimetro, que albergava os tneis de drenagem e inspeco, aos
quais se acedia atravs de escadas que partiam da central
hidroelctrica.
  Uma vez concludos os trabalhos de fundao, a barragem ganhou
forma rapidamente. Durante vinte horas por dia, cinquenta
gradadores e camies deslocavam-se entre o local da obra e as
pedreiras vizinhas. As sucessivas camadas de cerca de trinta
centmetros de espessura eram constitudas por uma faixa central
de argila
impermevel, ladeada em zonas perfeitamente definidas por terra
e pedra e acamadas por cilindros compactadores.
  No ano seguinte  adjudicao do contrato de construo da
barragem, no valor de duzentos milhes de dlares, a populao
de Sutterton tinha duplicado, e duplicou de novo no ano seguinte.
Os recm-chegados eram especialistas em reas como produo de
beto, manobra de equipamento pesado, construo em ao e remoo
de terras. Durante quase quatro anos, os habitantes de Suttertorr
tiveram de suportar as exploses e o p, mas poucos se queixaram
porque a barragem estava a contribuir para o crescimento da
povoao. Surgiam constantemente novos postos de abastecimento
de combustveis, stands de automveis, agncias imobilirias,
lojas de lembranas e parques de campismo, e a estrada a sul da
cidade foi
progressivamente inundada por todo o tipo de estabelecimentos de
venda de comida rpida.
  Acompanhar os trabalhos de construo a partir de pontos de
observao existentes nas colinas circundantes, um dos quais
equipado com binculos e altifalantes, tornou-se uma forma
popular de entretenimento. Segundo um comunicado transmitido de
hora a hora, o material tilizado na construo da barragem era
suficiente para erigr o equivalente a trinta pirmides de
Quops.
  - Embora a Barragem de Sierra Canyon no seja de bezo -
esplicava a voz -, szu necessrios cerca de um rnilh:io de
metrcs
ctbicos de beto para a construo da conduta contral, fundaes
da
cc:ntral hidr-oelctric;t, descarreador, estruturas de adrnissdo
e descarga e uma auto-estrada n topo, mais do que c,
su.ficiente par-a
construir um passeio de ida e volta desde S. Franc.isco a Nova
Ioryue. A albtrfeira dtre se. formar atrris da barragem ter-e,
no seu
nvel mximo, urn;r rea eqrrivalente  de dezoito mil seteeentos
e
setenta e cinco crmpos de futebol. A estrutura em forma de
charnin
que se encontra agora em fase de construo irnedirtjmente
a montante da barragem tere uma altura de cerca de duzentos e
cinyuenta
metros, ficando a sua extremidade strperior seis m;:trns rrcimtr
da superfcie da albufeira. E a torre de ventilao, yue, entre
otras fune, servir de sada e entrada de emergncia para o
pessnal da centr-al hidroelctrica. No seu inter-ior. ser
eolocado urn enorme ttrbo
vertical yue conduzir lis turbi~ras da central. A !ra
penetrar atravs de cornportas controladas  distncia,
localizadns em dez nveis
diferentes. Em nome dos Ditritos fldricos Combinados desejamos
que a visita tenha sido do seu inteiro agrado e solicitarnos o
favor- de
no deitar lixo por cima da balatrstrada.
  Os vigilantes da obra familiarizararn-se corn uma crixa aberta
azul conduzida pelo principal responsvel pelo projecto, Theodore
Roshek, due tinha decidido assegurar-se pessoalmente de que o
empreiteiro cumpriria escrupulosamente todas as especificaes
do
projecto. As equipas de trabalho apr-enderam que era intil
tentar
omitir o mais pequeno pormenor, poryue Roshek gesticular-ia com
as muletas, ficaria furioso e ameaaria >uspender a obra. A p
ou na
sua carrinha, estava constantemente a controlar, apesar d
dificuldade que sentia ao andar num piso irregular. Todas as
semanas,
passava trs dias em Los Angeles a dirigir a sua tnna de
consultoria e quatro dias na barragem. Os setecentos e sessenta
homens que
trabalhavam na obra eram unnimes em afinnar que, durante ayueles
quatro dias, Roshek conseguia fazer a vida negra a todos.
  Quando a barragem ficou concluda, foi colocada em frente 
Cmara Municipal uma plataforma coberta de panos embandeirados
e teve lugar uma cerimnia de inaugurao, que incluiu oratria
elucidativa, bandas de msica liceais e frango de churrasco.
Muitos
dos oradores mencionaram Roshek. O empreiteiro declarou que a
preocupao daquele com os mais nfimos pormenores e a sua recusa
em ceder inclusivamente em aspectos triviais tinham conduzido a
um prejuzo global para a sua empresa de quatro milhes de
dlares. A audincia riu. Os empreiteiros estavam sempre a
queixar-se que perdiam dinheiro, e o riso transformou-se em
aplauso
quando ele acrescentou que o resultado da forretice daquele
sovina era a barragem mais bem construda de todos os tempos.

  LAwRENcE Jeffers era uma alma feliz, com tendncia para falar
sozinho e assobiar enquanto trabalhava. O cargo de chefe de
manuteno da Barragem de Sierra Canyon assentava-lhe
perfeitamente.
Adorava as colinas daquele antigo Eldorado, adorava pescar na
albufeira atrs da barragem e, era verdade, amava a barragem.
  J passava das 10 da noite quando Jeffers entrou com a sua
carrinha no tnel de acesso  central hidroelctrica, na base da
barragem. As lmpadas suspensas de postes de um lado e outro da
estrada
iluminavam a sua constante curva para a esquerda  medida que
penetrava na encosta da montanha. Jeffers buzinava a intervalos
curtos para avisar qualquer veculo que viesse em sentido
contrrio, mas quela hora o operador da central era
provavelmente o nico funcionrio de servio. Jeffers
cumpriment-lo-ia quando sasse,
mas antes queria ir  Galeria D.
  A cerca de cem metros da entrada, o tnel desembocava numa
caverna rochosa suficientemente grande para albergar um prdio.
Jeffers desceu uma inclinada rampa que conduzia ao piso situado
abaixo da sala dos geradores. Tinha muito que andar e queria
ficar o
mais perto possvel das galerias de drenagem. Quando chegou ao
fundo da rampa, as luzes dos faris iluminaram seis enormes
turbinas, cada uma delas accionada por um dbito de oitenta e
cinco
metros cbicos de gua por segundo, que fazia girar um eixo
central
de ao ligado ao gerador, no piso superior. Cada gerador era
capaz
de produzir cento e quarenta mil kilowatts e satisfazer as
necessidades de energia elctrica, em hora de ponta, de uma
cidade com mais
de um milho de habitantes. Jeffers tinha todos estes dados bem
presentes na memria porque os tinha recitado, durante anos, a
todo o
tipo de visitantes, desde senadores at crianas de escola.
Enquanto
conduzia devagar sobre o estrado de ao ao longo das turbinas,
ouvia o seu zumbido elctrico, mas os enormes rotores estavam de
tal forma equilibrados que no se sentia qualquer vibrao.
  Estacionou atrs da sexta turbina, no fundo do compartimento,
ps na cabea o seu velho capacete salpicado de lama, subiu um
lano de degraus de ao e abriu a porta de ao com o aviso
PERIGO,
ENTRADA PROIBIDA. No interior, havia uma fila de lanternas. Pegou
numa e caminhou ao longo de um tnel fracamente iluminado com
cerca de trs metros de dimetro que parecia estender-se at ao
infinito.
  Felizmente tinha trazido botas, pensou, porque havia gua por
todo o lado: escorria atravs de pequenas fissuras no
revestimento
do tnel, caa em vus nebulosos das juntas de construo,
gotejava
dos orifcios de drenagem que tinham sido abertos no beto para
aliviar a presso. O escoadouro que corria ao longo do tnel
estava
cheio de gua que flua em direco ao vazadouro mais prximo,
de
onde era bombeada para tubos de descarga a jusante. Jeffers
aconchegou o casaco ao corpo; o ar estava frio e hmido.
  Pouco tempo depois, j estava to longe da central
hidroelctrica que os nicos sons audveis eram o suave gotejar
e os seus
prprios passos. Num dado ponto, o tnel inflectia abruptamente
em profundidade. Jeffers parou no topo do longo lano de escadas
e
apontou a lanterna para baixo. Duzentos degraus sem um nico
patamar para quebrar a monotonia.
  - Vamos a isto - murmurou, iniciando a descida. - Ests a
precisar de fazer exerccio.
  Nem sequer pensava na albufeira que tinha por cima da sua
cabea, um lago que procurava constantemente pontos de fraqueza
na
barragem, exercendo sobre ela uma presso avassaladora e
inexorvel. Nem to-pouco se preocupou com a gua que se
infiltrava no
tnel por todos os lados. Em todas as barragens havia
infiltraes, e
a gua infiltrada no representava qualquer perigo - a no ser que
o seu volume aumentasse subitamente, fosse lamacenta ou
penetrasse sob presso. Era apenas algo de desagradvel que tinha
de ser
drenado.
  Em vez disso, Jeffers pensava num artigo sobre automveis
elctricos que tinha estado a ler naquela noite. Seriam apenas
os
jornais ou era uma ideia que apelava realmente ao pblico?
Conduza um carro elctrico durante cento e sessenta quilmetros
a
sessenta  hora e deixe-o depois a recarregar durante doze horas
..
enquanto l um livro sentado na beira do passeio! Sim, mas no
polui o ar, afirmam os lricos. Claro que polu! Para o
recarregar,
  tem de haver algures uma central elctrica a consumir o
maravilhoso petrleo rabe. Com os automveis elctricos, est-se
apenas
  a transferir a poluio dos tubos de escape para chamins.
Entre  tanto a Califrnia est a caminhar para um a enorme crise
energtica, dizia Jeffers para consigo, nzo dentro de dez anos,
mas neste
  preciso momento. Do que a Califrnia precisa  de energia!
  Parou e examinou as paredes do tnel, que apresentavam manchas
raiadas nos locais onde a infiltrao tinha deixado depsitos de
  minerais. Uma caixa de fusveis estava coberta por uma camada
de
  lama ferrugenta de dez centmetros de espessura. Jeffers
retomou a
descida. Com as dores que j sentia nas pernas, a. subida de
volta ia
ser um verdadeiro martrio.
  - No  preciso ser nenhum gnio para reconhecer que a melhor
energia  a hidroelctrica. --- Falava alto, imaginando um mar
de
rostos da Cmara de Comrcio a acenar-em em sinal de
concordncia. -  barata,  limpa, permite controlar as cheias,
bem como
obter gua para irrigao e recreio. Ento, porque no estamos a
construir centenas de barragens? Eu explico porqu, caros
compatriotas. Porque o Clube Sierra, os Amigos da Terra e o Fundo
para a
Defesa do Ambiente no nos deixam. No inundem o vale, dizem.
No destruam o rio selvagem ... Meus amigos, eu gosto dos rios
selvagens, mas tambm gosto de electricidade!
  Tinha chegado ao fundo das escadas. Olhou para as botas e viu
que tinha os ps mergulhados numa cimada de gua de quinze
centmetros. Verificou as trs bombas elctricas situadas numa
cmara
lateral. S uma estava a funcionar. Jeffers abriu a porta
metlica de
um nicho existente na parede. Tinham saltado dois disjuntores e
a
corrente estava cortada. Provavelmente devido a sobreaquecimento,
pensou, enquanto os ligava novamente e os motores recomeavam a
funcionar. Quando a albufeira est cheia, tm de trabalhar vinte
e quatro horas por dia; talvez se devesse instalar mais
algumas bombas. De qualquer forma, dentro de um ou dois dias a
galeria deveria estar novamente seca.
  Jeffers continuou a avanar ao longo do tnel. Parando defronte
de um conjunto de mostradores, orientou a lanterna para os
iluminar
e comeou a tomar nota dos nmeros num bloco. No tnel, a gua
que caa do tecto era em quantidade tal que quase parecia que
estava
a chover, e Jeffers tinha de ter cuidado para o bloco no ficar
encharcado. Diversos aparelhos indicavam valores mais elevados
do que alguma vez tinha em memria, admitiu. Deviam ter-se
aberto novas rachas - talvez fosse necessrio ved-las com
argamassa.
  Um tero dos aparelhos de registo estava fora de servio, na
sua
maior parte em consequncia do sismo de h cinco anos. Os tubos
de
plstico que os ligavam aos sensores na represa haviam sido
esmagados ou quebrados durante o assentamento, ou os prprios
aparelhos tinham-se danificado. Era verdade que alguns aparelhos
no
funcionavam, mas que importncia tinha isso? Antigamente, pensou
Jeffrs, no precisvamos de piezmetros. de aferidores de
deformao ou de qualquer outra aparelhagem, e as barragens
construdas nessa altura ainda esto de p.
  Tinha de admitir, no entanto, que havia muita gua. Duncan
deveria ter dito alguma coisa. O problema de Duncan  que se
regia
demasiado pelas normas. S se preocupava em preencher os
impressos Estava muito molhado. Ia ser interessante observar a
Galeria D.
Se estiver na mesmo estado que isto aqui, vou ter de dizer a
Bolen
para tomar medidas correctvas.
  Jeffers tentou abrir a porta da Galeria D, mas a maaneta no
girava. Arqueando as costas, agarrou-a com ambas as mos, puxou
com toda a sua fora e conseguiu fazer girar lentamente a
maaneta
para a direita.
  A porta de ao explodiu como um canho e Jeffers foi atirado de
costas. Instantaneamente, toneladas de gua abateram-se sobre ele
e uma violenta torrente de gua castanha arrastou-o de roldo ao
longo do tnel, atirando-o de cabea, joelhos e cotovelos contra
o
cho e as paredes. A uma velocidade cada vez maior, a gua
percorreu os cerca de sessenta metros at atingir as escadas de
beto. Jeffers, inconsciente e cerca de um metro abaixo da
superfcie, abriu a
boca espasmodicamente e inspirou.

Captulo 4

UmA LIMUstNA da Casa Branca levou Roshek de volta ao hotel, onde
um porteiro o aguardava com uma cadeira de rodas. Foi depois
conduzido at ao elevador, que o levou ao seu piso.
  - Aqui estamos, Mr. Roshek.
  Roshek levantou-se e pegou nas muletas; o empregado
acompanhou-o at ao quarto e abriu-lhe a porta.
  - Obrigado - disse Roshek, tirando do bolso uma nota de dez
dlares. - Aqui tem, para comprar um apito novo.
  Roshek atravessou o quarto e sentou-se na cama. Se tivesse
olhado para o quarto adjacente  sua suite, teria visto luz por
debaixo da
porta da casa de banho. Naquela tarde, tinha levado a mulher ao
aeroporto e, por isso, pensava que ela estava a caminho de Los
Angeles. Stella tinha planeado ficar com o marido em Washington
at ao dia seguinte, mas naquela manh, inesperadamente, e sem
dar
qualquer explicao, decidira regressar a casa no prximo avio.
  Roshek, abanando a cabea perante a impossibilidade de
compreender a mulher, pegou no telefone. Em certa medida, tinha
sido
bom ela partir porque lhe permitia, por exemplo, telefonar a
Eleanor no conforto do quarto, em vez de numa cabina telefnica.
  Como Eleanor ficaria feliz quando soubesse que ele poderia vir
a ser nomeado para um cargo no Governo. Enquanto o telefone
tocava, procurou imagin-la a atravessar o quarto a sua pose, o
perfeito equilbrio que punha em todos os gestos. Pensou no seu
rosto
oval, no cabelo negro penteado para trs, na pele de alabastro,
nos
olhos de um subtil cinzento-esverdeado ...
  - Est l? Eleanor?  o Ted. Como ests, querida? Eu estou
bem e a morrer de saudades tuas. Tenho uma notcia sensacional
...
  Quando ouviu a voz do marido, Stella Roshek aproximou-se do
espelho da casa de banho e acabou de refazer a maquilhagem.
Contente por verificar que no havia qualquer trao das lgrimas
que lhe
tinham deixado os olhos vermelhos e marcas nas mas do rosto,
inspirou profundamente e abriu a porta. Ia ter de o enfrentar e
quanto mais cedo melhor.

            Com As pontas dos dedos, Phil acariciou ao de leve
o contorno
 "         das orelhas dos olhos e da boca de Janet.
            - No Kansas, uma mulher bonita como tu desencadearia
motins
            nas ruas - disse, beijando-a.
!            p
            "  - Eu no sou bonita - sussurrou.- Sou gira. Sou
uma pessoa
            ;   gira que gosta muito de ti.
"s      N . Phil tapou os olhos com a mo.
            - Porque  que no posso ficar contigo dia e noite?
Porque  que
            a vida tem de incluir sermes de Bolen e reunies
para ser massacrado por Roshek?
            - Como  que Roshek se meteu no assunto? Disseste que
Bolen
            no lhe ia contar nada.
  - Telefonei a um tipo chamado Jeffers na barragem, que ligou
a Roshek para saber quem eu era. Roshek no fazia a mnima ideia,
mas disse a Bolen para me transmitir que me queria no gabinete
dele
mal chegasse do aeroporto.
  Janet ficou pensativa por momentos e disse:
  - Pode ser que Roshek te queira agradecer pela tua preocupao
com a segurana pblica.
  - O que ele quer  dar-me um raspanete. Parece que est
furioso. O prprio Bolen parecia assustado. Telefonou para minha
casa hoje depois do trabalho e ensinou-me como  que me devia
comportar com Roshek. Disse-me para no me defender se queria
conservar o emprego. Acho que vou apenas deixar-me conduzir
pela minha cobardia natural.
  Janet riu.
  - Julgo que sei porque  que gosto tanto de ti. Porque me
tratas
como um ser intelectualmente igual, o que corresponde  verdade.
Porque me respeitas e s carinhoso e sensvel. No fazes ideia de
quantos maadores j tive de aturar. No te rias! No ltimo ano
...
  - No quero saber! J tenho demasiado com que me preocupar
sem os teus namorados.
  - A  que est. No tive nenhum.
  - ptimo. Vamos descobrir at onde  que vai a tua
liberalidade. Quero que me faas festas na cabea e me digas que
vai ficar
tudo bem - disse, encostando a cabea no ombro de Janet e
fechando os olhos.
  - Coitadinho - disse Janet, acariciando-lhe a cabea. - Vai
ficar tudo bem. O mauzo do Roshek no te vai fazer mal, e se te
fizer chorar, podes mudar para aqui e viver  custa da segurana
social.
  - s maravilhosa, Janet.

  ELEANoR James estendeu langorosamente o brao para a
mesa-de-cabeceira e pousou o auscultador. Cruzou as mos sobre o
estmago e levantou a perna esquerda, com o p esticado no ar,
at
apontar directamente para o tecto. A perna era longa e direita,
magra mas extraordinariamente forte.
  - Adoro esticar-me depois de ter estado enfiada no carro. - A
sua voz era mimada, como a de uma criana.
  - Presumo que era o velho cara-de-falco? - disse o jovem
deitado a seu lado, levantando a perna at ficar  altura da
dela.
  - Era. Vai ser nomeado para um cargo qualquer no Governo.
No prestei muita ateno.
  - Ele telefona todos os dias?
  - Claro. Ama-me.  o que se faz quando se ama algum. -
Lentamente, dobrou a perna esquerda at o joelho tocar no queixo,
enquanto levantava a perna direita at ficar completamente
esticada
na posio vertical.
  - Quanto tempo  que o vais aturar'?
  - At conseguir o dinheiro.
  - E depois? Vais deix-lo assim sem mais nem menos?
  Ela olhou satisfeita para as pernas.
  - No sei. Ser adorada por um velho rico tem as suas vantagens.
Oferece-me jias. s capaz de mudar o disco, querido? Estou
a ficar farta de Ravel.
  Ele levantou-se e foi at ao gira-discos, enquanto ela
apreciava
o seu corpo de bailarino, os ombros largos, a cintura estreita.
Quando regressou  cama. ela baixou as pernas e sentou-se.
  - Ora, Russell Stone - perguntou com um sorriso provocante -,
estars com cimes de um velho`?
  Ele abanou a cabea.
  - No percebo como  que s capaz.  um esquema nojento.
  - Quero ter o meu prprio estdio e ele pode dar-mo. Alm
disso, quando quer  muito simptico - disse, olhando atravs da
janela para as rvores e as paredes do desfiladeiro na outra
margem
do rio. - Ele trata-me como se eu fosse uma extraordinria obra
de
arte. Diz que, ao p de mim, a maior obra que alguma vez concebeu
no vale nada.
  - Reconheo que sabe como conquistar-te: atravs da lisonja.
  Ela fitou-o de frente.
  - Russell, no devias fazer troa de um homem que te est a
oferecer hospitalidade.
  - Sem saber - ripostou, olhando  sua volta. Atravs da porta
aberta podia ver a enorme lareira e o cho de parqu da sala de
estar. -  esquisito no ouvir o rudo dos carros. Fico arrepiado
sempre que saio da cidade.
  - No estamos propriamente a acampar. Esta  provavelmente
a casa mais bem apetrechada do vale inteiro. At o nome,
Creekwood, vem nos mapas da regio.
  -  um lugar agradvel, mas mesmo assim no sei como  que
vou aguentar ficar aqui durante dois dias inteiros.
  Eleanor ergueu-se.
  - Vamos dar um passeio ao longo do rio e encher os pulmes de
ar das montanhas. Aposto que vais gostar - disse, puxando-o pela
mo e obrigando-o a levantar-se.
  Valia a pena ver o rio. Na Central Hidroelctrica de Sierra
Canyon, dezasseis quilmetros a montante, as turbinas estavam a
trabalhar ao mximo para produzirem electricidade durante as
horas
de ponta do final do dia. O rio quase transbordava das margens
no
seu trajecto ao longo da garganta. Era um espectculo
revigorante.

  - QuE  que aconteceu, Stella'? Perdeste o avio?
  Roshek pousou o telefone e observou a mulher enquanto ela se
sentava numa cadeira em frente  cama. Os seus movimentos eram
controlados, como se tivessem sido ensaiados, e os seus olhos
estavam cheios de uma fora muda que no lhe conhecia. Teria ela
ouvido a conversa com Eleanor?
  - Perdi o avio de propsito - respondeu. - Tenho estado 
tua espera na sala de estar a ver anoitecer.
  Roshek procurou sorrir.
  - Pregaste-me um susto! - Depois perguntou, preocupado: --
Sentes-te bem?
  - Estou ptima. Na realidade, sinto-me maravilhosamente bem
porque, finalmente, tomei uma deciso sobre algo que me tem feito
infeliz durante anos. -- Voltei para trs para te dizer que
amanh vou
meter o nosso processo de divrcio.
  - Por amor de Deus, Stella! Que  que aconteceu? Ests
aborrecida com alguma coisa. Tenho a certeza de que, se falarmos
sobre o
assunto,...
  Ela abanou a cabea.
  - O simples facto de teres de perguntar ... acho que foi isso.
Vives de tal modo para ti e para o teu trabalho, Theodore, que
nem
te apercebeste que me insultaste profundamente.
  - O que se passou foi que andaste a escutar as minhas conversas
telefnicas e transformaste algo inocente ..
  - Eleanor James no tem nada de inocente - interrompeu ela
abruptamente. - Eu soube desde o incio, ou ser que no te
lembras de que estava numa dessas festas em S. Francisco quando
a
conhecemos? Vi muito bem como ela te adulou e como tu
correspondeste. Durante meses, falaste dela e inventaste
desculpas para
ires a S. Francisco. Depois, de repente, deixaste de falar, mas
as viagens continuaram. - Stella desviou a cara, procurando
controlar-se.
  Roshek cerrou os lbios e disse:
  - E  com base nessa suposio que queres pr fim a um
casamento que dura h ...
  - Vocs tm sido vistos juntos! - protestou ela, encarando-o.
- Contaram-me os meus amigos. Por isso, no me venhas dizer que
ests inocente. Ouvi a tua conversa ao telefone. No sou nem
surda,
nem estpida.
  Roshek compreendeu que era perfeitamente intil procurar
defender-se e que ainda se arriscava a fazer com que Stella
corresse
para o hall de entrada completamente histrica. Mas era
necessrio
faz-la mudar de ideias quanto ao divrcio, pelo menos at depois
dos inquritos de confirmao do Senado. Alm disso, se Stella
exigisse metade da sua participao na empresa a ttulo de
quota-parte nos bens comuns, o divrcio acarretaria igualmente
consequncias financeiras.
  - Talvez tenha estado a fazer figura de idiota - balbuciou -,
mas o que sinto por ela no  comparvel ao que sinto por ti.
  Stella levantou a mo e emitiu um rudo de desprezo.
  - Tu no sentes absolutamente nada por mim. Pelo menos como
esposa. Eu sou apenas a tua secretria social que te acompanha
nos
jantares de negcios. Para ti no passo de mais um dos teus
empregados. Pois bem, Theodore, os empregados podem despedir-se
e 
precisamente isso o que vou fazer.
  - Ests a fazer uma tempestade num copo de gua. Eleanor
James no tem qualquer significado para mim! No vejo qualquer
motivo para nos divorciarmos depois de tudo o que passmos juntos
- disse, olhando para a mulher, que o fitava imvel. As
probabilidades de comear a chorar eram manifestamente remotas.
- Tu s
uma mulher muito atraente, Stella. - Uma mulher muito atraente
que podia obter o congelamento, por deciso judicial, dos bens
comuns, comprometendo assim a flexibilidade financeira da
empresa. - No te tenho dado a ateno que mereces. Tenho estado
a
trabalhar demasiado, a tentar conferir  empresa a grandeza com
que tanto sonhmos. Eleanor distraiu-me, fez-me comportar como
um idiota. Peo-te que me perdoes.
  - No, Theodore, j no me podes manipular mais. Acabou.
Nada do que possas dizer me far esquecer a dor que me causaste.
Como os teus olhos brilharam quando Eleanor te sorriu!
Provavelmente, pensas nela da mesma maneira que nos teus
projectos de
engenharia. J ouvi a frase centenas de vezes: uma bela
combinao de funo e forma. Disseste-a a propsito da nova
estao de
tratamento de esgotos, m Sacramento. Linhas graciosas, foram as
tuas palavras.  isso que dizes a Eleanor'? Que  mais bonita que
yualyuer estao de tratamento de esgotos? E isso que lhe
sussurras
enquanto ela acaricia a tua carteira? - Stella levantou-se e
pousou
a mo na maaneta.
  - Senta-te, Stella! No podemos ficar assim!
  -- No levantes a voz. J nro tenho medo de ti. Antiamente
tinha, sabias? s to seguro de ti prprio, ests to habituado a
mandar nos outros. Eu, pelo contrrio. nunca soube muito bem o
que
queria. Por isso, segui-te e ajudei-te a atingir o teu objectivo,
que,
segundo percebo,  tornares-te o engenheiro mais rico do mundo.
Pois bem, a minha vida ainda no terminou. Vou para o aeroporto.
Adeus.
  - Stella .. - Roshek ergueu-e e deu vrios passos desajeitados
em direco a ela antes de as pernas lhe falharem. Agarrou-se a
uma cadeira para evitar cair, fez uma careta e suplicou: -
Ajuda-me, por favor ..
  Stella permaneceu no limiar da porta, olhando tristemente para
ele.
  - Nunca pensei ver-te recorrer a isso - disse. - Se precisas
de
ajuda, sugiro que ligues para a recepo.


Captulo 5

UM vEt,Ho Volk.swagen verde, com um malmequer de plstico na
ponta da antena, estacionou atrs do Centro de Manuteno Fsica
Holstica, em Berkeley, na Califrnia. um homem magro de
barbicha, com umas desbotadas calas de ganga azuis, saiu do
carro e
contornou o edifcio de beto de um andar, em direco  porta
principal.
  A recepcionista ficou muito bem impressionada quando ele lhe
disse o nome.
  - O Dr. Dulotte est  sua espera - respondeu, sorrindo. -- Vou
avisar que j chegou.
  Numa mesa baixa, encontravam-se espalhadas revistas sobre
desporto e sade, e o homem viu a sua prpria fotografia na capa
do Western Sti'ider. NOVA VITRIA DE KENT SPAIN, lia-se no ttulo
principal. Veja na pgina 32 o seus breves conselhos sobre
energia.
  - No quer sentar-se`? - perguntou a recepcionista. - O Sr.
Doutor ainda  capaz de demorar alguns minutos.
  - No, obrigado. Estar sentado faz mal s costas.
  Caminhou  volta da sala de espera, examinando depoimentos
emoldurados de doentes satisfeitos. O Centro de Manuteno Fsica
Holstica era uma misturada mdico-mstica destinada a atender
s
necessidades de um largo espectro de ginastas bem-sucedidos e de
outros com o mesmo objectivo. Uma simples consulta  lista de
telefones interna permitia verificar que era possvel marcar
consultas
com um mdico de clnica geral, um nutricionista, um
fisioterapeuta, um psiclogo do comportamento, um hipnotizador,
um acupuncturista, um reflexologista plantar ou um padre budista.
O centro, obra de David Dulotte, que era mais um homem de
negcios do
que um mdico, estava constantemente sob o escrutnio de
departamentos do governo estadual e da Associao Mdica
Americana.
Nenhum dos especialistas se importava com o que pensava a AMA,
porque nenhum deles era membro.
  Finalmente, o Dr. Dulotte apareceu. Era um homem corpulento,
exuberante e vivo, com culos de armao metlica. Apertou
vigorosamente a mo de Kent enquanto o conduzia ao seu gabinete.
  -  um prazer voltar a ver-te, Kent! Senta-te! - disse,
sentando-se ele prprio  sua secretria em desordem e abrindo
os braos. - Ento, que  que achas do nosso centro?
  - No h dvida de que cobrem todas as reas.
  Dulotte riu, prazenteiro.
  - Procuramos oferecer aos nossos clientes uma gama de servios
mais completa do que qualquer hospital no estado. Temos
termoterapia, pletismografia, ultra-sons Doppler. Examinamos os
globos oculares, a iridologia. Somos o nico local nos estados
ocidentais onde se faz moxibusto. Senta-te!
  - Estive sentado no carro. Que  a moxibusto?
  Dulotte bateu as mos de contentamento.
  -  uma coisa muito gira!  a ltima novidade da antiga China.
Um ginasta entra aqui com uma dor na anca, por exemplo. No ponto
doloroso colocamos um pequeno monte de folhas de absinto
misturadas com algumas ervas e especiarias secretas, no sei
exactamente o qu, e depois pegamos fogo! As pessoas afirmam que
alivia
a dor. Em minha opinio, o que se passa  que ficam to
concentradas na dor provocada pela bolha que se forma que deixam
de sentir
a dor original.
  - s um charlato. Um verdadeiro Pato Donald.
  - Nem tudo so certezas - defendeu-se Dulotte, encolhendo os
ombros. - A nossa: poltica consiste em oferecer aos clientes
aquilo
que desejam, desde que seja inofensivo. Agora, o que os clientes
querem so mezinhas orientais. Por isso, importo tudo o que posso.

  Dulotte tirou de um frigorfico ao lado da secretria uma
garrafa
verde de gargalo alto e verteu um lquido escuro para dois copos.
  - Experimenta isto - disse. - gua mineral da provncia de
Szechwan. J vendi uma tonelada a dez dlares o litro. Ento, e
quanto  tua deciso de te tornares profissional?
  Spain bebeu um pequeno gole e fez uma careta.
  - D vontade de rir, no d? Um maratonista tornar-se
profissional. Com sorte, ganho para as despesas.

  - Nem imaginas quanto podes ganhar. A publicidade  um
grande negcio. Depende, evidentemente, daquilo que se promove.
  - Quando falaste comigo ao telefone, disseste que, se fizesse
publicidade aos teus sapatos ganhando uma corrida, me davas dois
mil e quinhentos dlares, no foi? Aceito. Tenho trinta e trs
anos e
cada vez corro menos.
  Dulotte sorriu com benevolncia.
  - Se fizeres o que te digo, deixars de ter problemas. Qual 
a
tua condio fsica?
  - Estou pior do que h um ano. Costumava correr pelo menos
cento e sessenta quilmetros por semana e agora s estou a correr
cerca de cem.
  - s capaz de ganhar a maratona amanhe? Tommy Ryan vai
correr.
  - Ah, sim? Pode ser uma luta difcil. Aposto nele.
  - E eu aposto em ti. - Dulotte olhou para o relgio. - Amanhe
de manh, por volta desta hora, vais cortar a meta defronte da
Cmara Municipal de Sutterton. Na segunda-feira, se assinares um
contrato de prestao de servios que tenho preparado para ti,
podes
estar num banco  tua escolha com um cheque de dez mil dlares.
  - Deixa-te disso. No consegues ganhar esse dinheiro comigo.
  - Garanto-te que consigo. Imagina que amanhe consegues bater
a tua melhor marca de sempre? Isto ao mesmo tempo que usas,
comes e bebes os produtos da Jog-Tech, que, por acaso,  o meu
fabricante subsidirio em Hong Kong.
  Kent Spain comeou a andar em frente da secretria de Dulotte.
  - E como  que eu vou conseguir bater a minha melhor marca?
Por milagre ou por artes mgicas?
  - No. Fazendo batota. - Dulotte deixou a ltima palavra a
pairar, enquanto Spain punha as mos em cima da mesa e o fitava.
- Para comear, podes ganhar dez mil dlares. Depois, se
aprenderes a falar, poders ganhar o dobro a fazer palestras,
mesmo depois
de eu retirar os meus quinze por cento.
  Spain deixou-se cair numa cadeira.
  - Dez mil! Qual  o plano?
  Dulotte desdobrou um mapa e traou uma linha.
  - A corrida comea aqui, segue uma auto-estrada, uma estrada
para bombeiros e depois um caminho florestal. O que tens de fazer
 percorreres os primeiros vinte e cinco quilmetros em cerca de
uma hora e um quarto. Ryan ir tentar manter um ritmo
ligeiramente
inferior.
  Spain parecia preocupado.
  - Vou rebentar. Vou ter de me arrastar durante os ltimos
dezassete quilmetros.
  - No, no vais. Olha para o mapa - disse, batendo com o
indicador num ponto. - O caminho sai da floresta aqui, atravessa
a
Barragem de Sierra Canyon e penetra novamente na floresta do
outro lado. Depois, segue uma longa via frrea atravs de densa
vegetao sempre a descer e tu vais percorrer esse bocado de
bicicleta, a recuperar o flego e a assobiar.
  - De bicicleta?
  - Sim. Estar  tua espera escondida nos arbustos. Procura uma
T-shir-t atada a um ramo. Tens  de ser o primeiro a chegar. No
h
mais nenhum posto de controle antes do quilmetro trinta.
  Spain estava novamente de p, a caminhar de um lado para o
outro.
  - No vai resultar - disse. -  impossvel. Se algum registar
a minha passagem na barragem, o controlador no quilmetro
trinta vai acabar por perceber que algo de esquisito se passou.
Ests
doido!
  - O que nos conduz  sublime elegncia do plano. Eu sou o
controlador no quilmetro trinta.
  Spain estacou, estupefacto.
  - Tu?
  - Sim, eu. - Dulotte comeou novamente a traar uma linha no
mapa. - Vais ficar com um avano de cerca de dez a quinze
minutos. Depois de abandonares a bicicleta, vais ter cerca de
cinco
minutos para recuperar o flego.
  - Detesto estar sentado.
  - Ento, anda. O percurso abandona a floresta no terreiro da
feira distrital. Percorre o resto do caminho o mais depressa
possvel.
Estars numa auto-estrada com o pblico a puxar por ti e vais
cortar
a meta em primeiro lugar - correluiu, triunfante, batendo no
mapa.
- Na cidade de Sutterton, o novo campeo da maratona, usando
artigos Jog-Tech, melhora surpreendentemente a sua melhor marca
pessoal.
  Spain observou o mdico enquanto este despejava o contedo de
uma gaveta em cima da mesa. Havia um par de taces com estrias
de
borracha para proporcionar maior leveza, um pedmetro
digital, um pulsmetro microelectrnico para registo da pulsao,
presso arterial, temperatura e equililriv electroltico.
  - Estc aparelho custa quatrocentos dlares -- disse Dulotte,
referindo-se ao pulsmetro.
  Spain protestou.
  - Essa tralha toda deve pesar cinco quilos!
  - Um pouco mais de meio quilo. Aguentas perfeitamente e,
depois da corrida, dirs que conseguiste alcanar aquela marca
porque pudeste controlar as funes do corpo e, consequentemente,
ajustar cientificamente o teu ritmo. Dirs ainda que treinaste
na
nossa mquina de remar, outro aparelho que custa quatrocentos
dlares, e que te alimentaste com a nossa sopa de vegetais,
amndoas e vitaminas.
  - J estou a ficar enjoado - disse Kent.
  - Vai ser um tremendo sucesso. Assina aqui.

  I?tEDIA'r.NtEtrrE antes do almoo, Herman Bolen telefonou
para
Sierra Canyon e um engenheiro da sala de controle da central
hidroelctrica informou-o de que Lawrence Jeffers ainda no tinha
aparecido naquele dia.
  -  capaz de ter ido a Sacramento e ter-se esquecido de avisar
- disse o engenheiro, procurando ser prestvel.
  - Talvez tenha razo. Pea-lhe para me ligar quando chegar.
  Estranho, pensou Bolen. Jeffers no costumava sair das
instalaes sem avisar. Em circunstncias normais, teria
telefonado logo
de manh antes de sair, qualquer que fosse o seu destino. Uma ida
a Sacramento. Sim, provavelmente era isso. Ou uma consulta no
dentista. Mas tambm podia ter cado naquela longa escadaria e
ter
partido uma perna ou uma anca ou ter tido um ataque cardaco.
  Ento, disse Bolen para consigo, ests a dramatizar. Se
Jeffers estivesse ainda dentro da barragem, algum teria reparado
no
seu carro no parque de estacionamento. Seria ridculo mandar
fazer
uma busca  procura de um homem que podia entrar no seu gabinete
a todo o momento.
  Bolen consultou o calendrio. Naquela tarde, tinha uma reunio
na Companhia de Electricidade da Califrnia Meridional sobre o
projecto de ampliao da Barragem Sequia. Se a reunio se
arrastasse, pediria desulpa e sairia para fazer um telefonema.
Se Jeffers
ainda no tivesse dado sinal de vida, faria algumas investigaes
discretas.

  Sozt'vHo no gabinete, Theodore Roshek fechou os olhos e tocou
nas tmporas. Pela primeira vez em anos, tinha uma violenta dor
de
cabea. Na noite anterior, dormira mal no quarto do hotel em
Washington. Naquela manh, o voo para Los Angeles apanhara mau
tempo e tinha sido impossvel pensar fosse no que fosse para alm
do avio que chocalhava.
  Pelo menos vencera uma pequena batalha com Stella.
Telefonara-lhe do aeroporto e conseguira convenc-la a s
consultar o advogado depois de falarem  noite. Ia tentar
tocar-lhe nos pontos
sensveis e, se no resultasse, seria duro, obrig-la-ia a ceder
e a
chorar, como fizera no passado sempre que discutiam.
  Pensou na pequena arma de defesa que trazia na pasta de
documentos. Ela sabia da sua existncia e, se os nimos se
exaltassem,
um deles podia pegar nela. Era pouco provvel, mas ... Abriu a
pasta
e tirou a fria arma, fazendo-a girar na mo. A patilha de
segurana
estava fechada. mas, mesmo assim, tinha um aspecto ameaador e
mortfero.
  No seu intercomunicador, acendeu-se uma luz vermelha. Premiu
um boto e ouviu a voz da sua secretria.
  - Mr. Bolen deseja saber se vai  conferncia na Companhia de
Electricidade.
  Roshek colocou a arma numa gaveta e sentiu-se aliviado por
ver-se livre dela.
  - Vou procurar l estar dentro de cerca de uma hora. Depois de
falar com o jovem Kramer, quero que me ligue a Jules Wertheimer.
  Interrompeu a ligao e comeou a fazer uma lista das perguntas
a colocar a Wenheimer, o nico advogado em quem tinha inteira
confiana. Podia Stella congelar os bens comuns, privando assim
a
empresa da sua liberdade de aco? O patrimnio comum inclua
bens suficientes para satisfazer os direitos de Stella sem ser
necessrio entregar-lhe parte da firma? Wertheimer saberia
esclarec-lo.
  Quanto mais pensava no assunto, mais irritado ficava. Stella
podia ficar com a casa de Beverly Hills, com a casa de Siena
Canyon, com as obras de arte, os ttulos, o seguro, com tudo
menos a
empresa. Iria lutar para ficar com o controle total sobre a
firma,
independentemente do que dissessem as leis do divrcio.
  A secretria falou novamente pelo intercomunicador.
  - Est aqui Mr. Kramer para falar consigo.

  PHIL atravessou o tapete e sentou-se, hesitante, numa cadeira
de
couro defronte da pesada secretria de mogno de Roshek. Deus
meu, pensou Phil quando olhou para Roshek. Est com ar de
quem me vai esganar! Por que razo estar to furioso?
  - Kramer, vamos l a ver se entendi bem. Voc no tem qualquer
experincia profissional, para alm de uns escassos meses de
Vero em que trabalhou no Departamento de Auto-Estradas no
Kansas. Nunca participou em nenhum projecto ou construo de
uma barragem. No entanto, est convencido de que, trabalhando
num escritrio situado a oitocentos quilmetros de uma barragem
que nunca viu,  capaz de a compreender melhor do que homens de
larga experincia e que trabalham no prprio local. Conecto?
  Phil escutou, atnito. Estaria Roshek a brincar?
  - No - conseguiu dizer -, no  nada disso. O senhor fez a
pior interpretao possvel ...
  - E ainda por cima tem a audcia de telefonar para o engenheiro
responsvel pela manuteno na barragem e lev-lo a crer que o
pessoal da sede pensa que a barragem est prestes a ceder. No
preciso de um funcionrio inexperiente que anda a levantar
dvidas
sobre uma das nossas obras. O que andou a fazer equivale a lanar
uma campanha de boatos contra o seu prpeio patro.
  Sem perder a calma, Phil procurou expor o seu ponto de vista.
  - Mr. Roshek, os dados do computador apontam claramente
que  necessrio proceder a uma inspeco especial.
  - Por enquanto, voc no  um engenheiro e ainda est muito
longe de o ser.
  -  verdade que ainda no sou um engenheiro autorizado. Na
Califrnia so necessrios cinco anos de experincia aps a
licenciatura para se poder exercer. Sou doutorado em ...
  - Ser engenheiro  muito mais do que ter um diploma e cinco
anos de experincia. A verdadeira engenharia envolve a
personalidade do indivduo, o respeito pelos materiais com que
trabalha, a
sua noo de histria e de futuro, a sua integridade.
  No est a escutar uma palavra do que estou a dizer, pensou
Phil. Est a utilizar-me para ensaiar algum discurso de
abertura
numa conferncia.
  - Mas, mais importante ainda - prosseguiu Roshek -,  a
maturidade. O sentido das propores. O bom-senso. Podia ter
desencadeado o pnico. E se se espalhasse o boato de que
estvamos preocupados com a segurana da mais alta barragem do
pas? Os rumores correm rapidamente, os jornais comeam a falar,
os polticos
exigem uma investigao, os defensores do ambiente acusam-nos
de escamotearmos a realidade ... J assisti a casos desses. Tudo
porque um espertalho de um estudante universitrio fica excitado
com os disparates de um computador.
  Phil comeou a corar. Sabia que no devia tentar defender-se,
mas detestava distores e ser acusado de algo que no tinha
feito.
  - Mr. Roshek, eu no disse a Mr. Jeffers que pensava que a
barragem estava prestes a ceder. Disse, sim, em particular a Mr.
Bolen, que o meu modelo de computador indicava que algo estava
errado ... - Phil calou-se porque Roshek no o estava a ouvir. Os
seus olhos vagueavam pelo gabinete, pousados nas fotografias dos
seus projectos, enquanto recitava os respectivos nomes como uma
litania.
  - Sinai, Maracabo, San Luis, Alyeska. Todos estes enormes
empreendimentos esto to slidos como na altura em que foram
construdos. - Gesticulou em direco a uma vitrina contendo uma
pormenorizada maqueta da Barragem de Siena Canyon, incluindo
at pequenas rvores nos contrafortes e uma tira central
representativa da estrada que atravessava o coroamento. - Nenhuma
das
obras construdas por esta empresa sofreu alguma vez qualquer
espcie de ruptura. Uma durabilidade deste tipo  o resultado de
percia, trabalho rduo, intuio e uma constante e intransigente
exigncia de qualidade. Quando se pe em prtica uma filosofia
de
concepo deste tipo, as obras no cedem.
  Acreditaria realmente Roshek no que dizia?, pensou Phil. Que,
se um engenheiro competente fizesse o seu melhor, nada podia
falhar? Era um princpio absurdo.
  Roshek contemplava a vitrina com uma espcie de enlevo.
  - A Barragem de Sierra Canyon, sobre a qual desenvolveu essa
obsesso luntica,  um marco na histria da engenharia.
Representa um esforo sem precedentes para assegurar a segurana,
desde
os exaustivos estudos geofsicos at ao avanado sistema de
inspeco e manuteno. Insisti para que fosse implantado o mais
extenso
sistema de sensores jamais existente numa barragem.
  - Metade desses sensores j no funciona.
  Roshek afastou a cadeira giratria da secretria e fitou Phil
com
ar ameaador.
  - J perdemos demasiado tempo com este assunto. Quero apenas
dizer-lhe uma coisa. Deixe de se preocupar com a barragem. Se
quer perder tempo com modelos infantis de computador, faa-o
com o seu prprio computador e fora das horas de servio.  tudo.
Pode retirar-se.
  Phil permaneceu sentado.
  - Mr. Roshek - aventurou -, em minha defesa, gostaria. apenas
de dizer ...
  Roshek interrompeu-o.
  - Que quer dizer com em sua defesa? Isto no  um julgamento.
Pago-lhe um salrio para fazer aquilo que eu mandar e estou
a dizer-lhe para deixar de pensar na Barragem de Sierra Canyon.
Devia ler o Cdigo Deontolgico da Sociedade Americana de
Engenheiros Civis. O ponto nmero dois estabelece que os
engenheiros
devem exercer as funes de que esto incumbidos exclusivamente
nas reas da sua competncia.
  - Eu tambm conheo o Cdigo Deontolgico - ripostou Phil
a meia voz. - O ponto nmero um afirma que os engenheiros devem
colocar a segurana, a sade e bem-estar do pblico acima de
tudo.
  - Que  que disse?
  Phil ergueu-se, ruborizado e com o corao a palpitar.
  - No mereo ser tratado como uma criana - disse em tom
bem audvel. - Nas ltimas semanas, tenho estado mais prximo
da barragem do que o senhor.  verdade que antes da construo
foram abertos profundos poos de implantao das fundaes, mas
o abalo ssmico de h cinco anos pode ter alterado tudo. As
infiltraes na barragem aps o sismo foram to grandes que foi
necessrio despender dois milhes de dlares para colmatar as
fendas, e
nesta Primavera a albufeira encheu a um ritmo cinquenta por cento
superior ao recomendado por si prprio.
  Roshek estava to espantado com aquela exploso que perdeu a
fala. Apenas conseguia abrir e fechar a boca e soerguer as
sobrancelhas.
  Phil arrancou uma folha de papel do bloco de apontamentos e
colocou-a em cima da mesa.
  - Tem aqui os ltimos valores de infiltrao da Galeria D.
Como pode verificar, so mais elevados do que os indicados pelo
senhor quando escreveu as especificaes originais. Deviam enviar
algum l abaixo para dar uma vista de olhos. Para a semana pode
ser demasiado tarde.
  Roshek amarrotou a folha e atirou a bola de papel contra a
parede. Tinha recuperado a voz e gritou:
  - No preciso que me ensine a tomar conta da barragem! As
suas pretensiosas opinies ainda so mais irrelevantes do que
dantes
porque est despedido! Saia daqui! Se esta tarde estiver sentado

sua secretria, mando-o prender por invaso da propriedade
alheia!
  Phil tentou bater com a porta quando saiu, mas a existncia de
dobradias hidrulicas tornava isso impossvel.

  JANET Sandifer quase no lhe reconheceu a voz ao telefone.
  - s tu, Phil? - perguntou, sorrindo e franzindo a testa ao
mesmo tempo. - Ests com uma voz esquisita! Que  isso que estou
a ouvir? Uma mquina de discos?
  - ,  uma mquina de discos. Estou a fazer uma pesquisa num
bar na Figueroa Street para tentar descobrir se  possvel beber
cinquenta garrafas de cerveja e ainda conseguir segurar num taco
de
bilhar.
  - De que  que ests a falar?
  - H aqui uma daquelas mesas pequenas de bilhar que funcionam
com moedas, e eu estou no meio de uma grande jogada. Estou
a ganhar dois dlares. H anos que no jogava bilhar! Devo ser
naturalmente dotado.
  - E Roshek? Falaste com ele?
  - Roshek? Ests a falar do distinto engenheiro? Ah, sim, falei
com ele. Se falei com ele! Janet, nunca me tinha visto numa
situao
to absurda. No estou a brincar. O homem devia ser levado com
urgncia a um psiquiatra. Apelidou-me de inexperiente pretensioso
  a tentar destruir a sua empresa. Disse que, se voltasse a
pr-me a
  vista em cima, me mandava prender por invaso da propriedade
  alheia. Foi inacreditvel!
  - Espera a, Phil. Ests a dizer que te despediu?
  - Sim. Roshek atirou-se a mim como se eu fosse um criminoso
  perigoso. O mais inacreditvel de tudo  que eu tentei
defender-me.
  O tmido do Phil Kramer a discutir como o principiante que ele
disse
  que eu era.
  - Oh, Phil, lamento imenso. Sei como gostavas do teu emprego.
  Talvez ele te readmita quando acalmar.
  - E eu recuso! Trabalhar novamente para ele? Nem pensar. Vou
  ser um jogador de bilhar profissional e andar de cidade em
cidade.
  Podes ser a minha companheira. Vai ser uma vida maravilhosa,
  Janet! S ns os dois, sozinhos  conquista da estrada!
  - Tenho uma ideia melhor. Vem at minha casa hoje  noite. Eu
  arranjo qualquer coisa para o jantar e depois fao-te festinhas
na
  cabea.
  - Combinado.
  s 2 da tarde, Phil telefonou de novo a Janet.
  - Mudei de ideias - disse -, j no vou ser um jogador de
  bilhar. Estou a perder trs dlares e acho que o tipo com quem
estou
 a jogar  um tubaro. Janet, quero adiar a nossa combinao
de hoje
   noite. Vou at  barragem. No devo demorar mais de sete, oito
  horas. Quero ver a Sierra Canyon com os meus prprios olhos e
  tentar ir at s galerias de drenagem. Que  que me podem fazer
por
  empreender um ltimo esforo para provar que algo est errado?
J
  me despediram.
  - Preferia a tua ideia anterior.

  A MElO DA TARDE, Herman Bolen saiu da sala de reunies da
Companhia de Electricidade para fazer um telefonema e
disseram-lhe novamente que Jeffers ainda no tinha aparecido.
  - Chuck Duncan est a? - Podiam enviar o jovem inspector 
galeria inferior para ver o que  que se passava.
  - Chuck j no volta hoje - respondeu o engenheiro da central.
- Quer que tente localiz-lo?
  - No vale a pena. Diga apenas a Mr. Jeffers que me ligue logo
que chegue.
  Bolen regressou  sala de reunies e retomou o seu lugar ao
lado
de Roshek. Teve muita dificuldade em se concentrar no tema em
discusso: a forma menos dispendiosa de ampliar a Barragem
Sequia.  semelhana de Bolen, Roshek tambm no participara no
debate, tendo-se limitado praticamente a alguns olhares sagazes
e
prudentes encolheres de ombros. Parecia estranhamente
acabrunhado; tinha os olhos fechados e esfregava a testa.
  Quando a reunio terminou, o trfego na Auto-Estrada de
Hollywood j tinha diminudo e Bolen conseguiu facilmente entrar
com o
seu Mer-cedes 300 na via rpida. Deixaria Roshek na casa de
Beverly Hills e depois iria ao escritrio pr alguns papis em
ordem
antes do fim-de-semana. Um dos assuntos que tinha de resolver era
o problema de Jeffers, mesmo que isso significasse telefonar para
os
hospitais.
  Theodore Roshek estava sentado a seu lado. S usava cinto de
segurana quando ia com Bolen para expressar a sua discordncia
relativamente aos hbitos de conduo do scio. Normalmente,
a
tua figura sugere prudncia e decoro, mas quando te sentas ao
volante pareces um adolescente imbecil, tinha-lhe dito uma vez
Roshek. Bolen podia ter comentado que Roshek tambm podia
melhorar a sua imagem. Com aquele chapu cinzento, parecia uma
figura
sada de um filme de Humphrey Bogart.
  - Como  que correu a tua conversa com Kramer? - perguntou
Bolen. - Um jovem ainda inexperiente, mas com grandes
possibilidades, no achas?
  Roshek, que parecia preocupado, olhou para Bolen.
  - A conversa com Kramer? Correu bem. Despedi-o. - Reparando no
desapontamento que se espelhou no rosto de Bolen, acrescentou:
- Sei que gostavas dele, mas teve a presuno de me dizer
como  que devia dirigir a minha empresa. Nunca na minha vida vi
tanta impertinncia.
  Bolen olhou em frente durante um minuto antes de falar.
  - No era especialmente meu favorito - disse, procurando
conferir um ar casual s suas palavras. - Senti apenas que era
inteligente e que poderia vir a ser um excelente funcionrio.
  Bolen pensou se deveria tentar persuadir Roshek a reconsiderar
a sua deciso, pelo menos at que o estado da barragem fosse
avaliado. Se houvesse necessidade de tomar medidas de emergncia,
seria desastroso se a imprensa viesse a saber que o homem que
tentara dar o primeiro sinal de alarme fora despedido por esse
motivo.
  - Era realmente necessrio despedi-lo? - aventurou Bolen.
  - Ou o despedia ou lhe entregava a companhia para ele a dirigir
como entendesse - respondeu Roshek calmamente. - Comeou
com o seu ridculo modelo de computador e, antes que eu desse por
isso, j estava a levantar a voz comigo. Devia saber que eu nunca
toleraria isso.
  Roshek contorceu-se de desconforto quando Bolen, carregando
no acelerador, passou para a faixa da direita e meteu pelo Santa
Monica Boulevard, que conduzia para fora da cidade em direco
a
oeste.
  - Gostei do entusiasmo de Kramer - ripostou Bolen, - Estou
a pensar ...
  - Temos assuntos mais importantes para discutir. Tu e Benedetz
vo provavelmente ter de tomar conta da empresa nos prximos
anos.
  Com aquela brusca declarao, Roshek comeou a relatar
resumidamente a reunio que tinha tido com o assessor do
presidente,
ignorando as felicitaes de Bolen.
  - Devemos evitar toda e qualquer publicidade que possa
prejudicar a imagem da firma, bem como manter a mxima discrio
em
torno do meu divrcio, que  o que mais me preocupa neste
momento.
  - Deus meu, Theodore! Stella quer o divrcio?
  - No desvies os olhos da estrada. Sim, veio-me com essa ontem
 noite, em Washington. Hoje,  a minha ltima oportunidade
para tentar demov-la. Se ela fizer alegaes a que eu tenha de
responder em tribunal, ento no terei qualquer possibilidade de
ser
nomeado. No posso deix-la arruinar-me a mim e  empresa. No
vou permitir que isso acontea!
  O Mercedes percorreu diversas ruas ladeadas de palmeiras de
doze metros de altura. A casa de Roshek era em estilo mourisco,
com paredes espessas, telhado vermelho e um grande relvado. O
carro subiu suavemente o encurvado caminho de acesso  porta
principal.
  - Espera at eu entrar - pediu Roshek. - Stella pode ter
mandado mudar as fechaduras. Tira s a cadeira do carro. Como 
que se desapertam estes cintos de segurana?
  Bolen aproximou-se e soltou a lingueta de fixao.
  - Nunca tiveste muito jeito para pequenos dispositivos
mecnicos, pois no, Theodore? S ds ateno s coisas que sejam
compostas por, pelo menos, quinhentas partes mveis ou que valham
dez milhes de dlares.
  - Ento, porque  que no dei mais ateno  minha mulher?
Pode custar-me dez milhes de dlares. Claro que ela s tem uma
parte mvel: a boca.
  Depois de ter retirado do banco traseiro a cadeira de rodas
desdobrvel, Bolen decidiu tentar pela ltima vez trazer 
discusso o
assunto de Kramer eda barragem.
  - Por acaso, olhaste para os valores de infiltrao compilados
por Kramer?
  - Ele entregou-me uma folha de papel - respondeu Roshek,
sentando-se na cadeira -, mas eu amarrotei-a.
  Bolen abanou a cabea com ar srio.
  - A infiltrao  elevada. Telefonei a Jeffers e pedi-lhe para
ir
at s galerias inferiores. Estou  espera que ele me contacte
a todo
o momento.
  Roshek olhou para Bolen, ligeiramente impaciente.
  - Herman, de que lado  que ests? Do meu ou do desse mido?
  - Estou do teu lado e do da empresa - respondeu Bolen em voz
calma. - Mas  possvel que tenham surgido novos pontos de
infiltrao e que seja necessrio colmat-los, reforar o sistema
de drenagem, vazar a albufeira ou tomar outra medida qualquer.
Podemos
tomar medidas correctivas discretamente, desde que no haja por
a
um ex-empregado descontente a lanar boatos. Tal como disseste,
no necessitamos de m publicidade.
  Roshek cedeu.
  - Como se no me bastassem os problemas que j tenho.
  - Supe que lhe digo que ests disposto a dar-lhe outra
oportunidade? Coloco-o no escritrio de Londres e dentro de seis
meses
despedimo-lo, quando j no for possvel estabelecer nenhuma
relao com um problema na barragem ... se  que h algum
problema.
  - Boa ideia. S no quero voltar a ouvir falar dele. Agora, peo
desculpa, mas tenho um encontro com a minha querida mulher.
  Bolen sentou-se novamente ao volante e observou Roshek enquanto
este movia a cadeira de rodas at  porta e tentava meter a
chave. Depois de abrir a porta, Roshek voltou-se e murmurou
silenciosamente:
  - Deseja-me sorte.
  Bolen fez um sinal tranquilizador com a mo e desceu o caminho
at  estrada.
  Rumando para leste em direco  auto-estrada, Bolen pensou
no que faria quando chegasse ao escritrio. Primeiro, telefonaria
a Kramer para lhe dar as boas notcias. Depois, tentaria
localizar
Jeffers onde quer que se encontrasse e, finalmente, iria sonhar
acordado durante trinta minutos - e nem mais um segundo - sobre
o
que seria dirigir a empresa na ausncia de Roshek.


SEGUNDA PARTE: A Corrida

Captulo 6

O MXIMO que o velho Mustang de Phil dava sem vibrar
incontrolavelmente eram cento e dez  hora. Manteve essa
velocidade, com
ambas as mos no volante e o corpo inclinado para a frente, num
esforo inconsciente para procurar fazer com que o carro
ultrapassasse os seus prprios limites. Lia todas as tabuletas
na Estrada Interestatal n." 5 e observava atentamente a regio
que atravessava.
Tinha frequentemente ouvido o pai falar do Vale Central da
Califrnia como um dos locais do Mundo onde estavam concentradas
as
maiores proezas da engenharia.
  O pai de Phil, Carl Kramer, fora superintendente das Estradas
do
Distrito de Sedgwick, cargo de bastante prestgio em Wichita.
Phil
amava e admirava o pai, um homem cujos interesses ultrapassavam
em muito as funes de um responsvel distrital. Era um
verdadeiro
estudioso da histria da engenharia, e tanto a cidade como o
estado
do Kansas tinham-no convidado a leccionar nas suas faculdades de
engenharia, convite que sempre declinara, concentrando no filho
as
suas ambies profissionais. Quando o pai faleceu, Phil
frequentava
o primeiro ano da faculdade. Continua a trabalhar com afinco,
tinha-lhe ele escrito na sua ltima carta. Tens qualidades
raras e
podes ir muito longe. Afirmaes deste tipo eram to frequentes
que, por vezes, Phil quase acreditava nelas.
  Phil olhou para leste, onde uma fina nvoa obscurecia o
horizonte. Mais alm, encontrava-se a Sierra Nevada, onde a
concentrao de importantes barragens era maior do que em
qualquer outro ponto do Globo. As Barragens Mammoth Pool, Wishon,
Don
Pedro, Camanche - barragens que geravam energia, controlavam
as cheias, criavam lagos de recreio, saciavam a sede de S.
Francisco
e Los Angeles e alimentavam os sistemas de irrigao que tinham
permitido transformar um deserto numa extraordinria mquina de
produo agrcola.
  Rodeado por toda aquela histria da engenharia, Phil pensou se
ele prprio se estaria tambm a qualificar para algum livro de
recordes. Ele era provavelmente o mais presunoso, irreflectido
e completamente ridculo engenheiro do Mundo. Estava a atravessar
uma
regio fantstica repleta de projectos famosos e dirigia-se para
o
mais famoso de todos para tentar provar que ele representava uma
grave ameaa para a segurana pblica. Phil Kramer, um
principiante de Wichita, no Kansas. Que anedota!
  E quando chegasse  barragem? Que faria? Ainda no tinha
decidido como reagiria se os responsveis de servio no o
levassem a srio e lhe fechassem a porta na cara. Talvez aquela
viagem
fosse um equvoco. Estava a agir emocionalmente, com raiva por
ter
sido despedido. Devia ter mantido a calma e ponderado melhor o
assunto.
  Passava agora em Sacramento. Atravs da janela do carro, via
os
ltimos raios do Sol a brilharem na cpula do edifcio do
Capitlio.
Se decidisse voltar para trs ou passar a noite num motel, aquele
seria um bom local para parar. Aproximava-se agora de um desvio
de acesso  direita, mas manteve-se na estrada principal,
carregou
no acelerador e passou para a faixa rpida.
  - Eu estou calmo - disse em voz alta. - J pensei sobre o
assunto.
  Ao ir at Sutterton, a apenas uma hora e meia de distncia, o
pior
que podia acontecer era chegar  concluso de que estava errado.
Quando sentimos que temos razo, devemos avanar, acontea o
que acontecer, dissera-lhe o pai por diversas vezes.
  Acontea o que acontecer. Se a sua teoria estivesse certa,
muita
coisa poderia ainda acontecer.

  WtLsoN Hartley, chefe da Polcia de Sutterton, limpou o molho
de esparguete do queixo e pegou no telefone que a mulher lhe
estendia. Era Karsh, o sargento do turno da noite.
  - Desculpe incomod-lo, chefe, mas tenho um tipo em linha
que quer falar consigo directamente. Diz que se chama Herman
Bolen e que est a telefonar da Roshek, Bolen & Benedetz, em Los
Angeles.
  - Podes passar, Karsh. - Hartley tinha reconhecido o nome da
firma de engenharia responsvel pela barragem.
  - No sei se se lembra de mim - disse Bolen. - Conhecemo-nos na
cerimnia de inaugurao, h dez anos.
  Hartley no se lembrava.
  - Sim, com certeza. Como est`?
  -- Bem, obrigado. vir. Hartley, estou a ligar-lhe para me
auxiliar num problema que surgiu e que tem de ser resolvido com
discrio. Certamente conhece Mr. Lawrence Jeffers, o nosso chefe
da
manuteno, que trabalha na barragem.
  - Larry? Claro que conheo. Vamos todos os anos ,juntos  caa
ao veado. Algum problema`?
  - Vou direito ao assunto. O que se passa  que no apareceu o
dia todo. Falei com ele h vinte e quatro horas e, desde essa
altura,
no consigo localiz-lo. O que mais me preocupa  que tinha
ficado
combinado telefonar-me logo de manh. Talvez me esteja a
preocupar sem motivo. Pode ser que tenha ido visitar um amigo
doente e
que simplesmente se tenha esquecido de telefonar.
  - E quer que eu d uma vista de olhos.' Que faa algumas
investigaes?
  - Precisamente. Mas no quero que alamie ningum em
necesidade. Para ser franco, no quero causar embarao, nem a ele
nem
a mim, por andar  procura de um homem que pode no estar perdido.
  - Estou a compreender. Vou passar pela casa dele para ver se
a
calTinha est na garagem e telefonar a alguns amigos. Se no o
encontrar, ligo para a Diviso de Trnsito das Auto-Estradas e
para os
hospitais. Deixe-me o seu nmero de telefone que eu depois entro
em contacto com o senhor.
  - Muito obrigado, Mr. Hartley.
  Seguidamente, Bolen tentou telefonar a Kramer, sem xito. Fitou
abstracto uma pilha de papis que estava em cima da sua
secretria, pensando no que faria se Hartley no conseguisse
encontrar
Jeffers. Teria de enviar algum  galeria de drenagem para o
procurar, mesmo que isso significasse ter de admitir que mandara
Jeffers fazer uma inspeco nocturna.

  PHlt, desceu lentamente a rua principal de Sutterton, incapaz
de
desviar o olhar da escura e indistinta parede da barragem que
ocupava metade do firmamento nocturno. No reparou no iluminado
edifcio da Cmara Municipal, no Bar Wagon Wheel, nem na bandeira
anunciando a Terceira Maratona Anual. Uma fila de luzes
assinalava a estrada que atravessava a crista da barragem e Phil
teve
de aproximar a cara do pra-brisas para a ver em toda a sua
extenso. A barragem era de uma vastido to esmagadora que era
difcil
aceit-la como obra do homem; e mais ainda imaginar a albufeira
por detrs dela. A barragem era uma montanha erguendo-se junto
a
uma cidade comparativamente minscula. No entanto, e
contrariamente s montanhas circundantes, tinha um aspecto grave,
sombrio,
estranho e ameaador.
  A alguns quarteires de distncia do centro da cidade, a rua
principal dava lugar a uma estrada de provncia, atravessava um
pinhal
e subia at ao cimo do desfiladeiro. Num promontrio acima da
barragem, havia um miradouro onde adolescentes, numa meia dzia
de carros, ouviam msica sem prestarem ateno  paisagem. Phil
estacionou e caminhou at  balaustrada, esticando os braos e
as
pernas. Eram 10 e meia da noite - tinha percorrido a distncia
desde Los Angeles em pouco mais de oito horas.
  A aragem fresca que soprava da albufeira transportava o aroma
de plantas e era um alvio depois do calor que se fazia sentir
no Vale
Central. O silncio era apenas perturbado pelos acordes de msica
rock oriundos dos carros estacionados e pelo rumor longnquo da
descarga de gua que se precipitava no rio, trezentos metros
abaixo.
Para a direita de Phil, encontrava-se a vasta e escura superfcie
reluzente da albufeira, dividida pelo reflexo do luar, com as
margens
delimitadas por encostas baixas e sulcadas, e, mais ao longe, os
cumes cobertos de neve da High Sierra. Em frente e por baixo do
miradouro, emergia do lago uma coluna de beto que Phil sabia ser
o topo da torre de ventilao. Ligeiramente para a esquerda e
pouco
acima do nvel da gua, encontrava-se o coroamento da barragem.
No fundo do vale, abaixo da barragem, era visvel um rectngulo
intensamente iluminado - era a zona de distribuio elctrica.
Mais para a esquerda, Sutterton era um aglomerado de minsculos
pontos luminosos.
  Olhando para a barragem, Phil comeou a compreender como
devia ter parecido ridculo a Roshek e Bolen. Uma coisa era
estudar
um modelo matemtico e os projectos de uma barragem; outra era
enfrentar a realidade. A barragem era to magnfica, to
permanente. Atravessava a garganta graciosamente e parecia
suportar
com facilidade o peso da albufeira, to solidamente implantada que
nenhuma fora a poderia deslocar. As imagens de computador e
colunas de nmeros que tinham parecido a Phil to significativas
haviam-se tornado repentinamente irrelevantes, simples valores
no
papel sem qualquer significado. Phil sentiu-se novamente meio
tentado a regressar a Los Angeles antes de fazer uma figura ainda
mais ridcula do que anteriormente.
  Por outro lado ... os valores de infiltrao no eram
irrelevantes.
Embora aparentemente robusta e vigorosa, se os valores registados
estivessem correctos, bem no seu interior a barragem ocultava
provavelmente deficincias fatais. A barragem era colossal e
extraordinariamente forte, mas a albufeira tambm.
  Entrou no carro, comeou a descer a encosta e perguntou a si
prprio se no estaria a comear a perder a timidez. Tivera
coragem
para se fazer ouvir, conquistar uma bela mulher e enfrentar um
homem mais velho. No iria permitir que uma simples barragem o
fizesse regressar  sua concha.

  HERMAN Bolen estava no escritrio da sua casa em Westwood,
com o auscultador colado ao ouvido.
  - Sim, Mr. Hartley. Agradeo-lhe toda a maada que teve. Por
favor, telefone-me a qualquer hora da noite assim que tiver
notcias
- concluiu, desligando o telefone.
  Ento, Jeffers no se encontrava em parte nenhuma. No estava
em casa de amigos ou de vizinhos nem em algum bar de Sutterton.
A Diviso de Trnsito das Auto-Estradas no tinha conhecimento
de que a sua carrinha tivesse tido algum acidente. No estava no
hospital nem na priso. Ento, onde estaria? Ainda dentro da
barragem?
  Antes que tivesse tido tempo de tomar uma deciso sobre o que
fazer, o telefone tocou novamente. Era o agente Baker, da
Esquadra
de Beverly Hills.
  - Estou a ligar da residncia de Mr. e Mrs. Roshek - disse. --
Eles estiveram a discutir e gostaria de saber se Mr. Roshek
poderia
ficar esta noite em sua casa. Amanh, j saberemos se Mrs. Roshek
deseja apresentar queixa.
  - Deus meu!... Estarei a dentro de um quarto de hora.

  PHIL decidiu ir falar com Lawrence Jeffers, o experiente
engenheiro da manuteno, e deix-lo decidir se haveria motivo
de
alarme ou no. Mas ningum respondia nem  porta nem ao telefone.
  Phil decidiu avanar com o plano B. De uma cabina, comeou a
telefonar para os onze Duncans que figuravam na lista.
  - Estou a tentar falar com Chuck Duncan - explicou  mulher
que o atendeu  quinta tentativa -, que trabalha na barragem. 
da
casa dele?
  - , sim.  a me que fala. Chuck saiu com Carla, Burt e a filha
dos Petersons.
  - Sabe-me dizer se ele volta cedo?
  -  sexta-feira  noite,  pouco provvel - respondeu, soltando
uma risada que lhe fez lembrar a sua tia Lorene, em Topeka.
- Tente procur-lo no Wagon Wheel, na rua principal. Eles
costumam ficar l at de madrugada.
  - Na rua principal. Muito obrigado, Mrs. Duncan.
  No Wagon Wheel, era noite de msica country. Homens e mulheres
vestidos como se estivessem num rodeo cantavam, danavam
e gritavam.
  Phil abriu caminho at ao bar e conseguiu chamar a ateno do
empregado, um homem forte e com ar antiptico.
  - Por acaso conhece Chuck Duncan? - gritou por cima do
balco.
  - Conheo.
  - Ele est c?
  O empregado espreitou por cima das cabeas dos danarinos e
respondeu.
  - Est ali, na mesa do canto.  aquele rapaz louro com cara de
parvo.
  Phil avanou por entre as mesas cheias de gente e dirigiu-se
a um
grupo de quatro: Duncan e, se bem recordava as palavras de Mrs.
Duncan, Carla, Burt e a filha dos Petersons.
  - Voc  que  Chuck Duncan? - perguntou ao rapaz louro.
  O rapaz voltou-se e procurou focar os olhos.
  - O prprio. - No tendo em conta o efeito do lcool na sua
mente, Duncan parecia no ter mais de dezanove anos. Estava longe
de ser a pessoa a quem confiar os receios sobre a integridade
estrutural da mais alta barragem do Mundo.
  - O meu nome  Kramer. Trabalho na Roshek, Bolen & Benedetz.
Posso dar-lhe uma palavra?
  - O qu?
  - Perguntei se seria possvel falarmos? A msica est to alta
que quase no consigo pensar.
  -  formidvel, no ?
  - Vamos l para fora.  s um instante. - Pegou no brao de
Duncan e instigou-o suavemente a levantar-se. O jovem inspector
acedeu, resmungando, e deixou-se conduzir at uma porta lateral.
  Uma vez l fora, Duncan disse:
  - No me quero demorar, porque tenho a certeza de que Burt
vai comear a atirar-se  Carla. No  a primeira vez que o faz.
- O
frio ar nocturno e o esforo de andar pareciam t-lo arrancado
do
transe.
  - No se preocupe - ripostou Phil, tranquilizador. - Ele est
do lado errado da mesa. Oua, no lhe quero tirar mais tempo. S
quero saber onde posso encontrar Lawrence Jeffers?
  Duncan sentou-se no pra-choques de um carro e cruzou os
braos.
  - No fao ideia. No apareceu no escritrio o dia todo. Ouvi
dizer que os patres em Los Angeles andam  procura dele. Foram
eles que o mandaram?
  - Ningum me mandou. Eu ... eu sou um daqueles tipos que
analisa os registos dos aparelhos que voc preenche. Queria dar
uma
vista de olhos s galerias de drenagem.
  Duncan fez uma careta e abanou a cabea.
  - Voc no quer ir s galerias de drenagem.
  - No quero? Porqu? Dar-me-ia uma ideia sobre o significado
daqueles valores.
  - No quer ir s galerias de drenagem porque  um raio de uma
maada. Tem de se descer e voltar a subir duzentos degraus. Est
tudo encharcado e escuro.  um verdadeiro tmulo. Quer saber
como ? Tome um duche vestido, na escurido, e depois suba e
desa as escadas de um edifcio de quinze andares e j fica a
saber
- disse Duncan, rindo com a ideia da imagem.
  -  assim to mau?
  - Merecia ser aumentado por andar a fazer a leitura dos
aparelhos l em baixo. Da ltima vez pensei que ia morrer
afogado.
  - Havia muita gua?
  - Montes dela. Este ano foi o pior. Aposto que s a gua que

extrada da Galeria D  mais do que a que passa pelas turbinas.
  Phil tirou um bloco-notas do bolso da camisa, abriu-o e
rabiscou
umas palavras.
  - No fazia ideia de que era assim to mau. Evidentemente, vou
recomendar que o aumentem. No seu ltimo relatrio deixou em
branco um conjunto inteiro de aparelhos. Porqu?
  - Eu tomei nota dos registos, mas Jeffers disse-me para no os
incluir. Disse que eram disparatados. Alguns eram nulos e outros
ultrapassavam o limite superior da escala. Todos os anos aumenta
o
nmero de aparelhos danificados e deixamos de fazer a sua
leitura.
De qualquer modo, no so necessrios. As pessoas que trabalham
nas outras barragens das redondezas no tm de entrar em buracos
e
fazer leituras de aparelhos. Oua,  melhor eu voltar para
dentro.
  - Espere s um minuto - disse Phil, pousando uma mo no
ombro de Duncan. - Onde est o registo dos valores indicados
pelos aparelhos danificados?
  - Na mala do meu carro.
  - E onde est o seu carro?
  - Mesmo por baixo de mim. Acha que me sentava num carro
que no fosse meu? Alguns dos tipos que esto no bar so mesmo
maus.
  Enquanto Phil observava, Duncan abriu o porta-bagagens e
procurou numa caixa de envelopes.
  - Mesmo assim quero ir  barragem - disse Phil. - Leva-me
l se amanh Jeffers ainda no tiver aparecido?
  - Nem pensar. Amanh  o meu dia de folga. Logo de manh
vou com o meu equipamento de pesca para o meio do lago.
  - E que tal levar-me l agora mesmo?
  Duncan olhou espantado para Phil.
  - Homem, voc deve ser maluco - disse, fechando o porta-bagagem
e estendendo-lhe um envelope. - Nem por um milho de
dlares eu me ia enfiar naquele buraco no meio da noite. Vou
voltar
para o bar e afastar o Burt da Carla. Foi um prazer conhec-lo.
  Phil seguiu-o ao longo da passadeira de tbuas.
  - E eu posso ir s galerias sozinho?
  - Claro, desde que consiga passar por Newt Withers, o empregado
nocturno na central elctrica. Ele v-o atravs de um circuito
interno de televiso e se no gostar da sua cara no abre a porta.
Porqu? H algum problema?
  - No. Simples curiosidade. Tem razo,  uma loucura ir l de
noite. Obrigado pela informao, Chuck. Boa sorte com Carla.
  Numa cabina telefnica, Phil pediu uma chamada e ouviu depois
a voz aflautada da telefonista do servio interurbano, que dizia:
  - Tenho uma chamada  cobrana de Philip Kramer para Janet
Sandifer. Responsabiliza-se pelo pagamento?
  - Sim, mas l coragem no lhe falta!
  - Janet! Estou a falar do meu posto de comando no corao de
Sutterton. Estou a interromper alguma coisa?
  - S um duche. Estou completamente encharcada. Como 
que vai isso?
  - Encontrei uma mina de ouro, como se dizia aqui em 1849, na
pessoa do inspector que fez a leitura dos valores que temos
estado a
utilizar. Depois do que me disse, ainda estou mais convencido de
que a barragem est prestes a ceder. Disse-lhe que ia recomendar
que o aumentassem.
  Janet riu.
  - Tenho a certeza de que a tua recomendao ter imenso peso.
  - Deu-me uma lista das leituras que no figuravam no ltimo
relatrio. Sei que tens no teu escritrio um terminal com modem.
Tens a chave da entrada?... Bem, ento ouve o que quero que
faas.
Vai at l, introduz os novos valores no programa. Eu dou-te o
nmero de telefone do computador da Roshek, Bolen & Benedetz e
o cdigo de acesso e depois ligo-te novamente quando estiveres
de
volta para saber os novos resultados.
  - Phil,  quase meia-noite! Posso ser presa!
  - Tambm eu. Se o resultado do computador for o que estou a
pensar, vou tentar entrar na barragem. Agora vou para um quarto
num motel e estudar os planos enquanto estiveres no escritrio.
Tens um lpis  mo? Vou ditar-te os valores.
  Janet suspirou.
  - Est bem, diz l.


Captulo 7

ANDnRAlvt durante vrios minutos em silncio. Roshek olhava em
frente e Bolen estava impressionado com a invulgar aura de
confuso e derrota que o envolvia.
  - Queres contar-me o que se passou? - perguntou Bolen
delicadamente.
  Roshek humedeceu os lbios e engoliu em seco antes de
responder.
  - No me lembro de tudo - disse com uma voz distante.
  Aps uma pausa, Bolen atreveu-se a fazer um comentrio.
  - A Polcia deu a entender que lhe bateste e que ela fugiu de
casa.
  Roshek, irritado, inspirou profundamente.
  - Estvamos sentados na sala a falar sobre a nossa vida em
comum. Sobre os aspectos positivos e negativos, como se
estivssemos a elaborar um estudo de viabilidade. Tentmos no
perder a
calma, mas passada uma hora ou duas, descontrolmo-nos.
  Bolen percorreu o caminho de acesso  garagem, desligou o
motor e fitou Roshek, que continuava a olhar em frente.
  - Nunca penseique qualquer de ns fosse capaz de ser to hostil
- disse Roshek em tom monocrdico enquanto massajava as
tmporas. - Lembro-me de que me senti ultrajado com o modo
como ela recusou a minha proposta, uma oferta generosa, se ela
adiasse o processo de divrcio. Comemos a elevar o tom de voz
e
a insultarmo-nos. Lembro-me de ter atirado um copo de vinho 
parede, e no a ela. Tenho a certeza que no. - Levantou a cabea
e olhou para Bolen, surpreendido com as suas prparias palavras.
-- Ela mandou-me sair de casa, Herman. Eu recusei. Ela pegou no
telefone e pediu  telefonista para ligar  Polcia. Eu perdi a
cabea e
atravessei a sala aos gritos. - Desviou o rosto e deu novamente
um
profundo suspiro. - Tentei tirar-lhe o auscultador da mo com uma
das canadianas. Acho que lhe bati no pulso. Sim, deve ter sido
isso,
e ela gritou.
  Bolen examinou Roshek. Tinha a cara contorcida como se
estivesse com dores.
  - Vamos entrar - disse Bolen. - Tomamos um brandy e, se
quiseres, falamos um pouco mais sobre o assunto.
  - No me lembro de ela fugir de casa - prosseguiu Roshek. -- Ca
numa cadeira e ali fiquei feito estpido at a Polcia chegar.
  Bolen tirou a cadeira de rodas do banco traseiro e ajudou
Roshek
a sentar-se.
  - A Polcia foi muito compreensiva - disse Bolen enquanto
empurrava Roshek para casa. - Perceberam que era importante
manter a discrio. Amanh de manh, vou falar com Stella. Se ela
no apresentar queixa, o processo ser arquivado.
  Na sala de estar, a mulher de Bolen disse-lhe que tinham
telefonado dois homens. Um deles no tinha deixado o nome; o outro
era
Newt Withers, da Central Elctrica de Sierra Canyon, que tinha
pedido para lhe ligar quando chegasse.

  JArrE'r Sandifer, sozinha num mar ensombrado de secretrias
vazias e mquinas de escrever, abriu o bloco de apontamentos e
marcou o nmero que Phil lhe tinha dado. Um sinal contnuo
deu-lhe indicao de que estava em contacto com o computador da

firma Roshek. Premiu o telefone no suporte existente no topo da
caixa do terminal e silenciosamente surgiu no monitor uma fila
de
nmeros e letras verdes seguida de:

Roshek, Bolen & Benedetz
Sede. Centro tcnico
Por favor, introduza identificao

  Os seus dedos moveram-se com destreza no teclado e, uma a
uma, apareceram letras no cran:

Philip Kramer RB&B
Seco de Hidroprojectos

  Quando premiu a tecla Enter, as palavras desapareceram e foram
substitudas por:


  CDIGO
Cuidadosamente, Janet escreveu:
  Grand Coulee

A resposta foi imediata:

  INCORRECTO
  Tente novamente

  - Eia! - disse Janet, depois de olhar mais atentamente para as
suas notas. Tinha posto em maiscula as letras erradas. Tentou
de
novo:

grand coulee

  A mquina respondeu novamente e dentro de segundos o monitor
estava cheio de nomes de programas. Moveu o cursor at ao
Modelo de Ruptura de Barragem Kramer, na stima posio, premiu
Enter e no cran surgiu a mensagem:


PARABNS!
Acaba de entrar no fantstico
Modelo de Barragem Kramer!

  Janet trabalhou o mais depressa possvel, porque no queria
passar a noite toda a infringir a lei.

Introduza novos valores
Centro de registo 9 Galeria D Barragem Sierra Canyon

  Janet introduziu as colunas de novos valores de Phil e instruiu
o
computador para avaliar o estado da barragem sob as condies
mais optimistas.


A MELHOR HIPTESE
Comear a vazar o reservatrio
Efectuar inspeco visual Galerias C&D

Tomou nota da resposta e fez outro pedido:

A PIOR HIPTESE
Analisar; Instrues

  Cinco minutos mais tarde, surgiu no monitor a resposta e Janet
no pde deixar de sorrir. Phil tinha-lhe dito o que  que
introduzira
no programa para indicar uma ruptura da barragem sem qualquer
possibilidade de salvao:


SALVE-SE QUEM PUDER!

  Quando Janet chegou a casa, j passava da 1 da madrugada e o
telefone estava a tocar. Era Phil.
  - Estou a ligar do belo Motel Mira-Barragem, em Sutterton,
Califrnia, a Entrada para Um Pas das Maravilhas nas Montanhas
- disse alegremente. - Se prolongares o plano de superfcie do
lago Earl Warren na direco sudoeste, fico submerso a uma
profundidade de duzentos e dez metros.
  - Parece-me um bom local para estar. O teu computador sugere
que fujas a toda a velocidade.
  - Pediste que indicasse quais os pontos de ruptura mais
provveis?
  - Sim. Tens um lpis?
  Depois de tomar nota dos nmeros, Phil repetiu-os a Janet para
se certificar de que estavam correctos.
  - Parece que  na zona de contacto entre o enrocamento e o
leito
rochoso. A gua deve ter encontrado uma passagem atravs da
barreira de argamassa sob a Galeria D. Estive a estudar as
plantas e
tenho a certeza de que, se conseguir entrar na barragem, vou l
ter.
  - E depois?
  - Depois, telefono a Bolen. Ele deve estar interessado em saber
que o inspector que faz a leitura dos aparelhos nas galerias
inferiores afirma que est a precisar de um escafandro. Talvez
Bolen me d
autorizao para fazer a inspeco.
  - E se ele te disser para te meteres na tua vida?
  - Fao a inspeco na mesma. Se no me deixarem entrar, vou
tentar descer pela torre de ventilao, que tem no interior um
pequeno elevador para uma pessoa s. A dificuldade est em chegar
l, porque a extremidade superior da torre est cerca de seis
metros
acima do nvel da gua. Estava a pensar em roubar um iate e subir
pelo mastro.
  Janet resmungou.
  - Isto est-me a soar cada vez pior. Ainda vais parar  cadeia,
se antes disso no te matares.
  - Porque no olhas para o lado positivo da questo? s uma
mulher atraente que no ter qualquer dificuldade em arranjar
outro
engenheiro.
  - No me faas rir. Eu aprendo com os meus erros.

  PHIL vIROU para a estrada de acesso  central hidroelctrica,
mas
teve de travar logo a seguir: ambas as faixas estavam bloqueadas
por uma cancela.
  - Duncan no me falou disto - murmurou.
  Saiu do carro, deixando os faris acesos e o motor a trabalhar,
para examinar o obstculo. O cadeado parecia impossvel de abrir
e
para cortar a corrente seria necessrio serrar durante mais de
uma
semana. O nico aspecto que jogava a seu favor  que no havia
ligaes elctricas nem na cancela nem na vedao adjacente, o
que
significava que, se a conseguisse abrir, no dispararia alarmes
por
tudo quanto era lado.
  Voltou para o carro e sentou-se ao volante a pensar. Seria
fcil
saltar a vedao e caminhar at  entrada do tnel, mas Phil
tinha
decidido fazer-se passar por um inspector da Administrao para
a
Segurana e Sade no Trabalho (OSHA) e era pouco provvel que
um representante daquele organismo chegasse a p. Seria muito
demorado tentar abrir o cadeado com um pedao de arame e tinha
de
agir rapidamente se quisesse aproveitar a ausncia de Bolen - a
mulher dissera-lhe ao telefone que ele s estaria de volta dentro
de
uma hora.
  Phil ergueu o olhar e fitou a enorme massa da barragem que se
adivinhava ao fundo suavemente iluminada pela Lua, que estava
agora bem alta. Quanto mais a fitava, pior se sentia. Era to
grande!
Um enorme gato selvagem, lustroso e musculado, anichado na
garganta, com o dorso arqueado resistindo  presso do lago. Phil
sentiu-se minsculo. Meteu marcha atrs e recuou lentamente.
  - O que preciso - disse em voz alta -  de arranjar um meio
de conseguir passar aquela cancela com o carro. Algo de subtil
e
sofisticado. - Parou a cerca de cinquenta metros de distncia da
cancela, verificou o cinto de segurana, meteu a primeira e
acelerou. Segurando-se com firmeza, tirou o p da embraiagem. Os
pneus
chiaram e o carro saltou para a frente.
  Uma velocidade de cerca de sessenta  hora foi suficiente para
rebentar a cancela, amolgar a grelha do carro e partir um
farolim. A
vantagem de conduzir um automvel velho, pensou Phil,  que no
fazia diferena ficar com mais alguns riscos.
  Percorridos cerca de oitocentos metros, Phil chegou a uma porta
de hangar de ao, fixa  base de uma parede rochosa vertical, que
marcava a entrada do tnel de acesso  central elctrica. Ao
lado,
havia um painel de cimento com um microfone e um altifalante.
Phil, com um rolo de plantas debaixo do brao, aproximou-se e
premiu um grande boto preto. Acendeu-se uma luz vermelha e
ouviu-se uma voz no altifalante.
  - Sala de controle.
  - Mr. Withers? - perguntou Phil com determinao.
  - O prprio.
  - O meu nome  Charles Robinson, da Administrao para a
Segurana e Sade no Trabalho. - Era a maior mentira que Phil
alguma vez dissera. Quando o estado do Kansas foi aceite como
membro da Confederao em 1861, Charles Robinson foi eleito
governador. - Creio que estava  minha espera - acrescentou.
  - Como  que disse que se chamava? Robinson?
  - Mr. Withers - disse Phil com pretensa impacincia -, Mr.
Jeffers ou Mr. Bolen no lhe disseram que este fim-de-semana
poderia haver uma inspeco nocturna?
  - No. Ningum me disse nada. Posso saber como  que passou
pela cancela?
  Phil elevou ligeiramente a voz.
  - Com uma chave que Mr. Bolen me deu hoje em Los Angeles.
As vossas comunicaes parecem-me muito deficientes, o que me
faz pensar no que poderei descobrir.
  Withers procurou defender-se.
  - As ordens que tenho ...
  - Peo desculpa, no tenho qualquer inteno de o censurar
pelo facto de no o manterem informado. Telefone para casa de
ambos, agora mesmo, que eles lhe diro para me deixar entrar.
Caso
contrrio, terei de enviar um relatrio para Washington e para
a
Diviso Estatal de Segurana das Barragens.
  - Sim, senhor.  para j.
  O altifalante emudeceu. Com sorte, pensou Phil, Bolen ainda
no teria chegado e no haveria ningum para atender o telefone de
Jeffers. Withers ver-se-ia obrigado a tomar uma deciso e talvez
acabasse por ceder.
  Decorridos alguns minutos, acenderam-se dois holofotes,
iluminando Phil como se fosse um cantor em palco.
  -  capaz de se colocar no centro da plataforma? - pediu
Withers atravs do altifalante.
  Com os olhos semicerrados, Phil reparou numa cmara na parede
rochosa cerca de dois metros acima da sua cabea e viu a
objectiva recuar para o focar.
  - Importa-se de me dizer o que  esse cilindro que tem debaixo
do brao?
  - Isto? So os planos da instrumentao da barragem e as plantas
dos tneis de inspeco. - Phil desenrolou-os, compreendendo
que Withers queria certificar-se de que no transportava nenhuma
espingarda ou bomba. Ergueu as folhas de papel em direco 
cmara. - Pode ver o selo da companhia Roshek no canto inferior
- disse.
  - Sim, estou a ver. Se transportar algum objecto de metal,
quando passar pelo detector disparar um alarme na Esquadra da
Polcia de Sutterton. Vou subir o porto o suficiente para o
deixar entrar, Mr. Robinson. Tem  de deixar o automvel a e
descer o
tnel a p.
  A pesada porta subiu com um rumor surdo e parou um pouco
acima do solo. Phil passou por baixo e ouviu-a fechar-se
ruidosamente atrs de si com uma sonoridade definitiva.

  - FAc.A Herman Bolen.
  - Ah, sim. Daqui Newt Withers. Obrigado por ter telefonado.
Queria fazer uma pergunta e no consegui falar com Mr. Jeffers.
  - Devo dizer que o seu telefonema me surpreendeu, Withers,
porque estava para ligar para a. Estou um pouco preocupado com
o
que possa ter acontecido a Mr. Jeffers. Receio que ele tenha tido
um
acidente qualquer nos tneis inferiores, porque quando falei com
ele ontem  noite disse-me que estava a pensar fazer uma
inspeco
a alguns dos aparelhos antes de se ir deitar. No h motivo para
alarme,  apenas uma suposio minha - acrescentou Bolen
rapidamente quando ouviu Withers assobiar baixinho.
  - Se ele estivesse na barragem, a carrinha dele no devia estar
aqui? Quando entrei, no a vi no parque.
  - Uma boa observao, mas mesmo assim gostava que algum
fosse l abaixo dar uma vista de olhos.
  - Bem, h vinte minutos o inspector da OSHA disse que ia
inspeccionar a Galeria D ... Quando ele voltar, vou ...
  - Que inspector da OSHA?
  - O Robinson. Aquele a quem o senhor deu as chaves da cancela.
Foi por isso que telefonei, para me certificar de que ele estava
devidamente autorizado.
  - No conheo nenhum inspector da OSHA e a minha chave
est na secretria.
  Withers gemeu.
  - Ele disse que vinha fazer uma inspeco nocturna com o seu
conhecimento. Tinha, inclusive, um conjunto RB & B de plantas
dos tneis. Acha que chame a Polcia?
  - Tinha um conjunto de plantas? Como era ele?
  - Era alto, novo, talvez com um metro e oitenta e ruivo.
  Bolen praguejou baixinho.
  - Chame a Polcia. Parece-me que esse seu inspector da OSHA
 Phil Kramer, um engenheiro que foi despedido h cerca de doze
horas. Ele est completamente convencido de que a barragem vai
cair. Est mesmo obcecado e foi por isso que o despedimos.
  - Ele  violento?  que estou aqui sozinho, Mr. Bolen.
  - Tanto quanto sei, age racionalmente, excepto quando se trata
da barragem. Quase que aposto que ele vai querer que declare uma
emergncia. Nunca esteve no interior de uma barragem e quando vir
a infiltrao que h vai pensar que ela est prestes a rebentar.
  - Espero que a Polcia chegue antes de ele regressar.
  - Withers, quero que a Polcia o detenha e o impea de ir falar
para os jornais antes de eu a chegar, amanh, por volta do
meio-dia.
Vamos tentar manter a mxima discrio possvel.

  PHII. esgueirou-se por entre a parede e a carrinha que estava
estacionada atrs da sexta turbina. Ser que quela hora ainda
havia
algum trabalhador nos tneis? Subiu os degraus de ao e abriu a
pOTta COm a indiCao PERIGO, ENTRADA PROIBIDA. PegOU numa
lanterna e caminhou rapidamente ao longo do tnel. No conseguia
deixar de sorrir ao pensar no modo como tinha enganado Withers.
  Mas o tnel, fracamente iluminado, com um dimetro no superior
ao dos bueiros sob as estradas distritais de seu pai, estava to
encharcado que Phil j tinha os sapatos estragados. Era um local
mais susceptvel de inspirar gritos de medo do que sorrisos de
satisfao. Dirigindo a luz para o pequeno regato que flua
silenciosamente no escoadouro ao longo do tnel, pensou no que
o esperaria a
quarenta e cinco metros de profundidade.
  O ar estava viciado e o tnel parecia estreitar  medida que
avanava, embora soubesse que isso era apenas a sua imaginao.
Sentiu
uma ligeira claustrofobia, no o bastante para o levar a
retroceder,
mas suficientemente forte para sentir que se no a combatesse
redundaria em medo. Continuou a avanar, chapinhando a cada
passo.
Numa encruzilhada de tneis, desdobrou as plantas, e a viso dos
desenhos tcnicos, com as dimenses, cortes transversais e notas
explicativas, ajudou-o a manter o controle. No h nada a temer,
pareciam dizer os desenhos. O caminho em frente vai dar  base
da
torre de ventilao. Se virares  esquerda, vais ter onde queres.
  O tnel lateral era manifestamente mais estreito, com um
dimetro de apenas cerca de dois metros. Agora percebo porque
 que
Duncan detesta vir aqui, pensou. Se fosse um verdadeiro
inspector
da OSHA, faria imensas crticas a estes tneis -
insuficientemente
iluminados, ar irrespirvel, escorregadios, a gua de infiltrao
devia penetrar atravs dos colectores, e no atravs de rachas nas
paredes. Estava tudo muito mal.
  Phil parou no topo de umas escadas que desciam em ngulo
acentuado. O feixe de luz da lanterna era incapaz de penetrar na
escurido. Permaneceu imvel,  escuta. A gua gotejava  sua
volta, mas o tnue som que prendeu a sua ateno era mais
profundo
e forte, semelhante ao de uma queda-d'gua num lago. Comeou
ento a descer.

  Depois de dar as boas-noites, Herman Bolen esperou  entrada
do quarto de visitas para ver se Roshek adormecia e, quando a luz
por debaixo da porta se apagou, suspirou de alvio. Desceu as
escadas e telefonou do seu escritrio para a central
hidroelctrica.
  Era surpreendente como a vida se complicara repentinamente.
Um dos funcionrios de maior confiana da empresa tinha
desaparecido inexplicavelmente. Roshek anunciara que poderia
deixar a
presidncia durante alguns anos e depois aterrorizara a mulher
e
fora expulso da sua prpria casa pela Polcia. E agora o problema
com o Kramer.
  - Fala de novo Bolen. Alguma notcia? - perguntou quando
Withers atendeu.
  - A Polcia vem a caminho. Kramer ainda est no buraco.
  - No o deixe entrar na sala de controle. Se ele tem um ataque
de nervos a dentro, pode provocar muitos estragos. Tenho estado
a
pensar. Kramer estava muito preocupado com os nveis de
infiltrao excessivos na Galeria D. Sabe-me dizer qual  a
actual situao?
  - Na Galeria D? H alguns sensores de registo remoto da tenso
intersticial, mas acho que no esto a funcionar. Os valores nunca
variam. A drenagem naquela rea ... Deixe-me ver, parece ser de
cerca de um tero do normal. Eu diria que duas das trs bombas
no
esto a funcionar.
  - Duas bombas? Isso quer dizer que deve haver nos tneis uma
camada de gua de alguns centmetros. Kramer vai pensar que a
barragem est a ceder. No se deixe assustar.
  - Est bem.

  QuANDo atingiu o fundo das escadas, Phil viu-se submerso numa
completa escurido e com gua pelas virilhas. No fiques
nervoso, disse a si prprio, s porque as luzes esto
apagadas e as
bombas paradas. A situao no era de todo normal, mas isso no
significava que estivesse iminente uma catstrofe. Ele queria
provas. Deixando o rolo de plantas num degrau seco, aproximou-se
de
onde lhe parecia brotar gua. A quinze metros de distncia das
escadas, descobriu um forte jorro de gua que irrompia de um
ponto
abaixo da superfcie. Tacteou com um p para verificar se a gua
estava a brotar de um cano de presso partido, mas a fora do
jorro
desviou o p, que tocou num objecto submerso coberto de tecido
que estava preso  parede e se soltou  passagem de Phil.
  Mais adiante no tnel, Phil dirigiu a lanterna para uma porta
de
ao semiaberta com a inscrio GALERIA D. Phil estava certo de
que
a prova que procurava se encontrava ali. A enorme quantidade de
gua provava incontestavelmente que a drenagem, bombagem e
monitorizao em que Roshek tinha tanto orgulho eram
insuficientes. Alm disso, o programa de computador, embora
talvez estivesse longe de constituir uma prova irrefutvel, tinha
pelo menos a
virtude de ter revelado que algo de errado se estava a passar.
  Para l da porta da Galeria D, o corredor descia gradualmente
e,
percorridos vinte e cinco metros, Phil j tinha gua pelo peito.
Parou
e dirigiu a luz para a frente, pensando quanto mais teria de
avanar
para chegar aos aparelhos de registo. Seis metros  sua frente
viu
uma faixa horizontal tremeluzente que o deixou boquiaberto e
estarrecido: uma toalha de gua atravessava a galeria de um lado
ao
outro atravs de uma fenda de bordos irregulares. O volume de
gua
aumentava a olhos vistos e da base da corrente soltavam-se vrios
pedaos pequenos de beto que eram projectados atravs do tnel
como se fossem balas.
  - Aquilo no  infiltrao nem um cano roto - disse, recuando
vrios passos e engolindo em seco. - Aquilo  uma brecha.
  Phil voltou-se e avanou em direco ao tnel principal o mais
depressa possvel, reparando pela primeira vez como o piso estava
escorregadio. Escorregadio? Mantendo a lanterna fora de gua,
mergulhou a cabea e ombros, raspou com a palma da outra mo no
cimento do cho e trouxe-a  superfcie. Com o auxlio da
lanterna,
viu que a sua suspeita era fundada - tinha a mo cheia de argila.
A
gua que penetrava estava a arrastar consigo parte da barragem.
Colocou a argila no bolso da camisa e abotoou o boto. A trs
metros de distncia, ondas sbitas no tnel principal comearam
a fechar a porta da Galeria D. Num movimento desesperado, enfiou
os
braos na abertura que estreitava e esgueirou-se atravs dela.
J no
estava preocupado em provar a sua teoria; a nica coisa que
interessava agora era pr-se a salvo.
  Arquejante, avanou em direco s escadas. A fonte submersa
  ,
que agora jorrava com uma fora dez vezes superior, lanando uma
massa borbulhante de gua contra o tecto, obstrua-lhe o caminho.
Phil lanou-se impetuosamente para a frente e caiu nos braos
frios
e rgidos de Lawrence Jeffers.

  THEoDoRE Roshek no conseguia dormir. s apalpadelas, procurou
o candeeiro da mesa-de-cabeceira e o telefone. Ia telefonar a
Eleanor. Bastaria o som da sua voz para se sentir melhor, mas,
infelizmente, o nmero estava impedido quando ligou para
Creekwood,
a sua casa no rio Sierra Canyon. Provavelmente, tinha ido
deitar-se
e, como era habitual, deixara o telefone fora do descanso.
  Pousou a cabea na almofada e ficou deitado a olhar para o
tecto.


Captulo 8

Qu.rrDo o jacto de gua no pavimento do tnel se transformou num
verdadeiro giser, soergueu o corpo submerso de Jeffers num
grotesco movimento rotativo. Phil vislumbrou um par de olhos
vidrados e imveis numa expresso de terror ainda maior que o seu.
Recuou horrorizado, deixando cair a lanterna. Com a queda, a gua
cobriu-lhe a cabea, interrompendo o seu grito rouco, e quando
se
levantou estava imerso na mais completa escurido. Orientou-se
para o som do jacto ascendente e encontrou novamente o corpo que
lhe bloqueava o caminho. Phil encheu os pulmes, mergulhou e
passou pelo jacto empurrando  sua frente o corpo de Jeffers a
fim
de manter o equilbrio. Uma vez passado o jacto, a gua dava-lhe
pela cintura, ou seja o seu nvel tinha subido quase meio metro
em
dez minutos.
  No fundo das escadas, viu luzes fracas muito acima do ponto em
que se encontrava. Graas a Deus, pensou. Iniciou a subida,
arrastando atrs de si o corpo inanimado, mas ao fim de cinco
metros
largou o fardo e sentou-se, ofegante, procurando ordenar as
ideias.
Para qu arriscar a vida recuperando um cadver? As pernas
comearam a gelar-lhe e interrogou-se se no estaria a entrar em
choque.
Sondou a penumbra com o olhar e viu a gua que subia
silenciosamente, cobrindo-lhe os ps, tornozelos e joelhos.
Virou-se a comeou a subir devagar com o auxlio das mos em
direco s luzes
longnquas.
  WrrHERS amaldioava a sua prpria estupidez. Porque  que
deixei o homem entrar? Mas como  que eu ia adivinhar que estava
a mentir? Ele sabia exactamente o que havia de dizer. Qualquer
um
teria feito o mesmo.
  O circuito fechado de televiso compreendia quatro monitores
montados na parede. Um estava orientado para a entrada do tnel
de
acesso e parque de estacionamento, outro para o quadro elctrico,
outro para a sala dos geradores e o ltimo para a sala das
turbinas.
Withers apontou a cmara quatro para a entrada das galerias de
inspeco.
  Esperava que a Polcia chegasse antes de o intruso voltar.
  O telefone da linha directa para o Centro de Controle de Gs
e
Electricidade do Pacfico, em Oakland, organismo de superviso da
distribuio de energia elctrica na Califrnia Setentrional
soou.
  - Sierra Canyon - disse Withers, levantando o auscultador.
  - Centro de Controle de Energia. O Rancho Seco  capaz de ter
de reduzir a produo dentro de algumas horas. Por isso, vamos
necessitar de uma produo adicional de vinte megawatts da
durante as horas de ponta da manh. Calculo que seja possvel?
  - No h problema - respondeu Withers, no momento em que
viu no quarto monitor Kramer surgir na porta e encostar-se a uma
balaustrada de ao. Respirava com dificuldade, como um peixe fora
de gua, alando os ombros. Withers no conseguiu perceber se ele
estava doente.
  A voz do Centro de Controle de Energia prosseguiu.
  - Estou a olhar para os mapas da Sierra Canyon. Parece haver
uma flutuao da tenso durante os ltimos trinta minutos. Que 
que se passa?
  - Oua, agora estou muito ocupado. Eu depois ligo para si.
  - Ocupado? s trs da madrugada?
  - Tenho aqui um pequeno problema. Depois eu explico.
  Withers desligou, fitando o monitor. As roupas de Kramer
pareciam molhadas, tinha os olhos esgazeados e a boca aberta.
  - Oh, no - murmurou Withers. - Deve ter rebentado um
cano e ele apanhou com o esguicho. Parece ter enlouquecido
completamente. - Kramer fechou a boca e engoliu com dificuldade,
olhando para trs como se estivesse a ser perseguido. Depois,
precipitou-se pelo curto lano de escadas, descendo para a sala
das
turbinas, e desapareceu do alcance da cmara.
  Withers voltou-se para os vidros que revestiam uma das paredes
da sala de controle. Teria de reter Kramer at a Polcia chegar
e
rezar para que ele no tivesse um ataque. A sala dos geradores
estava cheia de ferramentas e equipamento. Um martelo ou um balde
de parafusos lanado a um dos rotores giratrios podia causar
estragos enormes.
  A figura que surgiu do outro lado dos vidros parecia sada de
um
pesadelo. As roupas de Kramer estavam encharcadas e esfarrapadas
e a sua expresso era a de um homem que mantm apenas uma tnue
ligao com a realidade. Correu aos ss no cho de tijoleira,
escorregou e parou, encostando as mos ao vidro. A voz que saiu
do intercomunicador era aguda e ofegante.
  - A barragem est a ceder! Faa soar o alarme!
  Withers acenou afirmativamente, mas no se mexeu.
  - Est a ouvir-me? A gua est a inundar os tneis ... 
preciso
  alertar a cidade ... - Kramer olhou  sua volta, desesperado,
e de  pois precipitou-se para a extremidade dos vidros e tentou
abrir a
porta da sala de controle. - Abra a porta! A barragem est a
cair!
  Withers estava debruado sobre um microfone na bancada.
  - Sim, estou a ouvi-lo, mas no posso abrir a porta,  contra
as
normas - disse, procurando parecer calmo, embora estivesse a
ficar com a testa coberta de suor.
  - As normas que vo para o diabo! - gritou Kramer. - Isto 
uma emergncia! Temos de sair daqui ... Est maluco ou qu?
  - Acalme-se, Mr. Kramer. Est muito excitado.
  -  claro que estou excitado. Temos de telefonar ... - Kramer
parou, desconfiado, e perguntou: - Como  que sabe o meu nome?
  Withers hesitou, desejando no ter cometido outro erro terrvel.
  - Falei com Herman Bolen, que me disse quem voc era.
  - Ligue-me para ele! Quando lhe contar o que vi ...
Telefone-lhe! Telefone para algum, seu idiota! Faa alguma
coisa!
  - Mr. Bolen estar aqui por volta do meio-dia. Nessa altura,
poder falar com ele.
  Kramer cerrou os punhos.
  - Ao meio-dia j a barragem pode ter cado! Sutterton pode ter
desaparecido! E ns estaremos a boiar no meio da baa de S.
Francisco. A ... barragem ... est ... a cair - disse, revirando
os olhos,
no querendo acreditar na ausncia de efeito das suas palavras
sobre
Withers. Voltando-se, viu a fila de gabinetes do outro lado do
vestbulo. Correu de um para outro, experimentando os telefones
e largando-os ao verificar que no conseguia linha.
  - Esses telefones no esto a funcionar, porque desligam o
quadro s cinco - esclareceu Withers. - Mr. Kramer, procure
controlar-se. - Onde diabo estaria a Polcia?
  Kramer cerrou os punhos e aproximou-se novamente dos vidros
da sala de controle.
  - Voc pensa que sou um doido furioso, no ? Bolen disse-lhe
para no me levar a srio, no foi?
  - Se a barragem estivesse a cair, os instrumentos ...
  - Os instrumentos no esto a funcionar! Pergunte a Duncan;
ele diz-lhe. Sei que a barragem est a cair. Vi com os meus olhos
...
- disse Kramer, batendo na cara com ambas as mos e cravando,
frustrado, as unhas na testa. Withers levantou-se, observando-o,
desejando que ele estivesse prestes a sucumbir a um ataque
qualquer.
  Kramer baixou os braos e os dois homens entreolharam-se
atravs dos vidros duplos  prova de bala.
  - No sou maluco - disse Kramer, fazendo gestos precisos. A
sua voz e expresso reflectiam agora uma profunda calma. - Estive
na galeria inferior de drenagem e enquanto estamos a ter esta
conversa amigvel a gua est a a penetrar sob presso. Vi duas
brechas e por cada uma delas esto a entrar talvez cinquenta mil
litros
de gua por minuto. Tenho a certeza de que o senhor, Mr. Withers,
como engenheiro que , compreende que gua a penetrar sob
presso, como hei-de dizer?, no  propriamente uma boa notcia.
  - Eu ... eu no sou engenheiro.
  - Pois bem, eu sou. Sou formado em Engenharia Civil e, por
sorte, interesso-me especialmente pela previso de ruptura de
barragens. Uma das coisas que se aprende quando nos interessamos
por
este assunto  que a infiltrao sob presso  um mau indcio,
assim
como a presena de argila, que revela que o ncleo da barragem
est
a ser arrastado pela dita gua sob presso. - Meteu a mo no bolso
da camisa e estendeu-a em direco a Withers. - Est a ver?
Apanhei isto na galeria inferior, sob uma camada de gua de cerca
de um
metro de altura. Isto  argila do ncleo da barragem. Em resumo,
tudo isto, presso, argila, aumento rpido do fluxo de gua,
significa que a barragem est a desfazer-se - finalizou Kramer,
sorrindo
como se estivesse contente por ter conseguido encontrar palavras
que at a mais estpida criana seria capaz de compreender. - Mr.
Withers, que  que dois adultos inteligentes deveriam fazer face
a
uma barragem que est a ceder? - perguntou, elevando o tom de
voz. - Pegar no telefone!
  - No sou especialista em hidrulica.
  - Mas sou eu, idiota! - gritou Kramer. - Podem restar-nos
algumas horas ou apenas alguns minutos. Esta barragem pode estar
prestes a abrir-se como uma melancia ao cair de um camio -
declarou Phil, batendo com os punhos nos vidros. - J morreu um
homem! Quer ficar aqui? Como queira, mas abra a porta exterior
para eu poder sair. Caso contrrio, pego num p-de-cabra e fao
tudo em fanicos.
  Withers estava alagado em suor.
  - Quem  que morreu? - perguntou. - Quem? - Ser que
Jeffers tinha tido um acidente na galeria de inspeco?
  - Sei l! Acho que deve ser o dono da carrinha que est
estacionada por detrs das turbinas. Aterrou mesmo em cima da
minha
cabea.
  - Como  que ele era?
  - Era hornvel! Estava morto! - respondeu Phil, levantando o





VlJVl.
  - Newt?  Lee Simon. Voc est bem? Que  que se passa?
  Withers falou para um segundo microfone.
  - Estou bem, Lee. Vou abrir a porta. Venha at  sala de
controle.
  - Algum intruso?
  - Sim. Est aqui fora.
  - Est armado?
  Withers olhou para Kramer, que segurava a cabea entre as mos
como que para evitar uma exploso, e respondeu:
  - Acho que no.
  - Voc deve estar doido. Vamos morrer todos afogados - disse
Phil, afastando-se.
  - Oua, Kramer. Mantenha-se calmo e ver que tudo corre bem
- atalhou Withers, praguejando ao ver Kramer correr para as
escadas que conduziam aos pisos inferiores. - Onde pensa que vai?
-- gritou para o microfone. - Se tocar nesses geradores, vai
passar o
resto da vida na priso! Juro que vai!
  Dentro de poucos minutos, os agentes John Colla e Lee Simon
estavam na entrada da sala de controle aguardando mais
instrues.
  - Esto a ver aquelas escadas? - indagou Withers. - Descem
dois lanos e vo ter ao compartimento das turbinas. Ao fundo,
h uma porta de ao. Pelo monitor, vi-o passar por essa porta.
- A sua
ateno foi desviada por uma luz vermelha que piscava no painel
de
controle  sua esquerda. - Esperem! Ele est no elevador.
  Embora nunca l tivesse estado, Withers sabia que havia um
elevador de uma s pessoa no interior da torre de ventilao e
devia ter-lhe ocorrido que era natural que Kramer soubesse da sua
existncia. A luz vermelha indicava que estava a ser utilizado
e, num
mostrador, podia ver-se que o ascensor se encontrava no nvel de
duzentos metros e que subia regularmente. Com um leve sorriso,
Withers inverteu a posio de um interruptor. A seta parou e
comeou a mover-se lentamente para a esquerda. O elevador
demoraria
cerca de cinco minutos a regressar ao fundo da torre. Withers
correu
para as escadas.
  - Venham comigo - gritou, fazendo sinal aos polcias para o
seguirem. - Est preso no elevador e no pode escapar-nos.
  Os passos dos trs homens que desciam as escadas a correr
abafaram uma ligeira vibrao palpitante no rumor produzido pelos
geradores. Na sala de controle, acenderam-se vrias luzes
indicativas de uma quebra de tenso, que logo se apagaram devido
a curtos-circuitos provocados pela gua.

  O ELEvADOR consistia numa estrutura aberta assente numa
plataforma de um metro quadrado, com uma rede at  altura da
cintura
para proteger o passageiro das paredes de beto do poo. Uma das
paredes estava coberta de canos de gua, tubos de ventilao e
feixes de condutas elctricas; outra tinha numa reentrncia
vertical de
cerca de sessenta centmetros de profundidade uma escada de ao
a
toda a altura da torre.
   medida que o elevador subia, Phil revia mentalmente os
desenhos da torre que tinha estado a estudar no motel. No topo,
havia um
lano de escadas que conduzia a um alapo que dava para o
exterior, seis metros acima da albufeira e a sessenta metros da
margem.
Se tivesse um avano suficiente, teria tempo de nadar at terra
e dar
o alarme antes de Withers descobrir onde ele estava.
  De repente, o elevador parou com um solavanco. A princpio,
Phil pensou que o nvel da gua tinha subido o suficiente para
fazer
parar os geradores ... mas no; as luzes na torre continuavam
acesas.
  Quando o ascensor comeou a descer, Phil compreendeu que
Withers tinha descoberto onde ele se encontrava e estava a
recorrer
a um mecanismo de emergncia qualquer para obrigar o elevador a
descer. Trepou por cima da rede protectora, agarrou-se a um dos
degraus da escada, saiu do elevador e comeou a escalar. Os
degraus
estavam to molhados devido  gua que escorria pelas paredes que
Phil tinha dificuldade em segurar-se, mas continuou, de olhos
fixos
na luz l no alto.
  Minutos depois, atingiu o topo da escada, passou por uma
abertura existente na parede de beto, subiu as escadas a correr,
abriu o
alapo e saiu para o exterior. Encontrava-se agora do lado de
fora
da torre. O vale ainda estava banhado em luar, que se reflectia
no
lago. O cu estava estrelado e no havia qualquer movimento ou
rudo nas florestas circundantes. Era uma paisagem to tranquila
que Phil comeou a duvidar de si prprio. Teria ele realmente
vivido aquela situao ou seria tudo apenas fruto da sua
imaginao?
  Se estiver doido, pensou, podem prender-me. Se no, 
melhor pr-me a andar. Meteu a chave da ignio do carro na
boca,
entre a bochecha e a gengiva no lado direito, e no lado esquerdo
colocou duas moedas que tinha no bolso, pensando que podiam ser
teis no caso de encontrar uma cabina telefnica. Tirou os
sapatos,
as meias a camisa e as calas e colocou-os dobrados numa pilha.
Depois, deu meia volta e atirou-se da torre, apertando o nariz
com
uma das mos. O impacto da gua fria deu-lhe novas energias e
comeou a nadar para terra com braadas fortes e regulares.

  HERntAN Bolen estava deitado de lado na cama, praguejando
para o telefone.
  - Ele disse que viu um cadver?
  - Deve ser Jeffers. Quando me dirigia para o elevador, vi a sua
carrinha estacionada atrs da ltima turbina - afirmou Withers.
  Bolen ficou estupefacto. Jeffers! Morto! Ser que era ele?
  - H um cadver ou no? No foi l abaixo certificar-se? --
perguntou de repente Bolen.
  - Aqui tem estado tudo to agitado que no tive oportunidade.
  - ento mande algum! Chame Cooper ou Riggs, que diabo,
Withers! Quero que v algum l abaixo imediatamente! Que mais
disse Kramer?
  - Disse que a gua estava a jorrar por todo o lado e a arrastar
a
barragem consigo. Tirou lama do bolso da camisa como se isso
provasse alguma coisa.
  - Deus meu!
  - No me deixei impressionar porque o senhor j me tinha avisado
de que ele ia dizer que a barragem estava a cair. Os mostradores
indicavam que duas bombas estavam paradas, por isso j sabia
que a gua se estava a acumular. Quando encontrou o cadver, acho
que ficou histrico. Devia t-lo visto;  um verdadeiro
psicopata.
  - Para bem der todos, Withers, espero que ele estivesse
realmente com alucinaes. Qual  a sua anlise da situao?
  - Parece-me que agora nenhuma das trs bombas na galeria
inferior est a trabalhar e os sensores remotos na Galeria D
tambm
deixaram de funcionar. Penso que a Galeria D est inundada.
  - Bonito! - exclamou Bolen com um tom de profundo sarcasmo. -
E Kramer? Est-me a dizer que a Polcia j o encurralou?
  - Viram-no atravessar a correr a rua perto do miradouro da
esquerda em cuecas. Est escondido no estaleiro Mitchell
Brothers.
Ser apanhado dentro de poucos minutos.
  - Pegue em Leonard Mitchell e encarregue-o de bombear a
gua dos tneis inferiores. Vou sair de Beverly Hills agora -
disse,
consultando o relgio da mesa-de-cabeceira; eram 5 e meia da
manh. - Conto estar a dentro de trs horas. Vou levar o meu
avio
particular e aterrar na barragem.
  Bolen desligou e comeou a vestir-se apressadamente.
  - Quando Theodore acordar - disse  mulher -, diz-lhe que
tive de ir a Sierra Canyon e que lhe telefono logo que puder.
  No quarto de visitas, Roshek pousou cuidadosamente o
auscultador. Ficou de olhos abertos na escurido, com os
maxilares contrados e os lbios to cerrados que a boca ficou
reduzida a um trao
fino.

  APs escalar a vertente rochosa desde o lago at  estrada,
Phil
ficou parado, a tremer, pensando que caminho tomar. Sutterton
ficava para a direita, l em baixo, a um quilmetro e meio de
distncia. Mais perto, para a esquerda, subindo a estrada, ficava
o miradouro, mas no se lembrava de l ter visto qualquer cabina
telefnica. Do outro lado da rua, havia depsitos de gua e
combustvel e
o que parecia ser uma fbrica de asfalto. Contra o cu escuro via
fios
que divergiam de um poste prximo em direco a vrios edifcios
de chapa ondulada. Um dos fios podia ser uma linha telefnica.
Atravessou a estrada a correr.
  Imediatamente antes de atingir a zona ensombrada do outro
lado, surgiu na curva um automvel. Por instantes, Phil foi
iluminado pela luz dos faris. Correu a toda a velocidade por
entre dois
tractores parados e tentou abrir a porta do edifcio maior.
Estava
fechada. Correu para as traseiras e viu que havia, na parte de
cima,
uma fiada de janelas. Quebrou uma delas com uma pedra e, enquanto
trepava cuidadosamente para o interior, ouviu o automvel
parar no saibro. O rudo crepitante de um aparelho de rdio
confirmou o seu receio - era a Polcia.
  - Suspeito no estaleiro da Sterling Road. Provavelmente dentro
de um dos edifcios. Envie todos os homens para c.
  Tremendo de frio, Phil cruzou os braos e cingiu-os ao tronco
enquanto os olhos se acostumavam gradualmente  escurido.
Descortinou as sombras de duas escavadoras com pneus de dois
metros
e meio de altura e cabinas de comando, s quais s se tinha
acesso
atravs de escadas. O que a princpio lhe pareceu ser um homem
de
p encostado  parede era, na realidade, um fato-macaco branco
pendurado num gancho. Enquanto o vestia, chegaram mais dois
carros.
  - No quero tiros - disse uma voz em tom autoritrio. - Isto
est cheio de depsitos de combustvel e talvez haja tambm
dinamite.
  - Sim, nada de tiros. O suspeito detesta tiros - murmurou Phil,
rastejando no cho.
  Um sbito claro de faris permitiu-lhe ver um telefone em cima
de uma secretria. Levantou o auscultador e ouviu o sinal de
linha.
Um minuto depois, estava a falar com Janet Sandifer.
  - Phil, so cinco e meia da manh! Onde  que ests? Conseguiste
entrar na barragem?
  - Entrar foi fcil, o pior foi sair. Tenho a Polcia atrs de
mim.
A barragem est a cair, a gua est a penetrar nos tneis sob
presso.
 preciso dar o sinal de alarme ...
  - O qu?
  - Estou encurralado numa garagem, prestes a ser preso por
invaso da propriedade alheia ou qualquer coisa do gnero. Avisa
toda a gente de que a barragem est a ceder. Telefona para todas
as
cidades a jusante, telefona para o xerife. H no estado uma
espcie
de gabinete de proteco civil ... Liga para l.
  - A barragem est a ceder? Queres dizer, neste preciso momento?
E a Polcia no v isso?
  - No se v nada se no se souber onde procurar. A gua est
provavelmente a jorrar pelo paramento jusante no local indicado
pelo computador, mas ningum quer saber. Janet, no posso fazer
mais telefonemas. Ainda h tempo para evacuar a cidade. Tens de
acreditar em mim, porque sei o que estou a dizer. Faz o que
puderes ... por favor, por favor!
  - Acredito em ti e vou fazer o que puder. No sei o que vou
conseguir fazer a partir de Santa Mnica, mas vou esforar-me o
mximo possvel. Phil? Estou preocupada contigo. No corras mais
riscos, est bem?
  Phil cerrou os olhos, aliviado.
  - Uf! Sabia que podia contar contigo. Tenho de desligar. Boa
sorte!
  - Promete que no vais correr mais riscos.
  - J s tenho de tentar mais uma acrobacia. Depois, acabou.
Depois, tudo depende de ti.


Captulo 9

QuANDo Hartley, o chefe da Polcia, chegou ao estaleiro de
construo, um agente p-lo a par da situao. Tinham encontrado
pegadas
que conduziam  parte traseira do barraco, onde havia um vidro
partido.
  - Vou tentar convenc-lo a sair - disse Hartley, agachando-se
atrs do seu carro acompanhado de diversos guardas e levando um
megafone  boca. - Fala Wilson Hartley, chefe da Esquadra de
Sutterton. - A sua voz ecoava na tranquilidade da noite. - 
melhor
entregar-se, Mr. Kramer. Saia pela porta de mos no ar e ningum
lhe far mal.
  - Promete no disparar? - gritou Phil do interior do barraco.
  Hartley abriu os olhos para o polcia a seu lado.
  - No Distrito de Caspar no se atira sobre transgressores --
gritou para o megafone.
  - ptimo, porque no estou armado - foi a resposta abafada.
  - Quando se consegue faz-los falar, estabelecer a comunicao,
geralmente no cometem nenhuma loucura - murmurou Hartley para o
colega.
  - Ouvi o que disse. A comunicao funciona nos dois sentidos.
Se se conseguir pr um polcia a falar, geralmente ele tambm no
comete nenhuma loucura. Gosta de ser polcia? - inquiriu a voz.
  Hartley olhou, intrigado, para o megafone e carregou repetidas
vezes no boto da pega.
  - Mais tarde, podemos conversar sobre isso - respondeu.
  - Eu sei que podemos conversar mais tarde, mas devamos falar
agora - ripostou a voz. - No lhe disseram que a barragem est
a cair? Sou engenheiro civil, formado na Universidade do Kansas.
O
senhor e os seus homens deviam estar a alertar a cidade em vez
de
estarem a aterrorizar um engenheiro que tenta fazer um favor a
toda
a gente e de quem no se pode deixar de gostar uma vez
ultrapassada
a barreira de timidez que lhe ficou da infncia.
  - Oh, este tipo  louco de todo - comentou Hartley.
  - Estou a falar para tentar ganhar tempo - prosseguiu a voz. --
Estou aqui a verificar umas coisas. Pronto, j estou preparado.
Esto
a ver a porta da garagem? Vou carregar num boto que a abre e
depois vou sair. A srio.
  A porta deslizou ruidosamente para um dos lados. Hartley
espreitou para o interior e foi surpreendido por dois faris que
se acenderam. Depois, ouviu-se o roncar de um motor a diesel e
surgiu um
camio de carga de quinze toneladas. Antes que algum tivesse
tempo de reagir, o camio tinha sado do barraco e, virando para
a
esquerda, seguia para a estrada.
  Um polcia ergueu uma espingarda.
  - Nada de tiros - ordenou Hartley. - No consegue ir longe
naquele camio.
  Hartley carregou no acelerador e arrancou, levantando uma
nuvem de saibro. Ligou a sirene e as luzes do tejadilho e
alcanou o
camio em menos de um minuto. Quando o tentou ultrapassar, o
camio virou para a direita e enveredou pela estrada estreita que
atravessava a barragem.
  - Onde  que ele pensa que vai? - indagou Hartley, dando uma
guinada no volante para a direita. - Nunca vai conseguir fazer
as
curvas do outro lado do rio.
  O polcia sentado a seu lado tinha baixado o vidro.
  - Deixe-me atirar-lhe aos pneus, chefe.
  Hartley franziu os lbios, indeciso.
  - Est bem, atira ... Espera, ele est a parar! Est a levantar
a
bscula. - O chefe da Polcia travou a fundo e o automvel parou,
derrapando e ficando com a parte da frente enganchada na traseira
do camio.
  Antes de os dois polcias terem tempo de abrir as portas, o
automvel foi violentamente sacudido por toneladas de pedra
triturada
que eram descarregadas em cima do cap. Quando conseguiram sair
pelas janelas da retaguarda, o camio afastava-se, com a parte
traseira levantada perfilando-se no cu acinzentado.

  PHIL parou o camio quando viu os nmeros 50+00 gravados no
rebordo de beto da estrada, no coroamento da barragem. Segundo
os valores que Janet lhe tinha transmitido no motel, o ponto mais
provvel de ruptura no paramento jusante encontrava-se
imediatamente a seguir quela marca. Saiu do camio, com o
fato-macaco
branco e um par de botas de borracha que tinha encontrado na
garagem. O som de uma sirene que se aproximava deu-lhe a entender
que outro carro da Polcia conseguira contornar o monte de pedra.
  Aproximou-se da balaustrada e olhou para o paramento da
barragem que, com uma inclinao de sessenta graus, desaparecia
na
sombra e nvoa atroadoras l em baixo. Na base da barragem, do
outro lado do rio, encontrava-se o parque de estacionamento da
central hidroelctrica, onde estavam estacionados cerca de meia
dzia de automveis, incluindo a sua querida carripana. Com a
lngua, tocou na chave de ignio, presa ainda entre a bochecha
e a
gengiva.
  O coroamento da barragem estava situado cerca de trezentos
metros acima do nvel do mar, e o ponto previsto de ruptura, a
cerca
de cem metros. Phil saltou por cima da balaustrada, deteve-se por
instantes no bordo da plataforma da estrada e depois atirou-se
de
uma altura de cerca de metro e meio para o topo da vertente.
Ouviu
um automvel parar por cima dele e comeou a descer o mais
depressa possvel o lado da barragem, formado por grosseiros
blocos
de pedra.
  - Volte aqui. Pare ou atiro! - gritou uma voz. Seis metros
acima, dois polcias fitavam-no.
  - No teriam coragem de atirar sobre um inofensivo engenheiro
desarmado, pois no? No v seguir-me? Quero mostrar-lhes onde 
que a barragem tem uma brecha para se convencerem
de que no sou doido - gritou Phil.
  - Raios o partam! John, mande alguns homens para a base da
barragem. Eu vou atrs dele. Fique aqui para o caso de ele voltar
para trs.
  O polcia saltou por cima da balaustrada e gritou para a figura
que fugia:
  - Se me obriga a descer esta maldita barragem at l abaixo,
toro-lhe o pescoo quando o apanhar. - Mas no obteve resposta.

  LIGnx,lvt novamente do Centro de Controle de Energia.
  - Rancho Seco reduziu a produo mais do que estava previsto.
  Em vez dos vinte megawatts adicionais que pedimos inicialmente,
  necessitamos de quarenta - disse o funcionrio.
  - No h problema. Aqui, temos gua com fartura - respondeu
  Withers.
  Riggs e Cooper, dois engenheiros que trabalhavam na R. B. &
B., acabavam de entrar na sala de controle. Withers tapou o bocal
e
disse-lhes que Herman Bolen vinha a caminho.
  - Quer que faam uma inspeco s galerias inferiores e que
procurem um cadver. O rapaz que esteve aqui disse que viu um.
Pode ser Jeffers. - Riggs e Coopers dirigiram-se imediatamente
para os tneis.
  - Est bem. Quarenta megawatts? De uma s vez? - perguntou
Withers.
  - No. Metade daqui a trinta minutos e o restante meia hora
depois. Esto com algum problema? Disse que me voltava a ligar
...
  - Problema? No, no h qualquer problema. Bem, na realidade
tivemos um ligeiro problema com um ex-funcionrio, mas j
se foi embora e agora est tudo calmo. - Withers olhou para um
dos
monitores. Da porta entreaberta, ao fundo da sala das turbinas,
estava a sair um fio delgado e brilhante semelhante a um pedao
de
lantejoula. Seria gua?
  - ptimo - responderam-lhe do outro lado do fio. - S mais
uma coisa. Temos realmente um problema de tenso no sector do
sop das montanhas. Pode ser a Sierra Canyon ou uma das centrais
automticas a jusante. Diga-me quais so os valores indicados
pelos
seus aparelhos.
  Withers voltou-se para a direita e olhou para os aparelhos de
registo de tenso. As agulhas estavam todas no zero.
  - Que diabo ...
  - Desculpe?
  Withers estava quase fora da cadeira, olhando os aparelhos.
  - Daqui no consigo ver muito bem. Depois, telefono-lhe.
  Desligou e correu para os aparelhos de registo do gerador.
Bateu
com a mo na tampa de vidro dos mostradores e deu uma pancada
leve na caixa do painel de controle, mas o resultado foi nulo.
  - Aquele luntico estpido deve ter desligado os disjuntores.
  Praguejando, Withers estabeleceu uma srie de ligaes a fim
de
verificar at que ponto o sistema estava afectado. As luzes do
tecto
enfraqueceram e depois tornaram-se novamente brilhantes quando
um gerador de segurana elctrico a diesel, existente na sala
contgua, entrou em funcionamento. No monitor atrs de Withers,
o fio
prateado que saa da porta da sala das turbinas transformou-se
numa
pequena cascata que desceu o lano de escadas. Atravs do vidro,
Withers viu Riggs a correr na sua direco, esbracejando.

  PHu. estava de p em cima de uma pedra e voltou-se lentamente.
Tanto quanto entendia, encontrava-se nas coordenadas que o
computador indicara como sendo o ponto de ruptura mais provvel,
mas
ali no havia nenhuma fuga. O cu estava suficientemente claro
para lhe permitir examinar a superfcie da barragem para ambos
os
lados numa extenso de cerca de trinta metros. Estava seca como
um deserto.
  - Bem, l se vo os modelos matemticos - disse Phil, olhando
para os polcias que se aproximavam. Cansado, sentou-se,
apoiou os braos nos joelhos e baixou a cabea. As horas que
tinha
passado a subir e descer escadas, a atravessar a nado a albufeira
e a
descer a barragem estavam a produzir o seu efeito.
  O polcia que vinha de cima chegou primeiro. Parou por
instantes a retomar o flego, olhando para Phil com uma expresso
irritada, e disse:
  - O meu nome  Lee Simon e declaro que est preso. Aviso-o de
que tudo o que disser pode ser utilizado contra si, e pode ter
a certeza de que o ser se isso depender de mim. No poderia
ter-se entregue l em cima em vez de me obrigar a descer at
aqui?
  Phil olhou para ele.
  - Obriguei-o a descer para lhe mostrar a fuga na barragem.
Mas, como pode verificar, no h nenhuma brecha, o que me coloca
... numa situao difcil. H um velho ditado na indstria
informtica que diz: Lixo que entra, lixo que sai, o que
significa ...
  Tinham chegado mais trs polcias, ofegantes e com um ar
pouco amigvel. Agarraram-no pelos ombros e o primeiro deles
disse:
  - Est a ver isto aqui? So algemas. E isto?  um cassetete.
Estenda as mos para lhe colocar as algemas ou leva com o
cassetete na cabea.
  - Nada mal, mas as algemas no vo ser necessrias. Rendo-me.
Lamento ter-lhes dado tanto trabalho - respondeu Phil.
  - Calculo! Toca a andar - disse o polcia, colocando-lhe as
  algemas e obrigando-o a levantar-se. Phil vacilou com dores nos
  tornozelos e coxas.
  Na base da barragem, caminharam em fila num caminho formado
pela juno entre a represa e a encosta natural.
  - Olhando para a barragem assim,  luz da madrugada, ningum
diria que ests prestes a rebentar, pois no? Mas, na realidade,
est a esvair-se. Neste preciso momento, a gua da albufeira
est a penetrar nas galerias de inspeco. Mais cedo ou mais
tarde,
vai conseguir penetrar at ao paramento jusante. Nessa altura,
podem comear a contar os minutos.
  - s capaz de parar com isso, garoto? Agora vais para a priso
e depois j podes falar sobre a barragem a todos os novos amigos
que l encontrares.
  - No me podem prender.  a primeira vez que infrinjo a lei e
no causei nenhum dano - disse Phil em tom ligeiramente alarmado.
  - Nenhum dano? - disse o polcia atrs dele. - Realmente, s
deste cabo do carro do chefe, soterrando-o debaixo de pedras.
  - Isso foi um acidente. Carreguei no boto errado. Estava a
tentar ligar o rdio.
  - H mais gua agora do que quando viemos - reparou o polcia
da frente, saltando por cima de um pequeno riacho.
  Phil estacou e olhou para as botas, que estavam parcialmente
enterradas na lama. Um pouco mais adiante, uma delgada corrente
de gua castanha, com quase um metro de largura, atravessava o
caminho. Seguiu com o olhar o seu trajecto at ao ponto em que
emergia da rocha na superfcie da barragem, e a sua expresso de
desolao foi substituda por uma de triunfo.
  - Esperem um minuto! Aqui est a fuga! - declarou, atirando-se
ao ar. - Aleluia, a barragem est a cair! Eu bem lhes dizia! --
Subitamente, ficou srio. - A barragem est a cair-! - murmurou,
alarmado.
  Agarraram-no por ambos os braos e empurraram-no rudemente
para a frente.
  -  uma fonte. Nesta poca do ano, h muitas fontes nas
montanhas - atalhou um dos polcias.
  - Mas isto no  uma montanha,  uma barragem. A gua das
fontes  cristalina e esta  lamacenta. A fuga vai aumentar
progressivamente at ser impossvel control-la ... E preciso
avisar as autoridades ... - protestou Phil enquanto o obrigavam
a avanar.
  - Ns somos as autoridades.
  Tinham chegado a um grupo de automveis da Polcia estacionados
e atiraram Phil para um banco traseiro.
  - No vem que  preciso evacuar a cidade? So completamente
estpidos ou qu? - gritou, arrependendo-se logo amargamente de
ter utilizado a palavra estpido.
  O agente Simon entrou no automvel e encostou a ponta do
cassetete ao lbio superior de Phil.
  - Ou pedes desculpa pelo que acabas de dizer ou levas.
  - Lamento sinceramente o que disse.
  Simon fitou-o ameaadoramente e depois saiu do carro, atirando
com a porta. Phil fixou o olhar nos estofos e no abriu a boca
durante
o percurso de dez minutos at  priso local. Sentia-se infeliz,
no
s porque no conseguira convencer ningum da iminncia do
desastre, mas tambm porque quando Simon lhe encostara o
cassetete
 boca tinha engolido a chave do carro e duas moedas.

  J.'r Sandifer sentou-se ao telefone e colocou dois lpis junto
de uma folha de papel em que tinha feito uma lista dos nmeros
a
contactar. Em primeiro lugar, estava o estado da Califrnia.
Marcou
o nmero e respondeu-lhe uma voz feminina.
  - Qual  o nmero que pretende? Diga-me o nome da cidade.
  - Provavelmente, Sacramento. Quero participar uma ruptura
de barragem, ou melhor, uma ruptura iminente de barragem.
  - Importa-se de me dizer como  que se escreve?
  - Ruptura. Com r. No h um gabinete de assistncia ou de
proteco ou l o que ?
  - Proteco.
  -  isso! Quero participar uma emergncia. H uma barragem
enorme que est prestes a rebentar e no sei quem devo contactar.
  - Vejamos. O Gabinete de Proteco Civil.
  - ptimo!
  Janet marcou o nmero que lhe deram e respondeu-lhe uma voz
grave, simultaneamente brusca e profissional.
  - Gabinete de Proteco Civil. Hawkins.
  - Queria participar que a Barragem de Sierra Canyon tem uma
brecha. Sutterton tem de ser imediatamente evacuada.
  - Est a ligar da barragem?
  - No. De Santa Mnica.
  -  do Centro de Catstrofes da Califrnia Meridional?

  - s vezes, penso em mim nesses termos, mas neste momento
sou apenas uma cidade a procurar alertar para uma barragem que
est a meter gua.
  - Todas as barragens metem gua, minha senhora. Est muito
longe de Sierra Canyon e teve um pesadelo, no foi?
  Janet, de dentes cerrados, inspirou profundamente antes de
responder.
  - Um engenheiro telefonou-me da barragem e disse-me que a
gua est a penetrar nas galerias de drenagem e que  apenas uma
questo de tempo at conseguir atravessar a barragem.
  - Estranho que no nos tenha contactado a ns ou  Polcia.
  - No telefonou para a Polcia porque ... No v que esto todos
muito ocupados? O engenheiro s teve tempo de fazer uma chamada
e, por isso, pediu-me para dar o alarme.
  - Lamento, mas esse no  o procedimento correcto. No vou
dar ordens de evacuao por causa de um telefonema de uma dona
de casa de Santa Mnica que no dormiu bem. Acho que a senhora
est a brincar comigo e, por isso, peo-lhe que desligue.
  - Quer dizer que vai ficar de braos cruzados? ento para que
serve o Gabinete de Proteco Civil? Espere s at os jornais
saberem disto!
  Janet desligou com toda a fora, amaldioando o estado da
Califrnia, o Gabinete de Proteco Civil e os deuses cruis que
tinham colocado Phil Kramer no seu caminho. Aps vrios minutos
de fria, marcou o nmero seguinte da lista. Enquanto escutava
o
sinal de chamada, decidiu experimentar uma tcnica ligeiramente
diferente, uma vez que a verdade nua e crua parecia no ser
suficientemente persuasiva.

  WrrHERs viu Riggs passar a correr pelas janelas da sala de
controle, puxando das suas chaves. O telefone tocou e Withers
atendeu
automaticamente. Era Leonard Mitchell, o empreiteiro.
  - Sim, Mr. Mitchell. Pode aguardar um segundo?
  Riggs, ofegante, entrou na sala de rompante.
  - Est a sair gua da entrada da galeria ... e a escorrer para
os
poos das turbinas. E preciso parar tudo ... - disse, correndo
para o
painel principal e comeando a desligar os interruptores.
  Withers correu atrs dele e agarrou-o pelo brao.
  - Que ests a fazer? No podemos parar ... Tenho de alimentar
a rede com quarenta megawatts ...
  - gua ... - exclamou Riggs, apontando para um dos monitores.
- Espero que consigamos salvar os geradores.
  Withers olhou para o cran e ficou, por seu turno, sem
respirao. Da porta da sala das turbinas saa uma altura de gua
de quase
meio metro. Enquanto olhava, estupefacto, comeou a soar
ritmicamente uma sirene de alarme.
  - Onde est Cobper? - gritou.
  - Ainda est nos tneis a ver se descobre de onde vem esta gua
toda.
  Withers engoliu em seco.
  - A barragem est a cair. Foi o que Kramer disse.
  - Ouve, a nica coisa que sabemos  que est a entrar gua.
Temos de fechar a barragem e descobrir qual  o problema -
atalhou Riggs bruscamente.
  Withers acenou com a cabea e pegou no telefone.
  - Mr. Mitchell? Precisamos de algumas bombas. Ser que tem
algumas no seu estaleiro?
  - Tenho algumas pequenas. Ouvi mal ou a barragem est a
cair?
  - No no se passa nada com a barragem. Julgamos que trs
das nossas bombas pararam ao mesmo tempo ... A sirene? E apenas
para avisar que h algo de errado no sistema de drenagem. Est
a
entrar cerca de meio metro cbico por segundo. Acha que  capaz
de
resolver o problema?
  - Vou reunir alguns homens e equipamento e vamos j para a.
Como sabe, vou ter de facturar este servio  tabela de
fim-de-semana.
  - Est bem, faa um registo, Mr. Mitchell, e mantenha segredo
sobre este assunto at se apurar exactamente qual  o problema.
No
queremos causar pnico.
  Withers desligou e mostrou a Riggs os instrumentos de medio
inoperacionais, ou seja todos os relacionados com sectores da
barragem situados abaixo do compartimento dos geradores.
  - No h maneira de saber o que se passa. A gua deve ter
desligado tudo - disse Riggs, fazendo um esgar.
  Foram interrompidos por Cooper, que vinha corado e encharcado.
  - Fui at  interseco do centro - anunciou, deixando-se cair
numa cadeira. - Depois, as luzes apagaram-se e voltei para trs.
No consegui descobrir de onde vem a gua.
  - Aposto que o rapaz fez alguma coisa na torre de ventilao.
Talvez tenha aberto uma porta de descarga e a gua da albufeira
esteja a entrar por a.
  -  possvel - disse Cooper, acenando com a cabea, e depois
perguntou:
  - Podes parar a sirene. Est a pr-me doido.
  Withers desligou o circuito da sirene e instalou-se um profundo
silncio na sala de controle. Com tudo parado, no havia sequer
o
habitual zumbido da electricidade.
  - Bem - disse, olhando para os outros dois -, acham que
devemos avisar a Polcia de que estamos com problemas?
  - Ainda no. Pode ser que com as bombas de Mitchell consigamos
bombear a gua toda e manter isto entre ns - respondeu
Riggs.
  - Como  que vamos conseguir fazer isso, se temos de fechar a
central? Acho que devamos pensar no pior - atalhou Cooper.
  - Telefona a Bolen e pergunta-lhe o que devemos fazer - sugeriu
Riggs.
  - Ele vem a caminho no seu avio.
  Riggs caminhou para a porta.
  - Liga os telefones nos gabinetes. Vou ver se as comunicaes
areas em Oakland conseguem entrar em contacto com Bolen.
  Enquanto Riggs estava fora da sala, Cooper sugeriu a Withers:
  - Acho que devamos comear a vazar a albufeira agora.
  - J est a passar por cima do topo uma altura de gua de cerca
de meio metro. Se abrssemos agora as comportas, podamos
provocar uma inundao que, para comear, derrubaria a ponte da
rua
principal de Sutterton. Vamos ver o que diz Bolen. Se no
conseguirmos contact-lo, ento tomaremos uma deciso.
  Cooper levantou-se de um salto e caminhou a passos largos para
a porta.
  - No vou ficar aqui sentado de braos cruzados. Vou dar uma
volta para ver como esto as coisas. Se vir algo que no seja cem
por
cento normal, vou soar o alarme, quer vocs queiram, quer no.
  O telefone tocou e Withers atendeu enquanto dizia adeus a
Cooper. Era Bill Hawkins, do Gabinete de Proteco Civil de
Sacramento, que disse em tom ligeiramente divertido:
  - Acabei de receber um telefonema de uma mulher de Santa
Mnica que disse que a vossa barragem est a rebentar. Onde  que
acha que ela foi buscar essa ideia?... Est l?
  - Uma mulher de onde disse o qu?
  - Uma mulher de Santa Mnica disse que a velha Barragem de
Sierra Canyon est a dar as ltimas. Um amigo telefonou-lhe e
disse-lhe que a gua estava a entrar por todos os lados. Uma
anedota, no ?
  Withers assobiou.
  - Kramer deve ter conseguido telefonar ...
  - Diga?
  - H uma hora, esteve aqui um doido e tivemos de chamar a
Polcia. Deve ter uma amiga que est certamente a tentar fazer
com
que pareamos os maus da fita.
  - Ento, est tudo bem? No est a entrar gua por todos .os
lados?
  - No. S na central.
  - S na central. Est a entrar gua na central - repetiu
Hawkins lentamente, como que a estudar as palavras.
  - Temos uma inundao que pode no ser normal. Tivemos de
fechar a central.
  - Se tiveram de fechar a central, ento de certeza que no 
normal.
  - Estamos com um problema, mas pensamos que no  grave.
Desculpe. Tenho uma chamada na outra linha.
  Era um funcionrio irritado do Centro de Controle de Energia.
  - Que  que se passa? Esto prontos para comear a fornecer a
energia extra? Porque  que no nos ligaram a comunicar as ltimas
leituras?
  - Ia telefonar agora mesmo. Quanto  energia extra, temos uma
infiltrao, a bem dizer um pouco mais que uma infiltrao, no
compartimento das turbinas e tivemos de fechar a central.
  - O qu? Deve estar a brincar! Diga-me que est a brincar!
  Withers desligou e atendeu outra chamada.
  - Newt? Fala Luby Pelletier, do Gabinete de Proteco Civil do
Distrito de Butte. Como  que est tudo por a neste belo dia?
  - Formidvel, Luby, fantstico. Diz-me, importas-te de ...
  - A barragem no est a desmoronar-se, pois no? Acabmos
de receber uma chamada muito esquisita de uma mulher de Santa
Mnica.
  - Meu Deus! Ela deve estar a ligar para toda a gente no estado!
  - Conhece-la? Ela disse que era uma vidente que tinha acabado
de ter uma viso: a Barragem de Sierra Canyon estava a desaparecer
e multides fugiam completamente nuas para a floresta. E
acrescentou que a imagem lhe tinha surgido num claro de luz.
Quase que
no consegui conter o riso.
  - Ouve, Luby na realidade ns estamos com um ligeiro problema
- disse Withers, sem desviar o olhar do monitor. O fluxo de
gua na sala das turbinas parecia estar a aumentar. - Para ser
franco, Luby, estou extremamente preocupado. Provavelmente, vai
ser necessrio evacuar a cidade. Eu depois ligo.
  No instante seguinte, tocou novamente o telefone, e ao mesmo
tempo que Withers atendia, Riggs gritou-lhe pelo intercomunicador
que o avio de Bolen tinha sido localizado por cima de Fresno.
Withers confirmou que havia recebido a mensagem e depois atendeu
Lee Simon ao telefone.
  - O seu amigo Kramer obrigou-nos a fazer uma perseguio
muito divertida, mas agora est preso - declarou o polcia. --
Oua, Newt, h pouco vimos uma zona molhada na base da barragem,
a cerca de cem metros da margem do rio, do lado norte. Kramer
ficou muito excitado, mas tambm ele fica excitado com tudo.
  - Uma zona molhada? Mas era s um ponto ou saa gua? --
indagou Withers, estremecendo.
  - Sim, havia um fio de gua. Como se v numa valeta quando
algum est a lavar o carro ao cimo do quarteiro. Acha que tem
algum significado?
  - Cooper est no carro dele. Vou pedir-lhe pelo rdio para dar
uma vista de olhos. Lee, tenho a sensao horrvel de que temos
um
grave problema. Depois volto a ligar.
  Withers contactou Cooper pelo rdio e disse-lhe para se dirigir
a
um local de observao prximo da cabina de comando. O telefone
estava novamente a tocar.
  - Central hidroelctrica. Fala Withers.
  - Estou a falar da redaco do Bee de Sacramento. Estamos a
tentar confirmar rumores de que a Barragem de Sierra Canyon ter
sido minada por ex-membros da Polcia Secreta Iraniana. A nossa
fonte refere que as exploses tero lugar dentro de trinta
minutos e
que  necessrio evacuar Sutterton.
  - A sua fonte  uma mulher de Santa Mnica?
  - Conhece-a? As suas afirmaes tm algum fundamento?
  - Eu depois volto a ligar.
  A voz de Cooper soou no altifalante do rdio informando que j
tinha chegado ao local de observao.
  Withers aproximou-se do microfone.
  - Ests a ver a extremidade da encosta do lado norte? Alguma
coisa fora do vulgar? Um fio de gua a cerca de cem metros da
margem?
  - Isso  a quatrocentos metros de distncia. Deixa-me ver com
os binculos.
  Seguiu-se um silncio. Withers esperou, batendo com o punho
na bancada acompanhando o ritmo cardaco. Olhou para o relgio
de parede: 7.10. Riggs entrou na sala de controle e comeou a
relatar a conversa que tinha acabado de ter com Bolen, e depois
ficou
petrificado ao ouvir a voz de Cooper no rdio:
  - Uma torrente ... de uns cinco ou dez metros cbicos por
segundo ... Est tudo perdido, Newt. A barragem est a ir-se.


TERCEIRA PARTE: A Ruptura

Captulo 10

HERntAN Bolen puxou os seus culos de aviador para trs e
desapertou o leno para refrescar a cara transpirada. O calor na
cabina no
amainava. Atravs da janela, olhou sombriamente para o manto de
nevoeiro que cobria o Vale Central. O Sol erguia-se acima da
Sierra
Nevada e o reflexo da luz era encandeante.
  Para procurar abstrair-se do desconforto que sentia, Bolen
tentou calcular a sua posio exacta: velocidade em relao ao
solo,
velocidade do vento, rumo. Voava algures perto de Fresno e sentiu
o desejo de estar noutro stio qualquer, excepto no seu brinquedo
terrivelmente dispendioso, mil e quinhentos metros acima de
Fresno.
  Passara cinco anos - cinco anos - a projectar e construir um
avio particular, e este ainda estava longe de ser perfeito; mais
parecia uma cmara de tortura. O assento, a cabina de comando,
o avio
todo tinha sido concebido em funo do seu corpo, que, tendo
ultrapassado em muito as especificaes originais, assumira a
forma de
uma pra. Um fato pode alargar-se; um avio no.
  Ouviu-se uma voz no rdio.
  - Avio N97307. Torre de Oakland chama. Ouve-me?
  Bolen pegou no microfone e respondeu.
  - Transmita, Torre de Oakland.

  - Temos uma chamada da Barragem de Sierra Canyon.
  - Pode pr-me em contacto directo?
  - No, mas posso retransmitir em ambos os sentidos.
  Bolen hesitou. Se houvesse uma emergncia, no queria que
toda a gente da Torre de Oakland ficasse a saber.
  - Diga para me contactarem atravs do telefone mvel.
  Bolen consultou o relgio. Se no podiam esperar pela sua
chegada dentro de quarenta e cinco minutos, era porque se tratava
de
algo muito grave. s 7 horas, soou um sinalizador no painel de
controle.
  - Fala Burt Riggs, Mr. Bolen, de Sierra Canyon. Ns ...
  - Encontraram Jeffers? Inspeccionaram a Galeria D?
  - No conseguimos l chegar. A gua est a sair do tnel de
acesso e a penetrar nos poos das turbinas.  possvel que as
galerias inferiores estejam inundadas. Jeffers deve ter morrido
afogado.
  Bolen escutou a descrio da infiltrao da gua, dos
instrumentos inoperacionais, da paragem da central e depois
interrompeu
Riggs antes de este terminar.
  - J avisaram a Polcia de que  necessrio evacuar Sutterton?
  - No. Achmos que era melhor ser o senhor a decidir.
  - Riggs de que provas necessita mais? Escute. Penso que o
bloco central deve ter rachado. Milhares de vidas esto
dependentes do que fizer nos prximos minutos. Telefone para a
Polcia, para
a sede do Gabinete de Proteco Civil do distrito. Diga-lhes que
h
a possibilidade de perdermos a barragem. Desvie o mximo possvel
de gua directamente das turbinas para as vias de descarga e abra
as comportas. ,
  - Withers diz que isso vai provocar uma inundao bastante
grande ..
  - No me interessa o que diz Withers! Faa o que lhe estou a
mandar!
  - Sim, Mr. Bolen, estou a olhar para os monitores e parece que
acaba de chegar uma equipa da Mitchell Brothers com bombas.
  - Se conseguir escoar a gua mais depressa do que entra, tanto
melhor, porque assim vai conseguir ir at aos tneis e poder
descobrir o ponto de infiltrao. Mas se a barragem tiver uma
brecha, 
provavelmente o fim.

  O ELEG.rr'E Dr. Dulotte abrandou o furgo quando passou pelo
enorme camio inexplicavelmente parado no topo da barragem.
Antes de atingir a outra extremidade, teve de abrandar novamente
para seguir as indicaes de um polcia. Um reboque retirava um
automvel da Polcia de sob um monte de cascalho.
  - Que  que aconteceu? - perguntou ao agente, baixando o
vidro.
  - Circule - respondeu o polcia asperamente, fazendo-lhe sinal
para avanar.
  A estrada afastou-se da barragem e Dulotte acenou com a cabea,
satisfeito, quando viu as setas e sinais que marcavam o percurso
da maratona. Eram 7.20. O incio da corrida estava previsto
para as 8, e, se tudo corresse bem, cerca de uma hora depois Kent
Spain seria o primeiro a atravessar a barragem e a penetrar na
floresta, instigado pelo cheiro do dinheiro.
  Dulotte estacionou no local onde o caminho entrava na floresta.
Tirou da parte traseira do furgo um carrinho de mo de trs rodas
denominado Carrinho de Mo Dulotte e colocou no seu interior uma
mesa e cadeira desdobrveis, quatro garrafes de gua de cerca
de
vinte litros cada um, um bloco-notas, um cronmetro, um estojo
de
primeiros socorros e um caixote de laranjas. Dez minutos mais
tarde, empurrando o carrinho, caminhava apressadamente por entre
as
rvores. A T-shirt ainda estava pendurada no ramo, precisamente
onde a tinha colocado alguns dias antes. A bicicleta estava
escondida atrs dos arbustos, pronta a ser utilizada. Dulotte
continuou a
caminhar, trauteando. ;;

  PHIL Kramer agarrou-se com ambas as mos s grades da porta
da cela. Perto, estava, o sargento Jim Martinez, sentado 
secretria
a trabalhar.
  - Deixem-me sair! - gritou Phil, sacudindo a porta. - Isto 
uma emergncia! Deixem-nos sair a todos! Todos os minutos so
importantes!
  - Cala-te - disse algum atrs de si.
  Phil olhou por cima do ombro. Dos quatro catres existentes na
cela, trs estavam ocupados por corpos enfiados debaixo dos
cobertores.
  - No me calo - protestou, dirigindo-se aos catres. - Estou a
tentar salvar a vossa pele e a minha. - Voltou-se novamente para
Martinez e disse: - Talvez no estivesse a prestar ateno, por
isso
vou repetir. Sou uma autoridade de renome mundial em ruptura de
barragens. Pode perguntar a quem quiser. Acabei de inspeccionar
a
Barragem de Sierra Canyon, aquela que pode ver atravs da janela,
sargento, se se quiser dar ao trabalho de olhar.
  - Cala-te - insistiu a voz atrs de si.
  - Escutem todos - prosseguiu Phil, sacudindo novamente a
porta. - A barragem est a cair. Eu vi com os meus prprios
olhos.
Abriu-se uma brecha no paramento jusante, o que quer dizer que
vamos ficar debaixo da albufeira, porque quando a gua conseguir
encontrar um caminho atravs da barragem, podem dizer-lhe adeus.
Foi o que aconteceu nas Montanhas Baldwin, em 1963, e em Teton,
em 1976.
  Ouviu-se uma voz proveniente de uma cela contgua.
  - Ei, Martinez, no podes fazer nada para esse tipo se calar?
H
aqui pessoas com grandes ressacas.
  O sargento Martinez suspirou e levantou-se. Avanou pelo
corredor at junto de Phil e estudou-o, um pouco para alm do
alcance
do seu brao.
  - Isto  uma emergncia. Vamos ficar presos como ratos. Temos
de sair todos daqui - insistiu Phil.
  Um estrondo fez Phil voltar-se. Um homem gigantesco com um
longo cabelo louro todo emaranhado tinha-se levantado de um dos
catres, derrubando-o. Deu dois passos em frente, encostou uma mo
enorme ao peito de Phil e ergueu-o no ar, agarrando-o pelo
fato-macaco. A sua respirao cheirava a alho, tabaco, cerveja,
ar viciado e comida.
  - Eu mandei-te estar calado - disse.
  - Larga-o, Haystack, que eu trato do assunto - ordenou
Martinez.
  O homem chamado Haystack olhou ameaadoramente para Phil
e depois largou-o. O telefone de Martinez tocou.
  - Kramer, vou atender o telefone. Se quando eu voltar ainda
no se tiver calado, vou pronunciar uma palavra de cdigo que
enlouquece Haystack. Pense nisso.
  Martinez voltou para junto da secretria e pegou no telefone.
Phil reparou na mudana da sua expresso enquanto dizia:
  - Ai ? Agora? Quer dizer, toda a gente? Tem a certeza? Est
bem - concluiu, pousando lentamente o auscultador.
  - Que ? Que  que se passa? - gritou Phil.
  Martinez passou os dedos pelo cabelo.
  - Eles pensam que a barragem pode cair. Vem a caminho uma
carrinha para nos levar - respondeu, carregando num boto que
accionou um alarme ensurdecedor.
  Phil sorriu para o companheiro de cela.
  - Pode fazer as malas, Haystack. Vamos sair desta espelunca.

  O NICIO da Maratona Anual foi uma verdadeira confuso de
gente. Ao sinal de partida, cerca de mil e quinhentas pessoas
arrancaram, numa mistura colorida de braos, pernas e cabeas
movimentando-se para cima e para baixo. Kent Spain estava entre
os cinquenta melhores corredores, que ocupavam os primeiros
lugares na
linha de partida, mas, uma vez iniciada a corrida, Kent sentiu-se
rodeado de gente como se estivesse nas ltimas posies ao lado
dos desportistas de fim-de-semana, das crianas de escola e dos
velhotes.
  Os primeiros quilmetros pareceram mais uma corrida de
obstculos do que uma prova de corta-mato, a saltar por cima de
ces que
ladravam, evitar chocar com desistentes e procurar ultrapassar
corredores atrasados esbaforidos. Por volta do quinto quilmetro,
j
corriam em fila, afastados uns dos outros cerca de cinco metros.
Kent calculou que devia estar na dcima terceira posio. Para
o
plano de Dulotte resultar, teria de tomar a dianteira nos
prximos
vinte quilmetros e ser o primeiro a atravessar a barragem. S
dois
corredores  que deviam constituir problema - Tom Ryan,
imediatamente  sua frente, e Nabih Yousri, da Etipia, um
maratonista
de primeira categoria que tinha entrado na corrida  ltima hora.
Se
Yousri, estivesse a seguir a sua tctica habitual, pensou Kent,
naquele momento estava provavelmente na primeira posio a impor
o ritmo, com a sua negra cabea calva a brilhar ao sol como uma
bola de bilhar polida. A sua tctica consistia em tomar a
dianteira
nos primeiros quilmetros e procurar aguentar-se at  meta. Kent
teria de se esforar ao mximo para conseguir ultrapass-lo.
  Ryan era um tipo de corredor diferente, um calculista
habilidoso
  com uma boa ponta final. Com esforo, Kent colou-se aos
calcanhares de Ryan e imitou o som de uma buzina.
  Ryan desviou-se para a esquerda despreocupadamente e olhou
  para Kent quando este o ultrapassou.
  - Qual  a pressa? Vais rebentar.
  - Talvez sim talvez no. - Nos dez quilmetros seguintes,
Kent ultrapassou dez corredores que j se estavam a ressentir do
acelerado ritmo imposto inicialmente, que era muito superior ao
que ele prprio alguma vez tinha conseguido manter, e sentiu
pontadas nas barrigas das pernas e uma opresso ameaadora na zona
central do corpo.
  Aos dezasseis quilmetros, chegaram ao Monte Cardiac, uma
subida de cerca de quilmetro e meio que conduzia a uma crista
sobre o lago Earl Warren. Kent perdeu alguns segundos no posto
de
controle e apoio, no sop do declive. Enquanto passava uma
esponja
pela face e pescoo, perguntou ao homem que se encontrava atrs
da
mesa quantos concorrentes tinha  frente.
  - Quatro. Yousri vai  frente, com um minuto e meio de avano.
  - Vou apanh-lo - declarou Kent. Bebeu a gua de um copo de
papel enquanto acelerava e penetrava na floresta, onde o traado
do
percurso subia abruptamente por entre as rvores altas. Manteve
um
ritmo marcado, que era mais prprio de uma corrida de velocidade
do que de uma maratona.
  - Tu s capaz, meu velho - murmurou com esforo, dirigindo-se
ao seu prprio corpo. - V, aguenta-te s esta vez. Sei que 
duro, mas depois descansamos s ns dois. No, no me digas para
parar, pensa no dinheiro. Fora, fora, fora ...
  A cerca de quinhentos metros do topo do declive, j tinha
ultrapassado todos,  excepo de Yousri, ainda fora do alcance
da vista.
Kent concentrou-se em atravessar o muro, aquela barreira
semifsica, semipsquica, que surge sempre um pouco depois do
meio de uma maratona. Era a primeira vez que ela lhe surgia to
cedo numa
corrida. As barrigas das pernas pareciam-lhe atiadores em brasa
e
o estmago um monte de fios esticados  beira da ruptura, mas
continuou a correr. O segredo estava em no dar ateno ao corpo
at
este desistir de enviar sinais dolorosos e libertar as suas
reservas secretas de energia.
  - Fora, fora, fora - murmurava com os dentes e os punhos
cerrados. - Dinheiro, dinheiro, dinheiro, dinheiro.
  Ouviu passos atrs de si. Voltou-se para ver quem era o seu
perseguidor e viu um jovem louro, apenas ligeiramente
transpirado, a
aproximar-se ao que lhe pareceu ser uns oitenta quilmetros por
hora. O nmero da camisola era o 1027, o que significava que era
um corredor no cotado. Kent procurou manter a distncia, mas o
mido alcanou-o e perguntou, respirando sem dificuldade:
  - Desculpe. Onde fica o Monte Cardiac?
  A cara de Kent reflectia um misto de agonia e dio.
  - No topo ... desta subida ... o caminho vira para a esquerda
...
e corta atravs de um campo de fetos ... cerca de oitocentos
metros
mais adiante ...  a que comea o Monte Cardiac - respondeu a
custo, quase sem respirao.
  - Muito obrigado - agradeceu o jovem, afastando-se. Voltou-se
e acrescentou: - Aguenta-te, veterano.
  Minutos depois, Kent atingiu o topo da subida e virou para a
direita. A zona denominada Jardins de Fetos ficava para a
esquerda,
e Kent viu o 1027, na encosta que se lhe seguia, a correr ao
longo de
um caminho que conduzia a uma estao florestal abandonada.
  Sentindo prazer pela primeira vez desde o incio da competio,
Kent comeou a correr ao seu ritmo normal e, ao dar uma curva,
quase tropeou em Yousri, que estava com um joelho no cho a atar
o sapato. O africano ergueu-se de um pulo e arrancou, com as
vigorosas pernas animadas de um movimento semelhante ao de
chibatas. Kent acelerou e, lanando-se para a frente com o mpeto
de
um louco, conseguiu reduzir gradualmente a distncia que os
separava, mas Yousri no se deixava ultrapassar, obstruindo a
passagem
a Kent sempre que este procurava tomar a dianteira, quer pela
esquerda, quer pela direita.
  - Deixa-me passar, com os diabos - vociferou Kent.
  - No deixo. Faz-te mal.
  - Deixa-me passar!
  O outro respondeu aumentando o ritmo da passada. Kent Spain,
    de dentes cerrados, colou-se-lhe aos calcanhares. Durante
cerca de
    duzentos metros os dois homens travaram uma luta cerrada,
cientes
    de que se a prolongassem durante muito tempo rebentariam
ambos.
j   Ento, Kent fixou os olhos nos sapatos  sua frente,
estudando o seu
j   movimento. Depois dobrando-se para a frente e com grande
preciso deu uma pancada de lado num dos ps, de tal modo que este
    ficou preso no outro tornozelo, e o grande Nabih Yousri
estatelouj   -se no cho numa exploso de galhos, seixos e pragas
incompreensveis.
    Finalmente, ao quilmetro vinte e um, Kent Spain ocupava a
pri    meira posio. Descia agora uma encosta coberta de
arbustos e rvores de fruto em direco ao coroamento da
barragem. Dentro de
    poucos minutos, abandonaria a floresta ao nvel do miradouro
direito ... desde que no se tivesse esforado demasiado. Estava
tonto,
    com o solo a fugir-lhe sob os ps. Sentia um rugido nos
ouvidos e a
    sua respirao penosa fazia lembrar uma locomotiva a vapor.
    THEoDoRE Roshek foi acordado por um bater persistente. -- A
    porta abriu-se e Mrs. Bolen meteu a cabea pela abertura.
    - Theodore? Tem uma chamada para si de Sierra Canyon.  i
    Mr. Withers.
    Roshek levantou o auscultador do telefone da
mesa-de-cabeceira e escutou as palavras de Withers, incrdulo e
cada vez mais
    alarmado.
    - Qual  o volume de gua que est a atravessar a barragem?
    Viu com os seus prprios olhos?
    - No, mas um dos engenheiros estimou em cerca de dez metros
cbicos por segundo.- Withers hesitou e depois acrescentou:
    - Ele acha que a barragem est perdida. A sua esposa
informou-me
    de que estava a e achei melhor telefonar-lhe.
    Roshek explodiu.
    - Esto a tentar tapar a brecha com pedra? Abriram as compor 
  tas? Avisaram a Polcia?
    - Abrimos as comportas e a Polcia est a evacuar a cidade,
mas
    quanto  brecha ningum sabe o que fazer. Mr. Bolen vem a
caminho. Pensamos que Mr. Jeffers morreu.
    ? i:
    - Onde est Kramer
    - Est na priso.
    - Libertem-no.
    - Libert-lo?
  - Algum a percebe melhor do que ele o que se est a passar?
Talvez ele tenha alguma ideia boa.
  Roshek pousou o auscultador e ligou para Creekwood. Eleanor
corria perigo. Se o imprevisvel acontecesse ... Seria possvel?
Vieram-lhe  memria imagens de barragens que tinham cedido --
Saint Francis e Baldwin Hills s na Califrnia, Malpassant em
Frana, Vega de 'Iera em Espanha, Teton no Idaho. As catstrofes
surgiam-lhe to ntidas como a angstia dos engenheiros
responsveis. Catstrofes naturais, prtica industrial
normalizada, incgnitas inevitveis, eram frases repetidas
nos inquritos que se
seguiam a cada calamidade. A Natureza era, sem dvida, capaz de
aprontar surpresas medonhas. No entanto, Roshek achava que, se
atentasse devidamente aos pormenores, ento ... O sinal de
impedido indicou-lhe que Eleanor ainda tinha o telefone fora do
descanso.
  Poderia a Barragem de Sierra Canyon cair? Ser que o desprezo
que sentia pelos projectistas de estruturas deficientes se
aplicava
igualmente a si prprio? Ficaria o nome de Theodore Roshek para
sempre ligado no a sonhos, mas sim a pesadelos?
  Se a barragem casse, Eleanor tornar-se-ia ainda mais
importante para ele, porque daria sentido  sua vida. Iria at
Creekwood
avis-la do perigo.
  Ligou para Carlos Hallon, o piloto da companhia. Se a barragem
aguentasse pelo menos mais hora e meia - o que era uma estimativa
prudente atendendo  densidade da represa e ao ncleo de rocha
macia -, ento teria tempo de ir ter com Eleanor antes de ...
  - Carlos? Temos uma emergncia na Califrnia Setentrional. O
Lear est pronto a partir? Arranja tambm um helicptero para me
ir buscar ao Aeroporto de Yuba e me levar  Barragem de Sierra
Canyon.

  Ec.IzAsE'rH Lehmann, uma mulher rolia, grisalha, de rosto
meigo, parecia mais uma vendedora de tortas congeladas do que o
agente distrital de proteco civil, cargo em que tinha muito
orgulho. Quando recebeu a chamada de emergncia, tirou o roupo
e
vestiu apressadamente um par de calas pretas, uma camisa azul
e
um casaco preto. Se a barragem russe, poderia no voltar a casa
durante dias e no queria parecer uma desmazelada.
  Agora  que ia descobrir se todas aquelas sesses de treino
tinham tido alguma utilidade. Uma vez por ms, havia obrigado os
contrariados polcias locais a passarem uma tarde no Gabinete de
Proteco Civil a agir em situaes simuladas de exploso
atmica,
derramamento de produtos qumicos, sismo, desastre ferrovirio
e
ataque terrorista. Na opinio dos forretas supervisores
distritais, os
exerccios de treino para situaes de emergncia eram um
desperdcio de dinheiro, porque Deus, na Sua Divina Sapincia,
nunca
anuncia que desastre vai lanar sobre a Terra nem quando. Mas
Elizabeth Lehmann tinha conseguido reunir as verbas suficientes
para
montar o equipamento de rdio do distrito numa carrinha, que
podia
deslocar-se facilmente at onde fosse mais necessrio. Tinha
orgulho no seu carro de comando, equipado com um aparelho de
rdio, material mdico e uma lista de recursos com indicao
da
localizao de tudo o que pudesse ser til, desde mdicos a sacos
de
areia.
  Pelo menos, calhou num fim-de-semana, pensou, enquanto descia
a correr os degraus da entrada, porque assim no teria de se
preocupar com midos de escola.
  Mas no havia sinal do carro de comando. No estava nem na
garagem, nem no caminho de acesso. Elizabeth levou as mos 
cabea quando se lembrou de que o carro tinha ficado no gabinete.
Na semana anterior, a direco de supervisores decidira que os
funcionrios no podiam continuar a levar os veculos para casa.
Por
outras palavras, dali em diante as catstrofes s poderiam
ocorrer
dentro das horas normais de expediente.
  Elizabeth correu para a rua e olhou para ambos os lados 
procura de auxilio. A duas portas de distncia, num ptio cheio
de ervas, estava ajoelhado Norman Kingwell a limpar a sua
motocicleta.
Kingwell era um rapaz intil a quem no dirigia a palavra h dois
anos, desde o dia em que ele tinha completado quinze anos e
retirado o silenciador da sua motorizada. Correu para ele,
acenando, e
gritou:
  - Pe essa beleza a andar, Norm. Preciso de uma boleia.

  Colvt ulvtA mo no leme Chuck Duncan conduziu o seu pequeno
barco de fundo chato para fora da enseada isolada. quela hora
da
manh, soprava um vento fraco e a superfcie da gua estava lisa.
Duncan rumou em direco  zona mais larga da albufeira, cerca
de
oito quilmetros a montante da barragem. Uma vez chegado, pararia
o motor e iniciaria um dia de cio, inteiramente dedicado a beber
cerveja, a pescar e a deixar-se arrastar pela corrente.
#

Captulo 11

  Os QuATRo arcos de ao atravessavam o rio apoiados em pilares
de
  granito. No acesso mais prximo da cidade havia um monumento
de
beto com a inscrio PONTE DE MAIN STREET, SUTTERTON, 1933,
junto da qual parou uma carrinha de colgio cheia de presos, e
o
motorista exclamou:
  - Santo Deus. Vejam s o rio!
  A gua subira at meio metro da estrada e continuava a subir.
Havia polcias por todo o lado a montar barricadas para cortar
os
acessos e o ar estava inundado de luzes cintilantes e do som de
sirenes e de rdios. Wilson Hartley saiu de uma viatura e esperou
que o
condutor da carrinha baixasse o vidro.
  - Para onde vou agora, chefe?
  - Para o ginsio da Escola Secundria de Sterling. Siga pela
Estrada 191. Phil Kramer est a?
  - Sou eu - disse Phil, abrindo caminho at  parte dianteira
da
carrinha. O guarda afastou-se para deix-lo sair e Phil deu
consigo
a apertar a mo a um polcia com uma voz que lhe era familiar.
  - Wilson Hartley, chefe da Polcia. Devamos ter-lhe dado
ouvidos ontem  noite. Foram retiradas todas as queixas contra
si. Precisamos da sua ajuda. Disseram-me que, at chegarem os
patres,
voc sabe melhor do que ningum o que est a passar-se. Para
comear, necessitamos de uma estimativa do tempo que a barragem
ainda vai aguentar.
  Phil abanou a cabea, incrdulo, e depois procurou adoptar uma
atitude profissional.
  - Tenho de ver a dimenso actual da brecha. Pode levar-me at
ao parque de estacionamento da central hidroelctrica?
  Phil foi interrompido por um intenso estrondo rangente. Todos
os olhares convergiram para o mesmo ponto. O rio tinha atingido
o
tabuleiro da ponte e separado os dois arcos centrais do
respectivo
pilar de sustentao. A ponte estremeceu toda no momento em que
uma motocicleta, na outra extremidade, comeou a atravess-la.
  - Vejam s aquele doido. No vai conseguir chegar a este lado!
- exclamou algum.
  Uma altura de vrios centmetros de gua passava por cima do
segundo arco. A motocicleta percorreu aquele troo como se fosse
um barco de corrida, levantando ondas para ambos os lados. A
ponte balanava, quase fazendo a motocicleta levantar voo, mas
com um
impulso da perna o motociclista conseguiu manter o equilbrio e,
quando alcanou terra firme, parou com uma derrapagem.
  - Est doido? No viu a barricada do outro lado? - gritou
Hartley.
  Norman Kingwell olhou para Hartley, semi-sorridente.
  - Foi o Diabo que me obrigou - respondeu, apontando com o
polegar por cima do ombro.
  A agente de controle do Gabinete de Proteco Civil desmontou
da motocicleta.
  - Uf! Que exerccio revigorante! - declarou.
  - Mrs. Lehmann!
  - Est tudo bem, Wilson. Fui eu que o obriguei a atravessar.
Tenho de ir buscar o meu carro. Pronto, l se vai a ponte ...
  A gua galgava por cima da balaustrada e do tabuleiro. Com um
rudo estrondoso, os dois arcos centrais da ponte. aproximaram-se
lentamente, arrastando consigo os arcos laterais, e depois
submergiram. Num minuto, a ponte desapareceu.
  Elizabeth Lehmann montou novamente na motocicleta atrs do
jovem condutor.
  - Tenho de ir pr o carro com rdio num ponto mais alto. Acha
que o miradouro da direita  seguro? - perguntou a Hartley.
  Hartley olhou para Phil, que assegurou a ambos que o miradouro
da direita sendo de rocha slida, era um local perfeito.
  Mrs. Lehmann virou a ateno para Phil.
  - E o senhor  ...?
  - Por enquanto,  o tcnico especialista responsvel pelas
operaes. Tudo o que ele disser  para se fazer.
  - Ento, avante para o miradouro da direita. Vamos, Norman
- disse a mulher, passando os braos em torno do tronco de
Kingwell enquanto este arrancava.

  Mru'ros depois, Phil Kramer, acompanhado por um grupo de
homens, encontrava-se no parque de estacionamento da central
hidroelctrica, esquadrinhando com o binculo as zonas inferiores
da barragem. A gua que a atravessava formava agora uma torrente
que jorrava de um buraco de cerca de dez metros de dimetro. Phil
passou os binculos ao homem a seu lado, o empreiteiro Leonard
Mitchell.
  - Falei h pouco com Roshek, que disse que talvez fosse
possvel interromper a torrente descarregando pedra sobre ela -
adiantou
Withers.
  Phil rejeitou a sugesto, abanando a cabea.
  -  demasiado tarde. No h nada que possamos fazer para
evitar que a barragem caia.
  - De quanto tempo dispomos? - perguntou o agente Lee Simon. -
Temos uma cidade para evacuar.
  - A barragem tem cerca de mil metros de espessura na base, por
isso vai demorar algum tempo. A brecha vai continuar a aumentar
at se estender a toda a altura da represa. Nessa altura, a
albufeira
vai extravasar completamente e submergir tudo numa onda
gigantesca.
  - Mais ou menos quantos minutos? - insistiu Simon.
  -  apenas uma estimativa, mas posso dizer que o ponto onde
nos encontramos pode ficar debaixo de dezenas de metros de gua
dentro de apenas quarenta e cinco minutos.
  - Quarenta e cinco minutos! No vamos conseguir bater a todas
as portas. Com sorte, temos tempo de percorrer as ruas e alertar
a populao com um megafone - disse Simon, indo buscar o rdio
ao
carro.
  - E se eu ficasse a vigiar a brecha e vos mantivesse
constantemente informados sobre a evoluo da situao? - sugeriu
Phil.
  - Boa ideia. Deixamo-lo no miradouro na carrinha com rdio.
  - Eu levo-o na minha carrinha - ofereceu Mitchell.
  Minutos depois, Mitchell deixava a estrada distrital e
dirigia-se
para a estrada do topo da barragem, que se estendia  sua frente
como uma fita branca esticada.
  - Olhe s! - disse o empreiteiro, apontando pelo pra-brisas.
- Um louco qualquer est a tentar aterrar na barragem.
  Phil seguiu o olhar de Mitchell e viu um pequeno avio que se
aproximava da estrada. O avio perdeu altitude, elevou-se para
se
desviar do camio que Kramer tinha abandonado na noite anterior
e
depois tocou suavemente no solo.
  - Espero que ele veja o cascalho - observou Phil.
  - Que cascalho?
  - Ontem  noite roubei um dos vossos camies e para dificultar
a perseguio da Polcia descarreguei uma carga de cascalho na
estrada.
  Mitchell olhou de esguelha para Phil.
  - Roubou um dos meus camies?
  - Bem, no roubei exactamente. Pedi emprestado.
  O reluzente avio vermelho aproximava-se deles quando o trem
de aterragem embateu no cascalho. A cauda ficou virada para cima,
o avio oscilou por momentos apoiado no nariz e depois
imobilizou-se de rodas para o ar. Quando Phil e Mitchell l
chegaram, j
dois agentes de patrulha libertavam o piloto do cinto de
segurana,
de onde estava suspenso de cabea para baixo.
  - Estou bem - afirmou o piloto, mas era evidente que no estava,
porque tinha uma grande contuso na testa. Quando o voltaram, a
dor levou-o a contorcer a boca e a cerrar os olhos com fora.
Foi ento que Phil o reconheceu.
  - Mr. Bolen! Que prazer! - exclamou, saindo do camio.
  Bolen abriu um dos olhos e olhou para Phil.
  - Eu conheo-o?
  - Sou Phil Kramer. Roshek despediu-me ontem. No se lembra?
  - Kramer, eu depois apresento-lhe as desculpas pelo que
aconteceu ontem. Agora, preste ateno. Corte o acesso a esta
estrada,
excepto para viaturas de socorro. Quando a brecha atingir o nvel
sete cinco cinco, evacue toda a gente da barragem, porque a
partir
da vai ser tudo muito rpido.
  Entretanto, tinham chegado mais automveis. O condutor de um
furgo ofereceu-se para levar Bolen at ao miradouro da direita,
onde estavam a montar uma tenda de assistncia mdica. Phil e
Mitchell ajudaram Bolen a levantar-se e, enquanto atravessavam
a estrada em direco  carrinha, que se encontrava do outro
lado, Mitchell disse:
  - Deve haver alguma forma de salvar a barragem. E se
despejssemos pedra no ponto de entrada da gua? Tenho um batelo
carregado na doca da pedreira que podia ser rebocado e estar em
posio dentro de meia hora.
  -  intil. Dentro de cerca de meia hora j se estar a formar
um
remoinho. Perderia o batelo e toda a tripulao. Agora, 
demasiado tarde - respondeu Bolen. Enquanto o ajudavam a subir
para
a carrinha, desviou o rosto para esconder as lgrimas que lhe
rolavam dos olhos.
  - Vamos remover o seu avio da barragem. Pelo menos, isso
podemos salvar - disse Phil.
  - Esquea o avio. J estou demasiado velho para pilotar.
Atirem-no por cima da balaustrada para desimpedir a estrada -
ripostou Bolen, fazendo um ligeiro movimento com a mo. Fez sinal
a
  Phil para se aproximar e acrescentou: - Se Roshek aparecer a,
fi  que de olho nele. Isto talvez seja demasiado para ele.
  Phil acenou com a cabea e prometeu.
; - Esteja descansado.

   0 PEQuENo helicptero de dois lugares sobrevoou a baixa
altitude a floresta, cerca de dezasseis quilmetros a jusante da
barragem. Roshek apontou para o relvado verde que rodeava
Creekwood
!   e o piloto corrigiu ligeiramente o rumo.
    0 rio estava com mau aspecto - j transbordava das margens
e
    arrastava troncos  deriva. Roshek tinha esperana de que
Eleanor
    tivesse ouvido as notcias e se tivesse ido embora. Caso
contrrio,
    diria ao piloto para a iar e transportar at um local seguro
e o vir
    buscar depois. Se, entretanto, a barragem casse, tanto pior.
Dos
    dois, era prefervel ser ela a sobreviver, porque ele j
estava velho e
    em rpida decadncia. A sua carreira, que apenas alguns dias
antes
    estava  beira de atingir o auge, desmoronava-se tambm.
    Avistaram a casa.0 automvel que estava parado no caminho de
    acesso  garagem no era o de Eleanor. Se no estava enganado,
pertencia a Russell Stone,0 bailarino com quem Eleanor vivia
quando
    a conhecera. Deus meu, pensou Roshek. Com certeza que no
estavam juntos, uma vez que Eleanor lhe tinha jurado que haviam
rompido definitivamente. Eleanor devia ter-lhe emprestado a chave
e
I
    Russell tinha vindo sozinho.
    - Fique a pairar - ordenou Roshek ao piloto quando se
aproximaram da vivenda.
    A porta principal abriu-se e um jovem bem constitudo e
esguio
    surgiu na entrada. Era Stone, e Roshek ficou furioso. No lhe
estava
    a agradar a ideia de um rival seu passar a noite em
Creekwood,
    mesmo com autorizao de Eleanor.
    Uma mulher apareceu na entrada ensombrada e Roshek murmurou:
    - Por favor, fazei com que no seja Eleanor.
    Mas era ela, com o pijama de seda que lhe oferecera no Natal.
    Ela chegou-se para o sol e ps um brao em tomo da cintura
de
    Stone. Ele passou-lhe um brao sobre o ombro e puxou-a para
si
    enquanto olhavam ambos para o helicptero. Roshek viu-a
proteger
    os olhos com uma das mos, como um pssaro a voar para um
ramo.
    Mesmo os seus gestos mais simples eram to graciosos que ele 
  - Suba - disse Roshek, apontando para cima. - Suba.
  Enquanto o helicptero se elevava, Roshek rompeu a soluar
convulsivamente, escondendo o rosto num leno.
  - Ei, sente-se bem? - perguntou o piloto.
  Roshek acenou afirmativamente com a cabea, assoou-se com
rudo e inspirou fundo repetidas vezes. O helicptero inclinou-se
ligeiramente e avanou rumo a nordeste.  distncia, o lago Earl
Warren afunilava a montante de Sutterton, onde uma pequena mancha
castanha, a barragem, o vetia  semelhana de uma rolha numa
garrafa.

  O MIxDOcntO da direita era uma rea plana de um hectare
situada cerca de trinta metros acima do coroamento da barragem.
Phil, munido de um rdio e de um binculo, instalou-se no ponto
mais elevado, onde dois lanos da balaustrada se uniam na
extremidade de uma salincia rochosa com a forma de uma proa de
navio.
  Era um local de observao espectacular. Para a direita, ao
longe,
  encontrava-se a zona de distribuio elctrica e a central, que
j
  tinha sido evacuada. Para a esquerda, o rio, de um verde
profundo,
tombava suavemente das comportas abertas e dissolvia-se depois
numa contnua exploso de espuma.
  Imediatamente abaixo do descarregador, perto da base da
represa, uma rea circular de cerca de cem metros de dimetro
estava
hmida e brilhante; o seu rebordo inferior era um rasgo de
contornos irregulares de cerca de trinta metros de comprimento
de onde
jorrava gua castanha que caa regularmente em cascata pela
encosta abaixo.
  Com o aparelho de rdio junto  boca, Phil descrevia a evoluo
da ruptura.
  - Extremidade superior da brecha ao nvel quinhentos. Fluxo
duplicou nos ltimos cinco minutos. Estimativa de colapso
principal: trinta e cinco minutos.
  As zonas inferiores de Sutterton estavam a ser lentamente
destrudas pelo rio. Com o binculo, Phil observou a gua a
arrancar
das fundaes uma dzia de casas, a ergu-las no ar e a
desfaz-las
em pedaos. Sentiu-se um soldado de reconhecimento numa guerra,
a transmitir informaes sobre a evoluo da batalha a generais
no
quartel-general, atrs das linhas de combate.
  Neste caso, o quartel-general estava a apenas alguns metros de
distncia, porque o miradouro tinha-se transformado numa espcie
  de sede do governo. Primeiro, chegaram as viaturas que
transportavam o chefe da Polcia, o chefe dos bombeiros e o
responsvel da
  Cruz Vermelha local. Patrulhas das auto-estradas reservaram uma
  rea destinada a receber os helicpteros que transportariam
funcionrios de Sacramento, embora o primeiro helicptero a
chegar trouxesse uma equipa de reportagem televisiva. Por detrs
da carrinha
de Phil, eriada de antenas, Mrs. Lehmann transmitia
constantemente informao para as comunidades a jusante. Tinha
uma voz
sonante e Phil conseguia ouvir praticamente tudo o que dizia,
apesar da cacofonia gerada pelo rugido da gua, pelo motor das
viaturas, pelos gritos e os rudos dos megafones. Via bem que
estava a desempenhar a sua funo com enorme energia e
eficincia. Quando
Hartley comentou que ela quase parecia ter prazer no que fazia,
Lehmann respondeu:
  - Se for preciso chorar para ajudar algum, eu choro.
  Naquele momento, Phil voltou-se e viu-se defronte de uma mini 
cmara de televiso. Ao lado do operador de cmara, estava um
  homem de casaco desportivo castanho-amarelado, que falava com
  ar srio para um microfone.
  - Temos agora no cran Phil Kramer, o herico jovem engenheiro
que passou a noite a lanar o alarme. Tanto quanto me  dado
entender a torrente de gua vai aumentar cada vez mais depressa
at o vale estar completamente inundado, no  assim? - perguntou,
aproximando o microfone do rosto de Phil.
  - No. Dentro de cerca de meia hora, um muro de gua vai
lanar-se sobre o vale como um bulldozer.
  - A cem ou cento e cinquenta  hora? Que espectculo
maravilhoso para as nossas cmaras.
  - Se fosse um canal direito, talvez atingisse os cento e
cinquenta quilmetros por hora, mas como este vale  sinuoso, a
turbulncia e os destroos arrastados pela torrente reduziro a
sua velocidade para cerca de vinte ou trinta quilmetros por
hora. Agora, se
me d licena ... - Phil voltou-se e esquadrinhou o lago com o
binculo. - Parece-me que estou a ver um barco do lado direito,
a
cerca de quatrocentos metros do descarregador. No deve ter ouvido
os avisos. H algum helicptero disponvel para ir at l? --
perguntou Phil pelo rdio.
  Wilson Hartley pousou a mo no ombro de Phil.
  - Disse que a corrente se deslocar a uma velocidade de vinte
ou trinta quilmetros por hora?
  -  apenas uma estimativa, mas penso que no devo estar muito
longe da verdade.
  - Nesse caso, um homem poder percorrer o desfiladeiro a uma
velocidade muito superior a fim de se assegurar de que toda a
gente
foi evacuada. Vou levar o nosso melhor carro, aquele que
utilizamos para perseguir os condutores em excesso de velocidade.
  Phil olhou espantado para o polcia.
  - Est a falar a srio? No posso garantir ao certo qual ser
a
velocidade da torrente. Pode ...
  Hartley voltou-se, dizendo:
  - Continue a falar para o microfone para me informar de quanto
tempo disponho.
  Um estrondo proveniente da barragem chamou a ateno de
Phil. Da rea circular, completamente encharcada, explodiu um
enorme giser em direco ao cu, e da brecha jorrou uma gua
castanha e viscosa, como se fosse uma ferida a sangrar.
  - Uma tremenda exploso. A gua parece estar a irromper com
toda a presso. Est quase; talvez mais vinte minutos. Aqueles
que
ainda se encontram na cidade devem fugir rapidamente - relatou
Phil, excitado.
  Da superfcie da albufeira, a cerca de trezentos metros do
descarregador, ergueu-se uma coluna de bolhas, e  sua volta
comeou
lentamente a formar-se um remoinho.

  DO HELICP'rERO de Roshek, a cidade, o lago e a barragem
formavam uma paisagem esplendorosa digna de um postal. S uma
observao mais cuidadosa permitia descortinar as filas de carros
a abandonar Sutterton por todas as vias possveis. O lago
brilhava ao sol, e
os sops das montanhas subiam em pregas em direco s terras
altas cobertas de neve, como um manto amarrotado.  medida que
o helicptero se aproximava, a barragem, uma parede colossal que
atravessava o vale, adquiria um aspecto cada vez mais sinistro.
Do
seu lado esquerdo, como uma pulseira de prata num brao
bronzeado, via-se o descarregador e, a seu lado, uma horrvel
massa de
gua castanha em ebulio, com metade da altura e o dobro da
largura. Quando Roshek viu aquela enorme estrutura deitada l em
baixo, quebrada e a sangrar, vieram-lhe as lgrimas aos olhos.
  Quando o helicptero aterrou e o rotor parou, Roshek permaneceu
imvel. A porta abriu-se e sentiu que o puxavam para fora. Estava
rodeado de gente, mas as vozes pareciam-lhe muito longnquas.
Pegou nas canadianas mecanicamente, caminhou para a balaustrada
e espreitou por cima do rebordo.
  Uma poderosa torrente de gua, verde e vtrea, precipitava-se
violentamente sobre o descarregador de beto em perfeito fluxo
laminar, dando gradualmente lugar a uma turbulncia branca, tal
como as frmulas e os testes previam. Era um espectculo belo e
hipnotizante, uma fotografia num livro de engenharia. Mais
abaixo,
em vez do flanco liso e amarelo-acastanhado da represa a aquecer
ao sol, havia um animal castanho enraivecido sado de um pesadelo
a rugir e a escavar uma cavidade fatal no seio de uma das
maravilhas
artificiais do Mundo.
  Est tudo errado, pensou Roshek. Sem qualquer culpa sua, a
Barragem de Sierra Canyon estava a desmoronar-se sob os seus
olhos. As foras da Natureza estavam em aco e no havia nada
que ele pudesse fazer. Imaginou as mos de um insolente danarino
a acariciar Eleanor James, mas que lhe importava isso? Agora,
Eleanor j estava fora da sua vida e o mesmo se aplicaria em
breve 
barragem.
  O vento puxava-lhe as roupas e arrancou-lhe o chapu da cabea,
catapultando-o como se fosse um prato de tiro. Roshek viu-o
elevar-se no cu a girar e descrever depois um longo arco,
diminuindo progressivamente de tamanho at ficar reduzido a um
pequeno ponto contra o rio que caa em cascata na face da
barragem.
  Largou as canadianas, que tombaram ruidosamente no solo, e,
para evitar cair, segurou-se  balaustrada. Como seria fcil, se
no
fossem aquelas pernas definhadas, saltar por cima dela.
  Foi ento que lhe pareceu ouvir uma voz conhecida e voltou-se
lentamente para a direita. A trs metros de distncia, um homem
de
fato-macaco branco olhava atravs de um binculo e falava para
um
aparelho de rdio.
  - Est a formar-se um remoinho no lago, cerca de trezentos
metros a nordeste do descarregador. A extremidade superior da
brecha atingiu uma altura de cerca de duzentos metros - dizia o
homem.
  Roshek fixou-o, procurando lembrar-se de onde o conhecia. Que
 que ele tinha que lhe fazia sentir tanto dio? Seguiu ao longo
da
balaustrada para o observar mais de perto.
  - Ruptura final dentro de cerca de dez minutos. Estou a ver
pessoas nas margens do desfiladeiro a jusante da cidade, no ponto
onde
o rio faz uma curva. Se ficarem ali, podero morrer afogadas.
Quando a onda atingir aquele sop, pode subir at ao cume -
continuava o homem a transmitir via rdio. Quando se voltou,
baixando
o rdio e o binculo, exclamou, surpreendido: - Mr. Roshek!
  - Voc  Kramer, no ? Teve uma sorte incrvel. As
probabilidades de a barragem ceder e de voc aparecer nesse
preciso momento eram de uma para um bilio - disse Roshek com voz
trmula. O rudo da gua era de tal modo ensurdecedor que teve
de elevar a voz para se fazer ouvir. - O seu computador idiota
no teve
nada a ver com o assunto ... foi pura sorte. - Agarrou no ombro
de
Phil e acrescentou: - Antes de voc aparecer, estava tudo bem.
Foi
voc quem provocou este acidente; sim, sabotagem, s para provar
a sua teoria maluca, para me destruir ...
  Roshek sentiu uma mo forte pousar-lhe no brao. Voltou-se e
viu um homem com a cabea ligada que gritava o seu nome.
  - No me ouves? - perguntava.
  Era Herman Bolen. Roshek avaliou a situao calmamente. Se
no lhe responder, pensou, vai achar que enlouqueci.
  - Claro que te ouo, Herman. Que  que te aconteceu na cabea?
  Antes de Bolen ter tempo de responder, ouviu-se um forte
estrondo ribombante, enquanto um enorme bloco triangular da
represa cedia e desaparecia na gua que jorrava por baixo. O lago
parecia saltar pela brecha, que agora se estendia desde a base
da
barragem at poucos metros do coroamento, abrindo caminho com
um furor surpreendente. Imediatamente por cima da brecha, a
estrada no coroamento comeou a abater.
  Roshek desviou o olhar.
  - Onde esto as minhas canadianas? - Quando lhas entregaram,
dirigiu-se para o helicptero e disse a Bolen, que teve de andar
apressadamente para o conseguir acompanhar: - No quero ver.
No sou nenhum masoquista. Vou voltar para Los Angeles.
  Bolen ajudou-o a subir para o lado do piloto e perguntou:
  - Tens a certeza de que ests bem ... Ficas ...
  - Sinto-me perfeitamente bem, Herman. Depois falamos,
quando regressares a Los Angeles - respondeu, procurando fazer
um sorriso tranquilizante enquanto tirava a mo de Bolen da porta.
  O helicptero levantou voo e rumou em direco a sudoeste.
Roshek torceu-se no banco para lanar um ltimo olhar  barragem
destroada. A brecha debitava agora mais gua que o descarregador
e a barragem era atravessada por dezenas de milhares de toneladas
de gua por segundo, numa torrente que era como uma fatia das
cataratas do Nigara, mas com o triplo da altura. Embora lhe
custasse, foi incapaz de desviar o olhar, at que uma montanha
lhe tapou misericordiosamente a vista.

' Captulo 12

  PoR 'rxs vezes, Chuck Duncan puxou o cabo para pr o motor
fora  -de-borda a trabalhar, sem xito. O barco tinha sido
arrastado em
  direco  barragem, que se encontrava agora a uns escassos
quatro  centos metros, muito mais depressa do que era costume.
No que
  receasse qualquer perigo, pois do lado de c das comportas,
virado
  para o lago, havia grandes grelhas de ao que retinham o lixo
para
  este no danificar o descarregador e a cerca de trinta metros
da represa uma longa fila de troncos unidos evitava que as
embarcaes
  encalhassem na barragem, mas Duncan no gostava de se aproximar
demasiado, porque j a via o suficiente durante a semana.
  Tentou novamente pr o motor a funcionar e, desta vez,
conseguiu. Virou o barco e rumou para o centro do lago. Bebeu uma
lata
  de cerveja, segurou-a do lado de fora da borda at ficar cheia
de
  gua e depois inclinou-se para a ver afundar-se. S a conseguiu
  seguir durante alguns centmetros antes de desaparecer de
vista.
  Estranho. Nunca tinha visto a gua to turva naquela zona do
lago,
' onde a profundidade era de cerca de duzentos e cinquenta
metros.
  Algo devia estar a levantar o sedimento.
  Levantou-se e olhou  volta. No coroamento da barragem, estava
um homem de p a esbracejar. Duncan respondeu, acenando
  tambm. O miradouro da direita estava cheio de carros e de
camies. Para que era tudo aquilo? Talvez tivesse a ver com a
mara  tona. Reparou que estava ainda mais prximo da barragem do
que
  dantes e acelerou ao mximo. Fixou o olhar num ponto da margem
  para controlar a sua progresso e verificou que continuava a ser
  arrastado.
  Mudou de banco e olhou para o descarregador. Pela primeira
  vez, apercebeu-se de um rugido abafado. No lago, no era geral 
mente possvel ouvir a gua na base do descarregador, porque a
  barragem funcionava como uma barreira de som. Devem ter
aberto
  as comportas durante a noite, pensou. Imaginou o barco a ser
arrastado de encontro aos filtros de detritos e a ficar preso na
grade como se fosse um pedao de madeira. Se isso acontecesse,
teria de ser
 iado por uma grua.
  Viu um helicptero descolar do miradouro e desaparecer na
direco sudoeste. Um minuto depois descolou outro helicptero
do
 mesmo ponto e dirigiu-se para si. O barco estava a ganhar
velocidade e o leme no tinha qualquer efeito sobre o rumo. Foi
ento que
reparou numa depresso na gua a cerca de cem metros de distncia,
em torno da qual rodopiava uma parte do lago.
  - Alguma corrente - disse Duncan em voz alta, enquanto sentia
com medo crescente o barco a descrever um largo crculo; um
minuto depois, estava dez metros mais prximo do centro. O motor
era agora completamente intil contra a cada vez mais veloz
corrente em espiral. Mais duas voltas e o barco comeou a
inclinar-se
para dentro, como se a superfcie da gua fosse uma membrana de
borracha que estava a ser puxada para baixo.
  Um remoinho! A palavra veio-lhe  mente num lampejo. Em
pnico, constatou que j se encontrava to abaixo da superfcie
da
gua circundante que no conseguia ver nem a barragem, nem a
margem do lago. O barco descrevia crculos cada vez mais
apertados. O helicptero surgiu por cima de Duncan, suspenso no
ar, e o
piloto gesticulava para que ele se agarrasse a um dos patins de
aterragem. Por duas vezes, o barco passou por baixo do
helicptero e
Duncan, de joelhos no assento, esticou-se o mximo possvel, mas
no conseguiu. Quando o barco rodou em torno da curva inclinada
para uma terceira aproximao, Duncan ps-se de p, inclinado
para a frente e em equilbrio instvel, jurando a si prprio que
ia
conseguir agarrar-se, nem que para isso tivesse de saltar.
  Mas no teve essa oportunidade. Embatendo num tronco
semi-submerso o barco empinou-se e Duncan foi lanado para o
centro
do remoinho e sugado instantaneamente.
  O helicptero deteve-se por momentos, girando lentamente antes
de se afastar.

  KEtr'r Spain sentia tonturas e nuseas e interrogava-se quanto
mais tempo conseguiria aguentar. Abandonou a floresta em direco
ao miradouro da direita, a cambalear, quase derrubando um
homem obeso com a cabea ligada. Abriu caminho atravs de
barricadas formadas por cavaletes de serrar to mal colocados que,
em
vez de o guiarem, lhe dificultavam o avano. Havia muitos
espectadores, mas no o saudavam com os habituais aplausos
espontneos
de apoio ao corredor da frente. Vrias pessoas gritaram quando
o
viram; outras olhavam na direco errada.
  Quando atingiu a estrada que atravessava a barragem, teve de
passar por baixo de uma corrente que algum tinha estupidamente
estendido de um lado ao outro. Foi ento que viu um polcia 
espera
com a mo estendida. Kent no tinha qualquer inteno de perder
tempo a dar um aperto de mo, por isso desviou-se para escapar ao
polcia, enquanto pensava, admirado, na estupidez generalizada
da
raa humana. Agora, o polcia vinha atrs dele a gritar palavras
ininteligveis devido ao rudo ensurdecedor que lhe enchia os
ouvidos.
Kent continuou a correr, deixando o polcia ficar para trs.
  Minutos antes quando descia a encosta em direco  barragem,
as rvores tinham tremido e o solo parecera ondular como uma
bandeira ao vento. Nessa altura, ouvira um estridor, mas nada
comparado com o que lhe enchia agora a cabea. A estrada aqui
estremecia e, num dado ponto, pareceu ceder sob os seus ps. Pra
um minuto, dizia uma voz no seu interior; espera que o tremor e
o bramido
desapaream. No! Ia continuar. O que distinguia os campees era
a perseverana.
  Agora, havia tambm pessoas na outra extremidade da barragem
que o agarraram quando passou por elas e lhe gritaram palavras
que
no conseguia decifrar. Mas, em breve, estava de novo sozinho
entre as rvores, correndo determinadamente ao longo de um
caminho
que acompanhava um desfiladeiro lateral. Dulotte estaria  sua
espera ao fim de um longo trilho secundrio. Kent comeava a
sentir-se melhor e manteve-se atento  camisola branca que
assinalava a
bicicleta escondida. J lhe custava menos a respirar do que
quando
estava a atravessar a barragem. O estrondo tinha diminudo, o
solo
praticamente j no tremia e sabia-lhe bem a brisa fresca.
  Kent parou quando viu uma T-shirt do Centro Holstico de
Manuteno pendurada num ramo. Afastou os arbustos e l estava
a
bicicleta bela e reluzente. Tirou-a para fora e correu um pouco,
dando balano.

  Qu.rro Dulotte viu a bicicleta a aproximar-se, saiu de trs
da
mesa. Kent parou, derrapando.
  - No vs to depressa. A essa velocidade vais bater o recorde
mundial por dez minutos. Como  que te sentes? - indagou Dulotte.
- Sinto-me estupendo. Qual  o meu avano?
  - No sei. Neste desfiladeiro no se consegue ouvir nada no
rdio. Utilizaste o pedmetro, o pulsmetro, o ...
  - No, toda essa tralha deixou de funcionar ao fim de poucos
quilmetros.
  - No faz mal, nunca ningum vai saber disso. Deixa a bicicleta
aqui e corre devagar durante o resto do percurso. O teu tempo tem
de
estar dentro dos limites do razovel.
  Kent desmontou da bicicleta e empurrou-a para as ervas.
  - s suas ordens, Doc - disse, pegando numa laranja descascada.
Enquanto se afastava, olhou por cima do ombro e acenou. -- Adeus.
At segunda-feira no Banco da Amrica - acrescentou.

  O AGErrrE JOhn Colla percorreu a toda a velocidade as ruas
laterais de Sutterton com a sirene a tocar, parando de trs em
trs portas
para pedir a toda a gente que encontrava que avisasse os vizinhos
e
fugisse depois para um ponto alto. A maioria das casas j estava
vazia, graas em parte a um avio que tinha sobrevoado a cidade
transmitindo a ordem de evacuao atravs de um megafone.
  Quando escutou o relatrio de Kramer via rdio de que a brecha
principal da barragem se abriria completamente dentro de cerca
de
cinco minutos, Colla interrompeu a sua tarefa e tomou uma das
estradas que conduziam aos planaltos que se erguiam acima da
cidade. Estava convencido de que Sutterton estava quase
completamente deserta. Ficaria muito espantado se mais de uma
dzia
de pessoas fosse dada como desaparecida uma vez terminada a
inundao.
  Quando atingiu o limite da cidade, Colla carregou no travo.
Dois midos com idade no superior a dez anos estavam calmamente
sentados numa rvore.
  - Que esto a fazer a? - gritou da janela do carro.
  - A barragem est a cair. Daqui podemos ver a gua - respondeu
um deles.
  Colla saiu do automvel e ordenou-lhes que descessem.
  - Onde esto os vossos pais? Em casa?
  - Esto divorciados. A me est l em cima a arranjar as unhas
- disse o rapaz mais velho enquanto descia da rvore.
  - Ela no ouviu as sirenes, as campainhas e os avies?
  - Disse que hoje havia muito barulho.
  Colla disparou dois tiros para o ar. Um rosto de mulher surgiu
numa janela do primeiro andar.
  - A barragem est a cair! Vou esperar por si trinta segundos
e
depois saio com os rapazes daqui para fora - gritou Colla.
  A mulher ergueu os olhos, dirigiu-os para a barragem atravs
dos
telhados e ficou boquiaberta. Vinte segundos mais tarde, saiu a
correr pela porta da frente, com um gato debaixo de cada brao
e
uma carteira pendurada de cada cotovelo.
  - Cuidado! A vem ela! - gritava no rdio uma voz excitada.

  DE ONDE Phil se encontrava parecia o fim do Mundo. Grandes
pedaos da represa caam para dentro da brecha, no meio de
estampidos e estrondos, at uma fenda em V e de contornos
irregulares
atingir o topo da barragem. A albufeira, com o caminho livre at
um
nvel trezentos metros abaixo, lanou-se para a frente como uma
gigantesca mar, e a gua castanha que continuava a jorrar da
parte
inferior da brecha como a lava de um vulco desapareceu por
completo sob centenas de toneladas de gua branca. O
descarregador de
beto vergou para o lado e desmoronou-se, bloco aps bloco, de
cima para baixo. Phil recuou instintivamente, com receio de que
o
contraforte direito em que se encontrava casse a seguir. Tinha
pensado prosseguir com a descrio do desastre, mas estava to
estupefacto perante a violncia do espectculo a que assistia que
perdeu a fala.
  A terra tremeu sob os seus ps quando uma seco de trezentos
metros de largura e mil e duzentos metros de espessura se
destacou
da base da barragem. Um tero da represa, trinta milhes de
metros
cbicos de matria, comeou a descer a corrente em bloco. 
medida que se deslocava, comeou lentamente a perder a forma,
submergindo e desmoronando-se como um monte de lama sob a agitada
massa de gua.
  Um rio largussimo forou passagem atravs da abertura.
Quatrocentos metros a jusante, a gua da primeira ruptura foi
dominada
por uma verdadeira avalancha lquida com uma profundidade de
mais umas dezenas de metros. Em minutos, Sutterton foi destroada
por uma fria que percorreu a cidade a uma velocidade de oitenta
quilmetros. Quando atingiu a encosta para l de Sutterton, no
ponto em que rio e garganta inflectiam para a direita, um vasto
lenol de gua encapelou-se como uma vaga de encontro a um molhe.
  Quando a onda refluiu sobre a corrente principal, arrastou
consigo as rvores, as camadas superficiais do solo, as casas ...
e os
espectadores.
  KErr'r Spain, respirando sem dificuldade, corna com uma passada
larga. Sentia-se perfeitamente bem e sorria. S faltava
quilmetro e meio para chegar  Cmara Municipal de Sutterton,
onde
cortaria a meta, estabelecendo um espantoso novo recorde da
maratona, conquistando fortuna, fama, automveis, roupas,
mulheres. O
resto do percurso era fcil, primeiro ao longo de uma encosta que
se
erguia acima da cidade, descendo depois uma estrada ngreme at
ao limite das casas, e, finalmente, a rua principal, acenando
para
uma multido de espectadores.
  Passou um helicptero, o quarto que via depois de atravessar
a
barragem. Havia sem dvida grande agitao em torno de uma
corrida de corta-mato relativamente desconhecida, pensou. Ao
dobrar
uma curva, viu grupos de pessoas voltadas de costas, de p, na
estrada, na encosta coberta de ervas que a bordejava e no cume
distante.
  - Afastem-se! Est a decorrer uma corrida! Deixem-me passar!
- gritou, abrindo caminho entre a multido, que se mantinha
estranhamente silenciosa.
  - Idiota - disse um homem.
  Praguejando, Kent abandonou a estrada e subiu a encosta para
se
desviar do ajuntamento. Quando viu o que eles estavam a olhar,
parou, confuso. Estava  beira de um mar interior. Em vez da
estrada de cascalho que descia para a cidade, s havia gua -
gua
que se estendia at aos montes do outro lado do vale, a cerca de
dois
quilmetros de distncia.
  - Onde  que estou? Devo ter-me enganado no caminho. Onde
 que fica Sutterton? Para que lado devo ir? Esto surdos ou qu?
-- perguntava aos berros.
  Uma mulher levantou o brao e apontou para o centro do lago,
onde flutuavam destroos arrastados por uma corrente veloz.
  - Sutterton est ali. A barragem caiu. No se salvou nada -
declarou.
  Kent voltou-se lentamente enquanto aquelas palavras lhe
atingiam o crebro como um gs venenoso. A desolao espelhada
nos
rostos que o rodeavam f-lo compreender que a sua dor era
insignificante quando comparada com a deles.
  A seu lado, sentados nas ervas, estavam um homem, uma mulher
e trs crianas chorando em silncio. Kent Spain, tambm a
chorar,
sentou-se e cobriu o rosto com as mos. Estar sentado fazia-lhe
mal
s costas, mas j no se importava.
  QuARErr'rA e cinco minutos aps a destruio de Suttenon, o
chefe da Polcia Wilson Hanley encontrava-se a cerca de vinte
quilmetros a jusante da barragem, percorrendo a estrada
distrital no
veloz cano da Polcia. Tinha parado e batido  porta de pelo
menos
trinta casas, caravanas e atrelados e mandado os ocupantes
encosta
acima para um lugar seguro. Era impossvel saber o nmero de
pessoas que no ouviram o aviso que ele transmitira repetidas
vezes
atravs do megafone do cano.
  O avano da gua estava a ser controlado a partir de
helicpteros
que veiculavam a informao para a caninha de comunicaes.
Hanley ouviu o relatrio de Mrs. Lehmann informando que a onda
tinha acabado de atingir o viveiro de peixes em Castle Rock, que
ficava cerca de dois quilmetros e meio a montante do ponto onde
se encontrava.
  Parou no caminho que conduzia a Creekwood, a imponente casa
de Vero de Roshek. Hesitou, pensando se teria tempo de verificar
se estava algum - tinha um avano de entre cinco e oito minutos
em relao  onda. Trs quilmetros a jusante, imediatamente a
seguir  ponte, podia tomar trs estradas diferentes que subiam
a
encosta. Tinha visto Roshek chegar e partir do miradouro num
helicptero e, por isso, era provvel que o velhote se tivesse
certificado de que a casa estava vazia, mas ainda assim ... Com
a sirene
ligada, dirigiu-se para o caminho de acesso a Creekwood.
   entrada, estavam um homem e uma mulher que o tinham
ouvido aproximar-se.
  - A barragem caiu! - gritou Hanley, parando junto aos degraus
da entrada. - Dentro de minutos isto vai ficar debaixo de
vrias dezenas de metros de gua. - Desligou a sirene e ouviu-se
um rumor surdo, prolongado e longnquo. Hanley apontou para
montante e disse: -  a torrente que vem a descer o desfiladeiro.
Vejam a poeira que est a levantar. Corram para o topo da
encosta.
 o melhor que tm a fazer. Boa sorte!
  Hartley fez inverso de marcha no relvado, parando durante
alguns segundos para observar o assustado par a subir o declive
coberto de ervas por detrs da casa. Depois, acelerou e desceu
o
caminho a toda a velocidade, confiante de ter salvo mais duas
vidas;
agora, ia concentrar-se em salvar a sua.
  Percorreu a distncia at  entrada do desfiladeiro a cento e
vinte
 hora. Imediatamente antes de a estrada atravessar o rio e se
cruzar
com uma outra que levava a mais altas paragens, teve de travar
porque havia quatro automveis parados  sua frente. O rio de
Siena
Canyon, que transbordava das margens e transportava uma pesada
carga de destroos tinha deitado a ponte abaixo. Hanley saiu do
cano lentamente, olhando para a interrupo na estrada. No tinha
qualquer possibilidade de se pr a salvo escalando a p, porque
aquela zona do vale era ladeada por penhascos quase a pique. Os
condutores das outras viaturas correram para ele, fazendo
perguntas
aos gritos. Hanley ergueu a mo, pedindo silncio.
  - H uma estrada para incndios dos Servios Florestais cerca
de oitocentos metros para montante. Sigam-me - disse Hanley.
  Subindo a garganta contra um fone vento adverso, Hanley viu
pelo espelho retrovisor a fila de canos que o seguia. O que via
atravs do pra-brisas tornou claro que estavam todos a fazer uma
viagem intil. Acima das rvores havia uma nuvem de poeira que
obscurecia ameaadoramente a claridade matinal.
  A estrada para incndios era pouco mais larga que um caneiro
de
tena e era vedada a estranhos atravs de uma barra de ao
horizontal, articulada de um lado a um poste e fechada a cadeado
do outro.
Hartley aproximou-se da barricada e rebentou o cadeado com dois
tiros de pistola. Quando entrava novamente para o cano, o vento
fustigou-lhe as roupas e levantou p e agulhas de pinheiro com
uma
fora tal que teve de fechar os olhos para no ficar cego. Um
rugido
contnuo e progressivamente mais intenso f-lo compreender que
a
onda se encontrava a menos de oitocentos metros de distncia.
  O carro avanou aos solavancos, passando por cima de sulcos e
de pedras espalhadas. Graas ao potente motor V-8, Hanley deixou
para trs as restantes viaturas. Mas tambm no pensava nelas. Nem
sequer se atrevia a olhar para o espelho com receio de ver a
origem
do estrondo, que agora abafava todos os outros rudos. O
pra-brisas
ficou ligeiramente salpicado.
  A estrada subia a ngreme encosta da garganta lateral e Hanley
avanou desesperadamente. Embora com um pneu furado e com o
cner arrancado, Hanley continuou a carregar no acelerador. Para
a
sua esquerda, no topo da encosta oposta, via uma linha diagonal
que
era a estrada de incndios em que seguia depois de descrever uma
curva de cento e oitenta graus na pane final do desfiladeiro. Se
conseguisse chegar quele ponto, estaria salvo.
  Com uma velocidade espantosa, a encosta do outro lado ficou
branca quando um lenol de espuma a lambeu como se algum tivesse
lanado um balde de gua ensaboada contra uma parede.
Simultaneamente, um rio com uma profundidade de vrios metros
escalou a encosta e rodeou o automvel, empurrando-o para a
frente. O motor parou e, segundos depois, o cano era puxado para
trs por uma poderosa corrente que passou por cima do tejadilho
e
do cap, virando o cano para baixo, com a gua a espumar acima
das janelas.
  Hartley puxou o travo de mo e aguardou, pensando. A gua
comeou a entrar pelas frinchas do cho, dos guarda-lamas e das
portas, e ele interrogou-se se isto seria o pior. Talvez a
torrente
diminusse antes de o automvel ficar cheio de gua. Talvez ...
Sentiu uma corrente que deslocou a viatura, dando-lhe vrios
pequenos empurres, como se fosse uma caixa impelida por uma mo
gigante.
  Uma tremenda fora soergueu o automvel, f-lo girar
lentamente, deixando-o cair no solo sobre um dos lados. Hartley
ficou
atordoado quando bateu com a cabea no caixilho da porta, mas as
suas capacidades de raciocnio continuaram a funcionar com
misteriosa calma. A gua esguichava atravs de duas janelas
quebradas,
molhando Hartley, que pensou: Perto do vidro traseiro, vai
formar-se uma bolha de ar. Se o cano ficar onde est, posso
aguentar uma
hora ou mais, e por essa altura o nvel da gua j deve ter
descido. Se
ficar com falta de ar, saio por uma janela e nado at 
superfcie.
  Mas a gua ergueu novamente o cano e arrastou-o rapidamente
para o desfiladeiro. Desalentado, Hartley compreendeu que tinha
sido apanhado pela corrente principal. O automvel rolava sem
parar, enchendo-se rapidamente de gua. Quando sentiu o frio na
cara, susteve a respirao, mas no entrou em pnico. Era como se
fosse novamente um rapazinho num carrinho de feira a ser puxado
com deliciosa expectativa at ao topo de uma montanha-russa,
pronto para o grande mergulho que provocaria os gritos das
raparigas e obrigaria os rapazes a agarrarem os chapus.
  Subitamente, o automvel foi puxado por uma fora em sentido
contrrio que o arrastou directamente para baixo, projectando-o
de
uma altura de sessenta metros de encontro ao fundo do
desfiladeiro,
juntamente com uma enorme quantidade de outros destroos. O
cano foi esmagado, ficando reduzido a um quarto do tamanho
original, sendo depois arrastado como uma folha de papel numa rua
varrida pelo vento. Seguidamente, a corrente puxou-o em
movimentos circulares at  superfcie, impeliu-o rio abaixo
atravs da
entrada da garganta, enterrando-o na terra argilosa do rio
Sacramento como se fosse uma estaca. Nas trs horas seguintes,
 medida
que a corrente lhe passava por cima cada vez com menos fora,
ficou soterrado sob uma camada de lodo de cerca de dez metros de
espessura.

  VIN'rE quilmetros separavam a barragem da entrada do
desfiladeiro, no ponto onde o rio Siena Canyon emergia dos sops
das
colinas e serpenteava nos planaltos do Vale Central superior at
confluir com o rio Sacramento na cidade de Omohundro. A corrente
abriu caminho pelo desfiladeiro como uma serpente ondulante que
se alongava, e no momento em que atingiu a entrada do canyon
trazia mais destroos que gua - restos da represa, terra,
rvores, pontes, casas, animais e, pelo menos, oitenta
quilmetros de arame e
vedaes. O avano da onda foi mais tarde descrito pelos
observadores de diferentes formas.
  - A primeira coisa que vi foi uma nuvem de p - disse a
guarda-florestal Kitty Sprague. - Pensei que era fumo e transmiti
via
rdio que tinha deflagrado um violento incndio. Minutos depois,
vi
a torrente, que parecia uma montanha de gua a empurrar o entulho
de uma cidade. A parte da frente estava semiencoberta por nvoa,
mas consegui ver casas inteiras a serem levadas de um lado para
o
outro.
  Evelyn Hayes, chefe das guias do estado de Sausalito, estava
a
acampar com um grupo de raparigas acima da entrada do
desfiladeiro.
  - O mais estranho de tudo  que estava um dia muito bonito --
relatou ela ao jornal Bee de Sacramento. - Normalmente,
associamos o fim do Mundo a um dia tempestuoso. Foi isso o que
pensei,
que o Annageddon tinha chegado. A devastao era de tal ordem
que parecia sobrenatural. Vimos a torrente emergir do
desfiladeiro
e lanar-se sobre pomares e campos como uma mancha que alastra
num pedao de tecido. Quando atingiu Omohundro, as casas foram
amontoadas como se algum estivesse a colocar brinquedos numa
pilha e depois tragadas pelas guas para sempre.
  A verso de Tim Hanson, um tenor de pera que vivia em
Omohundro, foi transmitida em simultneo por vrias estaes de
televiso nacionais a partir da sua cama no hospital, em Chico.
  - No ouvi os avisos porque estava numa cabina  prova de som
que tenho no meu quarto para poder ensaiar sem incomodar os
vizinhos. Quando senti a casa a tremer, sa da cabina e olhei
pela janela.
A trs quarteires de distncia, vinha em direco a mim um muro
de lixo torrencial que derrubava rvores e casas. Coni para o
sto
e subi para o telhado atravs de uma clarabia. Sentei-me com os
braos em torno da chamin e vi as casas a serem esmagadas uma
aps outra. A alguns quilmetros de distncia, via a gua que
jorrava de Siena Canyon como se fosse xarope a sair de um frasco.
Quando atingiu a minha casa, ela comeou a rodar enquanto eu
procurava manter-me do lado mais alto, como fazem os lenhadores
em cima de troncos num rio. O barulho era aterrador. Era como o
troar de mil tambores  mistura com o rudo de rvores e tbuas
a
quebrarem-se. Acabei por ser arrastado em turbilho pelo rio
abaixo, agarrado a um pedao de uma parede exterior. Finalmente,
fiquei preso a uns arbustos e umas pessoas, com o auxlio de
cordas,
iaram-me para terra firme.
  O Chronicle de S. Francisco citou um coronel reformado, Tom
Stewart, que tinha assistido  destruio de Sutterton.
  - Quando o nvel das guas desceu, o vale estava reduzido ao
leito rochoso. Num pice, desaparecera tudo, incluindo as
fundaes dos edifcios. Segui para norte ao longo da antiga
margem do
lago, esperando ver a cidade em cada curva, mas s havia charcos
de
lama e peixes que saltitavam.

  QuANDo Roshek chegou a Los Angeles no avio particular da
empresa, a imprensa aguardava-o. Uma multido fervilhante de
reprteres e operadores de cmara estendia microfones, disparava
flashes e gritava perguntas, mas o engenheiro ignorou-a. O seu
rosto
tinha o mesmo aspecto aquilino de sempre, mas, ao contrrio do
que
era costume caminhava de cabea baixa e o corpo parecia nadar nas
roupas. Tinha o aspecto de um homem que regressava de um longo
internamento hospitalar.
  Inesperadamente, quando ajudavam Roshek a entrar para a sua
limusina, um jornalista abriu caminho at junto dele.
  - O meu nome  Jim Oliver. Entrevistei-o h cinco anos,
quando ocorreu um sismo nas proximidades da barragem. Est
recordado? Do Times de Los Angeles.
  Roshek nem se dignou olhar para ele.
  - Sou leitor do Shopper de Anaheim. Esse  que  um verdadeiro
jornal.
  Oliver endireitou-se e recuou. Cinco anos antes, Roshek tinha
dito algo de semelhante, mas agora o nome era diferente. Tinha
feito o comentrio maquinalmente, como se estivesse a representar
um papel que o pblico esperava.
  A limusina de Roshek avanou trs metros e parou. O motorista
saiu e perguntou:
  - Mr. Jim Oliver, do Times de Los Angeles? - Oliver levantou
a mo e o motorista conduziu-o at ao automvel.
  - Obrigado por me ter dado esta oportunidade - agradeceu
Oliver a Roshek quando a limusina retomou a marcha. - Compreendo
que no queira prestar declaraes  imprensa neste momento.
  Roshek fez um gesto com a mo para indicar que dispensava as
cortesias. Oliver reparou que ele tinha o fato salpicado de lama
e
que no trazia chapu.
  - Escolhi-o porque me lembro do ltimo artigo que escreveu
sobre barragens. Foi o texto sobre engenharia menos ridculo que
alguma vez vi publicado num jornal. Os jornais deviam ...
  - Assistiu  queda da barragem? - interrompeu Oliver. Roshek
calou-se e o seu olhar tornou-se distante. -  capaz de me contar
o que sentiu? - insistiu o jornalista.
  - Os meus sentimentos no interessam. Tenho uma mensagem
a transmitir ao povo americano.  por isso que o chamei aqui --
respondeu Roshek em tom calmo e frio.
  - O povo americano vai querer saber porque  que a barragem
cedeu.
  O rosto de Roshek foi ensombrado por um ligeiro sinal de dor.
  - A barragem cedeu por minha culpa. Porque sempre me convenci
de que ela era inabalvel, que tudo o que projectei nunca cairia.
Aceito parte da responsabilidade pelo ocorrido, mas,
simultaneamente, considero que Deus tambm  parcialmente
responsvel
porque forneceu dados geofsicos que induziram em erro.
  Oliver olhou para o homem acabrunhado que se encontrava na
outra extremidade do assento e pensou se ele no estaria a perder
o
sentido da realidade.
  - Receio que ...
  - No sabia que havia ali uma falha, a mesma que provocou o
sismo h cinco anos. Naquela altura, houve infiltraes de gua
castanha nas galerias inferiores, sabia? No, claro que no,
mantivemos esse facto no maior segredo. Pensmos que se tratava
de um
problema menor e corrigimo-lo. Agora, tornou-se evidente que
estvamos enganados. Est provavelmente  procura do mau da fita
para compor a sua histria de um projectista incompetente, um
empreiteiro que utilizou materiais de qualidade inferior, um
poltico corrupto que fez aprovar um projecto insensato como
forma de
propaganda. Mas a questo no  assim to simples. O projecto no
era de forma alguma insensato e, se h algum vilo, esse vilo
 o
impondervel, que  impossvel de eliminar totalmente. Foram os
imponderveis que nos destruram.
  Oliver levantou os olhos do bloco-notas.
  - Disse que as fundaes foram afectadas pelo sismo e que
pensavam ter corrigido os danos. Cinco anos mais tarde, surgem
novamente sinais de deficincias e ningum d por isso ...
Porqu? No
h aparelhos na barragem que ...
  - Passou despercebido devido a uma incrvel cadeia de erros
humanos e mecnicos - respondeu Roshek, elevando o tom de voz.
- Os aparelhos avariaram, indicaram valores errados e as leituras
no foram efectuadas. Como se isto no bastasse, tnhamos um
palerma na sala de controle que s se apercebeu do que se estava
a passar quando j era demasiado tarde. - Os olhos de Roshek
brilhavam
e ele abria e cerrava os punhos em sinal de frustrao. - Outra
coisa
terrvel  que tudo isto sucedeu na Califrnia, onde existe o
melhor
sistema de normas de segurana de barragens do Mundo, normas
pelas quais eu lutei ...
  Roshek desviou o rosto para a janela. Depois, Oliver perguntou
ao engenheiro se era verdade que um jovem funcionrio seu passara
a noite tentando em vo dar o alarme.
  - Como no tem um vilo, agora quer um heri, no ?
  - Estou apenas a tentar confirmar rumores.
  - Um jovem funcionrio tentou dar um alarme que, de qualquer
forma, teria sido dado. No, retiro o que disse. L porque odeio
Kramer, isso no me d o direito de o criticar. O que ele fez foi
notvel. Pergunte a outra pessoa qualquer porque eu no sou capaz
de
ser objectivo.
  - Mas no  verdade que o despediu por lhe ter dito que havia
problemas e que o mandou prender quando ele tentou provar que
tinha razo?
  A resposta de Roshek foi explosiva.
  - Tambm  verdade que o mandei libertar quando soube que
tinha razo. E quando o vi h umas horas atrs, tive vontade de
o
matar. Sabe porqu? Porque a mais notvel obra de engenharia
jamais construda estava a desmoronar-se. Porque um jovem
arrogante e inexperiente que no contribuiu em nada para a
construo
desta nao, absolutamente nada, vai ser idolatrado, enquanto eu
...
A minha vida e a minha carreira esto completamente arruinadas.
  - Cobriu os olhos com uma das mos e mostrou os dentes como se
  estivesse a tentar suportar uma dor lancinante.
  A limusina abandonou a Harbor Freeway pela sada de Wilshire.
  Quando Roshek quebrou o silncio, estava novamente calmo.
  - Kramer ainda  nosso funcionrio e temos grandes planos
para ele.
  - Imagino que no vai querer que escreva que sentiu vontade de
o matar.
  - Escreva o que quiser. Se quiser tomar a sua histria trivial,
incluindo detalhes pessoais, esteja  vontade. Talvez o que o
povo
americano queira sejam mexericos, mas no  disso que precisa.
  - Ento do que  que precisa? Que  que quer que lhe diga?
  Roshek inclinou-se para Oliver e disse fervorosamente:
  - O povo americano precisa de barragens seguras. Neste pas,
h nove mil barragens cuja ruptura provocaria enormes danos e um
tero das quais no obedece aos modemos padres de segurana. 
como ter trs mil bombas prontas a explodir. H estados onde um
agente imobilirio ou um agricultor podem construir uma barragem
sem terem sequer de solicitar uma autorizao! Sem contratarem
um engenheiro para fazer o projecto! Uma vez construda, no h
quaisquer requisitos relativamente a inspeces peridicas. S
em
trinta estados  que h normas aceitveis e mecanismos adequados
para as fazer cumprir. Quantas pessoas mais vo ter de morrer?
  A limusina parou em frente ao edifcio da empresa de Roshek.
  - Como v, preocupo-me com as barragens. A queda de uma
delas  um motivo de reflexo para os engenheiros. Nos prximos
dias, vai assistir-se a uma enorme publicidade em torno do tema
da
segurana das barragens, mas cedo cair no esquecimento, 
semelhana do que aconteceu aps a ruptura da Barragem de Teton,
no
Idaho. No deixe que isso acontea! Continue a batalhar! Faa com
que os estados e o Governo Federal assumam as suas
responsabilidades, antes que ocorra um desastre ainda maior do
que este.
  -  um pedido difcil de satisfazer. Sou apenas um jornalista.
  - Prometa-me que far o que estiver ao seu alcance.
  - Est prometido. Parece-me ser uma campanha digna de mrito,
mas custa-me a acreditar que o quadro seja to negro como o
descreve.
  - Mas .
  No passeio, Roshek fingiu estar restabelecido, apertando
vigorosamente a mo do jornalista. Oliver observou, atravs das
portas
de vidro do edifcio, Roshek afastar-se na cadeira de rodas em
direco ao ascensor e ficou surpreendido por verificar que
simpatizava com aquele homem de feies angulosas. Sentiu que
quase o
compreendia e algo mais ainda - que nunca mais voltaria a v-lo.

Captulo 13

P. lanou um ltimo olhar a Sierra Canyon. Acima do ponto onde
anteriormente se erguia a barragem, sobre camadas de sedimento
profundamente fissuradas, serpenteava um plcido rio de Sierra
Canyon, refulgindo sob o sol do meio-dia. Na outra extremidade
do
desfiladeiro, encontrava-se a aparentemente ilesa torre de
ventilao, emergindo da lama como uma caixa de elevador sem o
correspondente arranha-cus. Da barragem, restava apenas uma
parte
que se estendia numa extenso de cerca de trezentos metros a
partir
do contraforte oposto.
  Phil voltou-se quando ouviu o seu nome e viu o jornalista da
televiso com o casaco desportivo castanho-amarelado.
  -  opinio generalizada que o senhor  a chave da histria.
Por
isso, gostaramos que nos concedesse uma entrevista.
  Phil afastou-se lentamente da balaustrada e sentou-se no
pra-choques de um camio.
  - No quero ser entrevistado. Estou a precisar de dormir uns
dias - respondeu, baixando a cabea e fechando os olhos. - Estou
a morrer de dores nas pernas e nas costas. Sinto-me mal. Perdi
o carro. Estou com fome e quero ir para casa.
  - Se me pudesse s dizer ... Ei? Est a dormir?
  Phil olhou para cima.
  - Diga-me uma coisa, o helicptero  vosso?
  - Sim. Chamamos-lhe o Telecptero.
  - Vamos fazer um acordo. Eu dou-lhe uma entrevista se me
fizer um favor. Est a ver alm aquela torre de ventilao? Os
meus
sapatos, relgio e roupas esto l no topo, arrumados numa
pequena
pilha.
  O jornalista fixou-o atentamente.
  - No topo da torre? Como  que foram l parar?
  - Eu depois conto-lhe durante a entrevista. Quero tambm que
me leve a um telefone para eu fazer uma chamada para Santa Mnica
e marcar um encontro com uma pessoa cujo nome tambm ser
mencionado no decorrer da entrevista.
  - Mr. Kramer, no sei se est a brincar, mas no posso lev-lo
no Telecptero.  reservado ao pessoal. Podia perder o meu
emprego.
  Phil encolheu os ombros.
  - Est bem. H mais quem queira entrevistar-me.
  O jornalista praguejou entre dentes e disse, apontando para o
helicptero:
  - Entre.

  - VIM ASSIM qUe ouvi as notcias.
  - Obrigado Margaret. Sabia que podia contar consigo - agradeceu
Roshek. Pareceu-lhe que a sua secretria tinha posto p-de 
-arroz para disfarar os traos das lgrimas.
  - Tem montes de mensagens. Anda toda a gente a tentar
contact-lo, incluindo a sua mulher.
  - Diga-lhes que estou numa reunio. Na quero ser incomodado.
  Roshek fechou-se  chave no escritrio e deixou-se cair na
cadeira giratria da secretria. Com um toque num boto acendeu
a
televiso prximo da porta. As trs cadeias de televiso estavam
a
apresentar uma reportagem sobre a inundao e Roshek deteve-se
durante alguns minutos em cada uma delas. O rio Sacramento
transbordava das margens e a capital estava a preparar-se para
enfrentar
um nvel de gua pelo menos metro e meio acima dos nveis de
inundao normais. Estimava-se que as baas de Suisun e San
Pablo,
bem como a metade setentrional da baa de S. Francisco, ficariam
acastanhadas durante um dia ou dois, mas os bilogos martimos
no previam uma morte significativa de peixes. Pensava-se que
Sutterton e Omohundro tinham sido evacuadas a tempo. A maiora
das casas em Sierra Canyon fora tambm evacuada, graas em parte
a um polcia desaparecido que tinha percorrido o vale a toda a
velocidade  frente da onda. Cinquenta e seis pessoas eram dadas
como
mortas e cerca do dobro como desaparecidas. O governador atribua
o extraordinariamente reduzido nmero de bitos  existncia de
bem organizados programas de servios de emergncia nos distritos
afectados.
  Roshek desligou o televisor ... Teria Eleanor sobrevivido?
Tambm j no lhe interessava.
  Ligou o gravador e ditou um longo memorando dirigido a Herman
Bolen, dando-lhe sugestes sobre a forma de dirigir a empresa.
Roshek insistiu para que assegurasse a todos os clientes que a
ruptura da barragem no tinha sido devida a qualquer deficincia
do
projecto e aconselhou-o igualmente a visitar pessoalmente os
clientes mais importantes e, em especial, aqueles com quem
estavam em
curso negociaes.
  - Relativamente a Kramer - disse Roshek, falando secamente
para o microfone -,  fundamental que permanea na empresa. A
nossa imagem seria grandemente prejudicada se fosse trabalhar
para uma empresa concorrente. Ele vai atrair as atenes dos
meios
de comunicao social, pelo que, ao promov-lo, a empresa pode
partilhar dos louvores de que for alvo. Se for preciso,
oferece-lhe
cinquenta mil dlares por ano. Como sabes, Herman, considero
Kramer um indivduo presunoso que teve a sorte de estar no local
certo no momento certo. V-lo numa posio de prestgio faz-me
sentir mal, mas, felizmente, vou deixar-vos. s um homem bom,
Herman, e desejo-te as maiores felicidades.
  Roshek pegou na sua caneta de tinta permanente e escreveu
numa folha de papel timbrado da empresa:

  Eu, Theodore Roshek, estando de perfeito juzo, mau grado tal
se afigure a muitos como pouco provvel, declaro ser este o meu
ltimo testamento, que assim revoga todos os anteriores. Desejo
que as minhas dvidas sejam todas liquidadas e que a totalidade
do
meu patrimnio seja entregue  minha fiel esposa, Stella, digna
de
melhor tratamento do que o que lhe dispensei nos meus ltimos
anos de vida.
  No desejo legar nenhuma quota-parte do meu patrimnio a
Eleanor James, de S. Francisco, que no meu anterior testamento
se
encontrava contemplada de uma forma to generosa e insensata.
Peo  minha esposa que me perdoe.

  Roshek colocou a data e assinou o documento. Seguidamente,
ditou uma carta dirigida ao seu advogado.

  Caro Jules: Junto remeto um testamento manuscrito. Encarrego-te
de dar cabal cumprimento s disposies nele contidas e de
anular o meu anterior testamento, elaborado contra o teu
conselho.
Se Eleanor tiver sobrevivido  inundao, pode contestar que a
tenha retirado da herana, alegando a minha insanidade,
corroborada pelo meu suicdio. Asseguro-te que me encontro no meu
perfeito juzo e de inteira posse das minhas capacidades mentais.
Pelo
contrrio, pondo termo  vida, poupo a todos muita dor e angstia
e em especial a mim prprio.
  Foi um prazer conhecer-te, Jules. Quando te quiseres lembrar
de mim, insulta algum que o merea.

  Roshek ligou novamente a televiso e, enquanto ouvia as mais
recentes notcias sobre o desastre, tirou o revlver da gaveta
e certificou-se de que estava carregado. Tinha cinco balas.
  - Dentro de sensivelmente uma hora, apresentaremos uma
entrevista em exclusivo com Philip Kramer, o herico engenheiro
que
salvou a populao de Sutterton, e ainda a histria de dois
bailarinos
que se salvaram por um triz e uma reposio de alguns dos mais
incrveis documentrios jamais realizados. Vamos lev-lo agora
at 
Universidade de Cal Tech, onde se encontra a nossa colega Linda
Fong entrevistando o professor de Engenharia Clark Kirchner.
Linda? - disse o jornalista.
  Roshek arrumou a sua secretria de forma que os objectos
ficassem todos alinhados. Deitou para o lixo uma fotografia de
Eleanor
e virou para baixo uma de Stella.
  No cran, um homem de bigode segurava um projecto da Barragem
de Sierra Canyon.
  - Reafirmo que o paramento virado a montante, tendo em
considerao os materiais utilizados, tinha uma inclinao pelo
menos
dez por cento superior  recomendada. Era a mais alta barragem
de
terra e enrocamento do Mundo e no devia ter sido utilizada para
testar teorias avanadas que ...
  A bala perfurou o centro do cran, que rebentou com um estalo
e uma chuva de agulhas de vidro. A bala seguinte estilhaou o
vidro
de um quadro da barragem.
  Roshek ouviu Margaret gritar. Tinha sido sua secretria durante
vinte anos e era a primeira vez que a ouvia gritar.
  Do lado direito do escritrio havia uma imagem emoldurada da
central hidroelctrica em corte transversal, cujo vidro foi
desfeito
em mil pedaos pela terceira bala. Do lado de fora do gabinete,
havia agora homens que gritavam, tentando abrir a porta, mas
Roshek sabia que no conseguiriam forar a entrada a tempo. O
prximo alvo foi a vitrina contendo a maquete da barragem, que
caiu
com um rudo que lhe agradou.
  S restava uma bala. Roshek encostou o cano  tmpora direita,
ajustando o ngulo de forma que a bala entrasse bem a direito.
Queria que fosse um suicdio, e no uma tentativa de suicdio. No
podia suportar mais fracassos. O da Barragem de Sierra Canyon era
j suficiente para uma vida.
  Puxou o gatilho sem hesitar.

  PHIL telefonou a Janet de uma cabina telefnica em Chico. Um
grupo de jornalistas e reprteres de televiso aguardava prximo,
ansiosos por prosseguirem com as entrevistas.
  - s tu, Phil? - perguntou Janet antes de terminar o primeiro
toque. - Como  bom ouvir a tua voz! Vi-te na televiso h uns
minutos e parecias exausto.
  - Provavelmente porque estou exausto. Sinto-me como um
trapo que foi espremido e atirado para um canto.
  - Estou to orgulhosa de ti! O que fizeste foi fantstico!
  - Tu tambm no te saste nada mal. Os tipos da sala de controle
disseram que receberam telefonemas de todo o lado a fazer
perguntas sobre uma mulher louca em Santa Mnica.
  - Foi a nica maneira de conseguir que me levassem a srio.
Enquanto agi normalmente, pensaram que estava doida.
  - O que interessa  que deu resultado e que puseste toda a
gente
em polvorosa.
  - Que  que vais fazer agora? Quando  que nos vemos?
  - Assim que tiver dormido umas horas, apanho o primeiro
avio para ir ter contigo. Vou abraar-te e ficar assim durante
um
ms. Depois, procuro um stio onde me deixem somar e subtrair
nmeros em paz.
  - Na Roshek, Bolen & Benedetz?
  Phil riu secamente.
  - Neste momento, no estou a pensar num emprego. Estou a
pensar em dormir e em ti. No quero nunca mais ficar longe de ti
durante mais de cinco minutos seguidos. Desculpa a pieguice, mas
 o que sinto.
  - s um amor, sabias? Importas-te que te chame amor? E querido?
E doura?
  -  como se fosse msica para os meus ouvidos.

ACFRCA DO AUTOR

  Robert Byrne  no s um talentoso
  editor, jornalista e romancista, como
  tambm campeo de bilhar e engenheiro
  civil. Nascido e criado em Dubuque, no
  Iowa, licenciou-se em 1954 na Universidade de Engenharia do
Colorado e trabalhou como engenheiro em S. Francisco antes de
entrar para o jornal Weste>-n Construction.
  Como jomalista tcnico, Byrne escreveu numerosos artigos sobre
barragens, tendo visitado mais de duas dzias
  ainda em fase de construo.
  - A Barragem de Sierra Canyon ,
  evidentemente, fico - afirma o autor.
  - Mas tem algumas das caractersticas de concepo da Barragem
de
  Oroville, a norte de Sacramento: o tnel de inspeco
subterrneo, o
  arsenal de instrumentos de monitorizao e ainda o facto de ser
a barragem
mais alta do pas. Estas semelhanas, no entanto, foram adoptadas
apenas
para satisfazer as minhas convenincias. A Barragem de Oroville
 cem
por cento segura. Actualmente - prossegue Byme -, no existe ainda
nenhum mtodo computorizado que permita prever o colapso de uma
barragem. Todavia,  possvel estudar indicadores de casos
anteriores de
ruptura, e quando se verifica uma alterao sbita nas leituras,
isso pode
constituir um alerta.
  Salienta ainda que as barragens de albufeira, como a de
Oroville, so
to macias que no sofrem qualquer dano significativo causado por
um
sismo: so como montanhas - tremem mas no racham, a no ser que
estejam situadas sobre uma falha desconhecida, como  o caso da
barragem
no meu romance.
  Robert Byrne vive no distrito de Marin, nos arredores de S.
Francisco,
e est presentemente a trabalhar noutro livro em que o heri ser
um engenheiro.

FIM DO LIVRO.
